12 de setembro de 2026

Cultura

O que falta para a educação antirracista sair do papel? Seminário reúne especialistas no Museu Afro Brasil

Seminário realizado pelo Instituto TeArt no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo reúne educadores, artistas e gestores para discutir como arte, cultura e formação docente podem fortalecer práticas pedagógicas antirracistas

Barbara Braga | 11/09/2026
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- Crédito: Ação do projeto Enredar, realizado pelo Instituto TeArt, na exposição "Dura Naturalia - José Rufino" na Galeria Marco Zero, em Recife. Fotos: Morgana Narjara (@colibriaudiovisual)

Em 2003, o Brasil deu um passo importante ao sancionar a Lei 10.639, tornando obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas. Cinco anos depois, a legislação foi ampliada pela Lei 11.645, incorporando também a obrigatoriedade do ensino das histórias e culturas indígenas.

Mais de duas décadas depois, porém, uma pergunta continua mobilizando educadores, pesquisadores e movimentos sociais: como transformar a educação antirracista em uma prática cotidiana dentro das escolas brasileiras?

Embora os avanços legais tenham sido fundamentais, a implementação dessas políticas ainda enfrenta desafios relacionados à formação de professores, à construção de currículos mais plurais, ao acesso a materiais pedagógicos qualificados e à permanência de estruturas racistas que atravessam o sistema educacional.

É justamente nesse contexto que o Instituto TeArt realiza, no próximo dia 12 de setembro, o seminário “Práticas Pedagógicas Antirracistas nos Espaços de Educação e Arte”, no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, em São Paulo.

O evento contará com a apresentação de Adriana Couto e Rita Teles, será gravado e posteriormente disponibilizado no canal do Instituto TeArt no YouTube.

A iniciativa propõe uma reflexão sobre o papel da escola, dos museus, dos artistas e das instituições culturais na construção de uma educação comprometida com a diversidade, a equidade racial e a valorização das histórias afro-brasileiras, africanas e afro-diaspóricas.

A lei existe. O desafio é fazê-la acontecer

Desde a aprovação da Lei 10.639, especialistas apontam que uma das principais dificuldades para sua efetiva implementação está na formação continuada dos educadores.

Em muitas escolas, o ensino das contribuições africanas e afro-brasileiras ainda aparece de forma pontual, geralmente concentrado em datas comemorativas ou projetos específicos, sem integração consistente ao currículo escolar.

Fotos: Arquivo escolar EE Professora Fausta Garcia Bueno:Projeto “Cultura Africana” Enriquecendo a Educação em 2024

Para o curador do seminário, Claudinei Roberto da Silva e para a curadora adjunta Auana Diniz, aprofundar práticas pedagógicas comprometidas com a diversidade é uma condição essencial para a consolidação da democracia e para a promoção dos direitos humanos.

Segundo ele, investir na formação de professores da rede pública continua sendo uma das estratégias mais importantes para enfrentar desigualdades históricas e construir ambientes educacionais mais inclusivos.

Essa discussão ganha ainda mais relevância em um país onde a escola frequentemente se torna o primeiro espaço de contato de crianças e jovens com temas relacionados à identidade, pertencimento e diversidade cultural.

Quando a arte se transforma em ferramenta de educação

Um dos diferenciais do seminário está na compreensão de que a arte não é apenas um conteúdo escolar, mas também uma poderosa ferramenta de formação crítica.

Ao longo da programação, artistas, educadores e curadores discutirão como produções artísticas podem contribuir para ampliar repertórios, desafiar narrativas eurocêntricas e estimular novas formas de compreender a sociedade.

A aula-palestra de abertura, conduzida por Claudinei Roberto da Silva, propõe justamente uma revisão histórica da presença negra nas artes visuais brasileiras.

Partindo da análise da imagem da população negra ao longo da história da arte nacional, o pesquisador pretende discutir a transição de um período em que pessoas negras eram retratadas apenas como objetos de observação para um momento em que passam a ocupar o centro das próprias narrativas.

A proposta dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre representação, autoria e poder simbólico.

Arte, memória e imaginação antirracista

Outro eixo importante da programação é a discussão sobre o papel das instituições culturais na construção de imaginários mais diversos.

A mesa “Arte como educação nas práticas antirracistas” reunirá os artistas Juliana dos Santos e Denis Moreira, participantes da 36ª Bienal de São Paulo, além da curadora independente Rosa Couto.

Denis Moreira, Juliana dos Santos e Rosa Couto

O debate pretende refletir sobre como artistas e instituições culturais podem contribuir para processos de transformação social por meio da produção de novas narrativas e da valorização de experiências historicamente invisibilizadas.

A conversa também aborda o papel de museus, galerias e centros culturais na revisão de seus acervos e na desconstrução de estruturas que, durante décadas, privilegiaram perspectivas predominantemente eurocêntricas.

Nesse sentido, a arte deixa de ser apenas um espaço de contemplação para se tornar também um espaço de disputa por memória, reconhecimento e representatividade.

