18 de agosto de 2026

Afri News

Jason Arday: milhares participam de vigília em Londres após morte de ex-professor de Cambridge

A morte do sociólogo, que deixou Cambridge após acusações de plágio, reacendeu debates sobre racismo, pressão da imprensa e exposição de acadêmicos negros no Reino Unido

Barbara Braga | 18/08/2026
Thumbnail
- Crédito: Reprodução/St Mary's University, Twickenham

Milhares de pessoas se reuniram na segunda-feira (17), na Trafalgar Square, em Londres, para homenagear Jason Arday, ex-professor da Universidade de Cambridge encontrado morto aos 41 anos. Organizada pelo grupo Stand Up to Racism, a vigília foi marcada por flores e cartazes com a mensagem “Rest In Power Professor Jason Arday”.

A morte de Arday aconteceu poucos dias depois de sua renúncia a Cambridge, em meio a uma investigação sobre seu trabalho acadêmico e suas credenciais. Em 2023, aos 37 anos, ele havia se tornado o mais jovem homem negro nomeado professor na história da universidade.

Reuters

O caso ganhou novas dimensões após a morte do professor e passou a envolver debates sobre integridade acadêmica, racismo, pressão da imprensa e o tratamento dado a acadêmicos negros em instituições de elite.

Quem foi Jason Arday

Sociólogo especializado em raça, desigualdade e educação, Jason Arday assumiu a cátedra de Sociologia da Educação em Cambridge em março de 2023. Antes disso, foi professor de Sociologia da Educação na Universidade de Glasgow e ocupou posições acadêmicas na Durham University.

Sua pesquisa abordava temas como raça, ensino superior, saúde mental, neurodiversidade e desigualdades educacionais.

Sua nomeação em Cambridge teve repercussão internacional por representar um marco de diversidade em uma das universidades mais tradicionais do Reino Unido. A própria instituição destacou sua trajetória e seu trabalho voltado à inclusão de grupos sub-representados no ensino superior.

As acusações que antecederam a renúncia

Nas semanas anteriores à sua morte, Arday passou a ser alvo de questionamentos sobre seu trabalho acadêmico e informações presentes em seu histórico profissional.

Entre as principais acusações estavam supostas semelhanças entre trechos de sua tese de doutorado, defendida em 2015 na Liverpool John Moores University, e trabalhos publicados anteriormente por outra pesquisadora. Também surgiram questionamentos sobre artigos científicos e outras informações relacionadas à sua trajetória acadêmica.

Arday negou ter cometido fraude acadêmica. Ele reconheceu ter cometido erros, mas rejeitou ser caracterizado como mentiroso ou fraudador. Uma investigação anterior conduzida pela Liverpool John Moores University havia concluído que não houve plágio em sua tese.

Novas denúncias, porém, levaram Cambridge a abrir uma investigação sobre sua nomeação e suas credenciais. Arday renunciou ao cargo em 5 de agosto. Em sua declaração, afirmou que as acusações, especulações e comentários públicos haviam causado um impacto profundo sobre ele e as pessoas que amava.

A morte de Arday e a pressão da imprensa

Arday foi encontrado morto em uma propriedade em Battersea, no sul de Londres, em 14 de agosto. A Metropolitan Police informou que a morte foi inesperada, mas não estava sendo tratada como suspeita. As circunstâncias continuam sendo investigadas.

Após sua morte, a família afirmou que Arday havia sido submetido a uma campanha de desinformação e assédio e apontou a pressão sofrida nas últimas semanas como um fator que contribuiu para sua morte.

A cobertura da imprensa tornou-se um dos principais pontos de discussão. Além das acusações acadêmicas, veículos passaram a investigar outros aspectos de sua trajetória pessoal e profissional, ampliando significativamente a exposição do professor.

Ainda não existe uma conclusão oficial que estabeleça que a pressão da imprensa, o racismo ou o processo conduzido por Cambridge tenham causado sua morte. Por isso, essas relações precisam ser apresentadas como alegações e questionamentos feitos por familiares, apoiadores e participantes da mobilização, e não como uma causa já comprovada.

Cambridge critica reação ao caso

Após a morte de Arday, o chanceler da Universidade de Cambridge, Lord Chris Smith, criticou a forma como o caso foi tratado publicamente e classificou a reação como um “frenesi racista” (racist feeding frenzy).

Smith afirmou que alegações de má conduta acadêmica precisam ser investigadas, mas criticou a transformação do caso em uma campanha racializada contra Arday.

Cambridge também anunciou uma revisão de seus processos relacionados à nomeação de Arday. A universidade terá de esclarecer como suas credenciais foram avaliadas e como o processo institucional foi conduzido diante das novas denúncias.

Vigília “Rest in Power” reúne milhares em Londres

Na segunda-feira (17), milhares de pessoas participaram da vigília organizada pelo Stand Up to Racism na Trafalgar Square. Familiares, acadêmicos, políticos e apoiadores prestaram homenagens a Arday e denunciaram o que consideram uma exposição excessiva e racializada do professor.

A mobilização também ganhou dimensão política. Uma petição que pede uma investigação pública sobre o tratamento dado a Arday pela imprensa já havia ultrapassado 31 mil assinaturas e contava com o apoio de parlamentares britânicos. Posteriormente, o número ultrapassou 85 mil assinaturas.

Reuters

O caso de Jason Arday agora reúne questões que vão além das acusações acadêmicas: a responsabilidade da imprensa, o racismo enfrentado por profissionais negros, os procedimentos de universidades de elite e o impacto da exposição pública sobre a vida de uma pessoa.

As investigações sobre suas credenciais, sobre sua morte e os pedidos por uma apuração da cobertura da imprensa devem ajudar a esclarecer os diferentes aspectos que cercam os últimos dias de Arday.

TAGS:
AUTOR:
Barbara Braga