11 de setembro de 2026

Cultura

Sesc Pompeia celebra legado de Lita Cerqueira, uma das primeiras fotógrafas negras profissionais do Brasil

Exposição gratuita em São Paulo revisita mais de cinco décadas de trabalho da artista baiana, responsável por construir um dos mais importantes acervos visuais da cultura negra brasileira

Barbara Braga | 10/09/2026
Thumbnail
- Crédito: Lita Cerqueira / Divulgação

Quem registra a história também ajuda a construí-la.

Durante décadas, a fotógrafa baiana Lita Cerqueira esteve atrás das câmeras documentando personagens, territórios, manifestações culturais e momentos que ajudaram a formar a identidade negra brasileira. Agora, sua trajetória ganha destaque em uma exposição gratuita no Sesc Pompeia, em São Paulo, que apresenta ao público parte de um trabalho fundamental para a preservação da memória afro-brasileira.

Intitulada “Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar”, a mostra reúne imagens produzidas ao longo de mais de cinquenta anos de carreira e convida o público a conhecer o olhar de uma artista que transformou a fotografia em instrumento de documentação, pertencimento e resistência. A exposição permanece em cartaz até setembro no centro cultural projetado por Lina Bo Bardi.

Um olhar negro sobre a história do Brasil

Muito antes de os debates sobre representatividade ocuparem espaço nas instituições culturais brasileiras, Lita Cerqueira já registrava o cotidiano e a riqueza das experiências negras no país.

Ao longo da carreira, a fotógrafa construiu um acervo que atravessa diferentes universos: festas populares, religiosidades de matriz africana, artistas, intelectuais, lideranças comunitárias e movimentos culturais. Suas imagens se tornaram documentos históricos capazes de preservar memórias que muitas vezes ficaram fora dos registros oficiais.

Mais do que fotografar eventos, Lita desenvolveu uma obra comprometida com a valorização da população negra e com a construção de narrativas produzidas a partir de dentro dessas comunidades.

Em um país onde a história visual foi majoritariamente registrada por lentes brancas, seu trabalho ajudou a ampliar quem podia contar a história do Brasil.

A fotografia como arquivo de memória

Uma das grandes contribuições de Lita Cerqueira está na compreensão da fotografia como ferramenta de preservação cultural.

Suas imagens registram personagens que marcaram a vida artística, religiosa e política do país, mas também capturam gestos cotidianos, celebrações e manifestações populares que ajudam a contar uma história mais ampla da experiência negra brasileira.

Ao revisitar esse acervo, a exposição evidencia como a fotografia pode funcionar como um arquivo vivo, capaz de conectar diferentes gerações e preservar referências que correm o risco de serem apagadas com o tempo.

Nesse sentido, o trabalho de Lita ultrapassa o campo artístico e assume também um papel histórico.

A exposição no Sesc Pompeia chega em um momento importante de valorização da obra da fotógrafa.

Nos últimos anos, o trabalho de Lita Cerqueira passou a receber maior atenção de museus, centros culturais e pesquisadores interessados em compreender a contribuição de artistas negros para a história da fotografia brasileira.

Esse movimento ajuda a corrigir uma lacuna histórica. Durante muito tempo, fotógrafos e fotógrafas negras tiveram pouca visibilidade nos grandes circuitos institucionais, apesar da relevância de suas produções para a cultura nacional.

Ao colocar Lita no centro dessa discussão, a mostra também convida o público a refletir sobre quem produz memória, quem tem acesso aos espaços de legitimação artística e quais histórias são preservadas para as futuras gerações.

O direito de olhar e de ser visto

O título da exposição não é casual. Ao falar sobre o “direito de olhar”, a mostra propõe uma reflexão sobre representação, visibilidade e poder. Afinal, olhar não é apenas observar; é também interpretar, registrar e atribuir significado.

Ao longo de sua trajetória, Lita Cerqueira exerceu esse direito por meio da fotografia, criando imagens que ajudam a contar histórias frequentemente ignoradas pelos registros tradicionais. Seu trabalho demonstra que a fotografia não é apenas uma ferramenta estética. Ela também pode ser uma forma de afirmar existências, preservar legados e disputar narrativas.

Serviço

Exposição: Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar
Local: Sesc Pompeia, São Paulo
Entrada: Gratuita
Período: Em cartaz até 13 de setembro de 2026

A exposição é uma oportunidade de conhecer um acervo que ajuda a entender a história da cultura negra brasileira a partir de quem viveu, registrou e preservou essas experiências.

TAGS:
AUTOR:
Barbara Braga