Cultura
Alcione é madrinha da primeira Festa de Santa Bárbara realizada em Lisboa
Evento acontece em setembro, em Arroios, e leva para Portugal uma celebração marcada por fé, ancestralidade, manifestações afro-brasileiras e tradições da Bahia
A fé baiana vai atravessar o Atlântico. Entre os dias 4 e 6 de setembro de 2026, Lisboa recebe pela primeira vez uma Festa de Santa Bárbara, celebração que pretende aproximar Portugal e Bahia por meio da religiosidade, cultura, música, gastronomia e ancestralidade.
Realizado na freguesia de Arroios, um dos territórios mais multiculturais da capital portuguesa, o evento terá como madrinha a cantora Alcione, conhecida como Marrom. A artista maranhense mantém uma relação afetiva com a Bahia e recebeu os títulos de Cidadã Soteropolitana e Cidadã Baiana.
Com o tema “Os ventos que ventam lá, ventam cá”, a primeira edição busca criar uma ponte entre Salvador e Lisboa, levando ao público português e à comunidade brasileira residente no país elementos de uma das celebrações religiosas e culturais mais tradicionais da Bahia.
A realização da festa em Lisboa carrega um simbolismo que vai além da programação. A devoção a Santa Bárbara chegou à Bahia pelas mãos de portugueses e, ao longo dos séculos, ganhou novas dimensões a partir das experiências culturais e religiosas construídas em Salvador.
Na Bahia, a celebração passou a estabelecer uma relação profunda com Iansã (Oyá), orixá associado aos ventos, raios, tempestades e transformações nas religiões de matriz africana. Essa aproximação faz parte do processo histórico de sincretismo religioso, em que referências do catolicismo e das tradições afro-brasileiras passaram a coexistir e produzir formas próprias de expressão da fé.
É justamente essa história de encontros que inspira a primeira Festa de Santa Bárbara em Lisboa. A tradição que chegou à Bahia a partir de Portugal retorna agora ao território português carregando as marcas que recebeu no Brasil.
Alcione como madrinha
A escolha de Alcione como madrinha acrescenta outro elemento de conexão com a cultura brasileira.
Devota de Santa Bárbara, a cantora possui uma trajetória marcada pela relação com diferentes expressões da cultura e da religiosidade brasileira. Sua ligação com a Bahia também é reconhecida institucionalmente: a artista recebeu o título de Cidadã Soteropolitana em 2014 e de Cidadã Baiana em 2025.
A presença da Marrom como madrinha transforma a celebração em mais uma oportunidade de levar para fora do Brasil referências da cultura negra e popular que atravessam sua própria trajetória.
A programação foi pensada para ir além da celebração religiosa. Ao longo dos três dias, o público poderá encontrar missa, cortejo, rodas de conversa, homenagens, manifestações culturais, exposições e gastronomia baiana.
Entre os grupos envolvidos estão Filhas de Oyá, Filhas de Gandhy, Povo de Santo, Olora Agbês, Baque de Mulher, Baque do Tejo, Lisbloco e Abadá Capoeira, reunindo diferentes linguagens e tradições em torno da celebração.
A programação também contará com a exposição “Afro Barroco Cachoeira, Recôncavo da Bahia, Religiosidade”, com curadoria do artista visual Jomar Lima, além da mostra de moda “Barafunda: Tramas de Memória, Luz e Ancestralidade”, assinada por Conceição Aflitos e Antônio Carlos dos Santos, com participação da Kayala Bordados.
No encerramento, a gastronomia também ganha espaço com a Feijoada Ayabá Lodé, proposta como um momento de confraternização e celebração da amizade entre os dois países. O encontro terá ainda apresentação do grupo de samba Gran Finale.
Santa Bárbara e Iansã: uma conexão de força e transformação
Na cultura afro-brasileira, especialmente na Bahia, a associação entre Santa Bárbara e Iansã tornou-se uma das expressões mais conhecidas do sincretismo religioso.
Santa Bárbara é tradicionalmente associada à proteção contra raios e tempestades. Já Iansã é uma orixá ligada aos ventos, às tempestades, à transformação e ao movimento. A aproximação simbólica entre as duas figuras se consolidou ao longo da história religiosa da Bahia e hoje faz parte da identidade da festa celebrada em Salvador.
Por isso, falar em Santa Bárbara na Bahia também significa falar sobre ancestralidade, resistência, fé e identidade negra. É essa dimensão que a iniciativa pretende apresentar em Lisboa, sem apagar as diferentes tradições envolvidas, mas colocando-as em diálogo.
A festa foi idealizada pela advogada baiana Maria Andreza Sá Gonçalves, presidente do Instituto Cultural e Artístico Luso-Brasileiro Maria Andreza Sá. Vivendo entre Portugal e Bahia há décadas, ela desenvolveu o projeto a partir de sua própria relação familiar e espiritual com Santa Bárbara.
Segundo a organização, a proposta é promover a internacionalização da cultura afro-brasileira em Portugal, criando um espaço de encontro para brasileiros que vivem no país e para o público português.
Serviço
A 1ª Festa de Santa Bárbara – Os Ventos de Oyá acontece entre os dias 4 e 6 de setembro de 2026, em Arroios, Lisboa, Portugal. A programação será realizada na Igreja de Nossa Senhora dos Anjos e em outros espaços da região.
A programação completa reúne celebrações religiosas, cortejo, manifestações afro-brasileiras, exposições, gastronomia e atividades culturais.