Ação do projeto Enredar, realizado pelo Instituto TeArt, na exposição “Dura Naturalia – José Rufino” na Galeria Marco Zero, em Recife. Fotos: Morgana Narjara (@colibriaudiovisual)

Experiências que já estão transformando a educação

O seminário também reserva espaço para experiências concretas desenvolvidas em escolas e instituições culturais.

A mesa “Práticas pedagógicas antirracistas nos espaços de educação e arte” reunirá profissionais que atuam diretamente na construção de metodologias voltadas para a equidade racial..

Entre eles está Claudia Guirao, diretora da EMEI Dona Leopoldina, reconhecida pelo projeto pedagógico “Terreiro de Infâncias: cultivando um currículo afro-brasileiro na educação infantil”.

Também participam o educador e sociólogo Sidney Rodrigues Ferrer, cuja trajetória inclui projetos desenvolvidos em territórios periféricos e instituições voltadas à produção cultural africana e afro-brasileira, e Raphaellie Laz, educadora do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.

Claudinei Roberto da Silva (foto: João Liberato), Sidney Rodrigues Ferrer e Raphaellie Laz

A proposta é compartilhar experiências, desafios e estratégias que demonstram como práticas pedagógicas antirracistas podem ser incorporadas ao cotidiano escolar e aos processos educativos realizados em museus e equipamentos culturais.

Educação antirracista também se constrói nos museus

Ao sediar o encontro, o Museu Afro Brasil Emanoel Araújo reforça seu papel como espaço de produção de conhecimento e de fortalecimento de narrativas negras.

A relação entre museu e educação aparece como um dos pilares da programação, destacando o potencial desses espaços para ampliar repertórios e promover experiências de aprendizagem que dialoguem com diferentes realidades sociais e culturais.

O seminário integra o projeto Enredar, iniciativa educativa do Instituto TeArt voltada à rede pública de ensino e desenvolvida em cidades como São Paulo, Recife, Goiânia e Brasília.

A proposta busca fortalecer a implementação das Leis 10.639 e 11.645 por meio da articulação entre arte, território e educação.

Formar professores é formar futuros

Em um cenário marcado pelo avanço de debates sobre diversidade, inclusão e justiça racial, a formação de educadores continua sendo um dos caminhos mais importantes para transformar a educação brasileira.

Implementar práticas pedagógicas antirracistas significa ampliar perspectivas, valorizar diferentes formas de conhecimento e construir ambientes escolares capazes de reconhecer a pluralidade que caracteriza o país.

Por isso, encontros como o promovido pelo Instituto TeArt não se limitam a discutir metodologias de ensino. Eles colocam em pauta uma questão fundamental para o futuro da educação brasileira: como formar novas gerações em uma sociedade que reconheça a diversidade como valor e não como exceção.

Serviço

O seminário “Práticas Pedagógicas Antirracistas nos Espaços de Educação e Arte” será realizado no dia 12 de setembro de 2026, das 10h às 18h, no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, localizado no Parque Ibirapuera, Portão 10, em São Paulo. O evento é uma realização do Instituto TeArt.

As inscrições gratuitas estão encerradas. Em caso de desistências, novas vagas serão preenchidas por ordem de chegada. O seminário também será gravado e disponibilizado posteriormente no canal do Instituto TeArt no YouTube.

Confira a programação completa

9h | Credenciamento

9h30 | Café da manhã de boas-vindas

10h | Abertura
Antonio Almeida (presidente do Instituto TeArt), Vera Nunes (superintendente artística do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo) e Auana Diniz (coordenadora do Projeto Enredar).

10h15 às 11h50 | Aula-palestra
Imagem do negro nas artes do Brasil: de sujeito de interesse a protagonista das narrativas, com Claudinei Roberto da Silva.

11h50 às 12h30 | Intervenção artística
Agbalá Conta – contação de histórias com Giselda Perê, artista e educadora.

12h30 às 13h30 | Almoço
Oferecido gratuitamente pela organização do evento.

13h30 às 15h10 | Mesa 1
Arte como educação nas práticas antirracistas, com Denis Moreira, Juliana dos Santos e Rosa Couto.
Mediação: Claudinei Roberto da Silva.

15h10 às 15h40 | Coffee break

15h40 às 17h20 | Mesa 2
Práticas pedagógicas antirracistas nos espaços de educação e arte, com Claudia Guirao, Sidney Rodrigues Ferrer e Raphaellie Laz.
Mediação: Jordana Braz.

17h20 às 18h | Painel
Curadoria e programação de cinema como aliados na reconstrução de repertórios e imaginários antirracistas, com Marcia Vaz, supervisora de programação e curadoria de cinema do Instituto Moreira Salles.

Para mais informações sobre o seminário, programação e projeto, acesse a página oficial do evento.

O seminário “Práticas Pedagógicas Antirracistas nos Espaços de Educação e Arte” é realizado com recursos da Lei Rouanet e de doações. Conta com a mantenedora Almeida & Dale (@almeidaedale) e patrocínio do Itaú BBA (@itau) e Serpro (@serprobrasil), apoio do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo (@museuafrobrasil), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo e da Sondotécnica (@sondotecnicaengenharia), e realização do Instituto TeArt e Ministério da Cultura.

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Barbara Braga