Cultura
Davison Fortunato transforma o skate em oportunidade para jovens negros
Em entrevista à Africanize, Davison fala sobre representatividade, oportunidades e o papel do skate na transformação de jovens negros e periféricos
Enquanto muita gente enxerga o skate apenas como esporte, Davison Fortunato vê algo maior. Para ele, a pista é também um espaço de pertencimento, descoberta e construção de futuros. É onde jovens podem aprender uma manobra, mas também desenvolver autoestima, criar conexões e entender que suas histórias têm valor.
No Dia Internacional das Pessoas Afrodescendentes, celebrado em 31 de agosto, a trajetória do skatista e empreendedor social ajuda a ampliar a discussão sobre o papel do esporte e da cultura na criação de oportunidades para jovens negros e periféricos. Davison tem dedicado sua caminhada a abrir caminhos para que outras pessoas possam acessar espaços que, durante muito tempo, pareciam distantes.
Sua relação com o skate começou como a de milhares de jovens brasileiros, mas os aprendizados que encontrou nas pistas ultrapassaram o universo esportivo. Ao longo dos anos, ele compreendeu que a prática também poderia ser uma ferramenta de transformação social.
“Pertencimento não é esperar alguém dizer que você pode estar ali. É entender o seu valor e construir o seu espaço”, afirma.
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Luca Nitrocomeback | @davisonfortunato | @shigeophoto
A experiência acumulada dentro e fora das pistas mostrou que o skate poderia oferecer muito mais do que lazer ou competição. Ao conhecer novas culturas, viajar e ampliar sua visão de mundo, Davison percebeu que sua missão não era apenas ocupar os ambientes que conquistava.
“Quando percebi que o skate tinha me levado a lugares que eu nem imaginava conhecer, entendi que meu papel não poderia ser apenas atravessar essas portas. Precisava ajudar a mantê-las abertas e, quando possível, criar novas portas para quem vem depois.”
Essa visão se tornou a base dos projetos que desenvolve em diferentes territórios. Seu trabalho parte de uma constatação simples, mas poderosa: talento existe em todos os lugares, mas oportunidades não.
Para Davison, criar uma pista, um evento ou um projeto social nunca foi apenas sobre ensinar técnicas ou aperfeiçoar o desempenho esportivo. O objetivo é ampliar horizontes e mostrar novas possibilidades de futuro.
“Quero que as pessoas descubram que podem ser atletas, mas também fotógrafos, produtores, designers, empresários, comunicadores ou qualquer outra coisa que queiram construir. Mais importante do que ensinar uma manobra é ampliar o horizonte de alguém.”
Embora reconheça os avanços na presença de pessoas negras dentro do skate, Davison acredita que ainda existe um longo caminho quando o assunto é ocupação de posição de decisão.
Segundo ele, a diversidade que aparece nas pistas nem sempre se reflete em empresas, agências esportivas e posições de liderança.
“Quando entro em grandes empresas e espaços de decisão, muitas vezes vejo poucas pessoas negras; algumas vezes, nenhuma. Precisamos discutir por que essa distância ainda existe entre capacidade e oportunidade. Combater o racismo também significa criar condições reais de igualdade para trabalhar, crescer, liderar e decidir.”

@davisonfortunato | @allancarvalho
A reflexão também passa pelo letramento racial. Para o empreendedor social, falar sobre racismo, identidade e pertencimento é parte fundamental da formação dos jovens, inclusive dentro dos ambientes esportivos.
“O skate não está separado da sociedade. Uma pista reúne diferentes origens, histórias e realidades. Falar sobre racismo é uma responsabilidade de todos que desejam uma sociedade mais justa.”
O que uma criança negra deve enxergar em uma pista de skate?
Ao ser questionado sobre o que gostaria que uma criança ou jovem negro encontrasse ao chegar a uma pista de skate, Davison responde sem hesitar: possibilidade.
“Primeiro, que enxergasse naquele espaço a possibilidade de ser quem é. Depois, que olhasse para si mesmo e entendesse: ‘Eu posso estar aqui, mas também posso ir muito além daqui.’”
Para ele, a combinação entre representatividade e oportunidade tem potencial para transformar trajetórias inteiras: “Precisamos de pessoas negras não apenas participando, mas criando, liderando e decidindo”
De beneficiado a protagonista
Entre todas as mudanças que observa nos jovens que passam por seus projetos, existe uma que considera especial: o desenvolvimento da autoestima. Davison conta que o impacto mais significativo acontece quando alguém deixa de se enxergar apenas como beneficiário de uma iniciativa e passa a criar oportunidades para outras pessoas.
“A mudança mais bonita é quando o jovem entende que pode ser ou fazer o que quiser. Quando alguém passa de beneficiado a protagonista, existe uma mudança de ciclo.”
Essa é a visão que orienta seu trabalho: formar pessoas capazes de reconhecer seu próprio valor e construir novos caminhos para si e para suas comunidades.
“Não quero apenas formar skatistas. Quero ajudar a formar pessoas que entendam seu valor, busquem excelência e tenham coragem de ocupar e também criar novos espaços.”
Em um país onde o acesso ainda é um desafio para milhões de jovens negros, Davison acredita que a construção de um futuro mais justo depende de ampliar oportunidades e garantir que mais pessoas possam ocupar lugares de protagonismo. “Chegar é importante. Mas fazer com que mais pessoas possam chegar muda a história.”






