Política
Crianças de Uganda aparecem em vídeo pedindo votos para Bolsonaro e levantam debate sobre uso de imagem infantil em campanha política brasileira
Grupo conhecido por vídeos de dança publicou conteúdo em que crianças repetem “22 é Bolsonaro” e divulgam parceria relacionada ao token $B22
Crianças negras de Uganda, integrantes do grupo Hypers Kids Africa, aparecem em um vídeo publicado nas redes sociais repetindo a frase “Vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro” e pedindo que o público compartilhe a publicação e apoie o chamado $B22. O conteúdo também cita os políticos Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro e Pablo Marçal.
Na legenda da publicação, o grupo afirma ter recebido 120 milhões de $B22 tokens por meio da parceria e apresenta a ação como uma forma de apoiar o projeto. O texto também orienta os seguidores a comprar o token, compartilhá-lo nas redes sociais e visitar um site para aprender como ganhar tokens ao incentivar outras pessoas a votar no número 22.
O caso chamou atenção justamente pela participação de crianças em uma comunicação de caráter político voltada ao eleitorado brasileiro.
Crianças conhecidas pela dança
O Hypers Kids Africa é um grupo de crianças e jovens de Uganda que ganhou projeção internacional por seus vídeos de dança publicados nas redes sociais. A presença do grupo em conteúdos relacionados à música e à cultura brasileira também ajudou a aproximar seus integrantes do público do país.
É essa imagem construída ao longo do tempo, marcada pela dança, pela espontaneidade e pela alegria, que agora aparece associada a uma mensagem eleitoral brasileira.
A questão levantada não é a presença de crianças africanas em conteúdos relacionados ao Brasil. A circulação cultural entre países pode aproximar públicos e criar novas formas de conexão.
O ponto de atenção está no uso dessa imagem para uma mensagem política.
Quem é responsável pela mensagem?
A publicação apresenta a participação das crianças como uma parceria. Por isso, a discussão não deve ser direcionada às crianças que aparecem no vídeo, mas aos adultos responsáveis pela produção, autorização, negociação e gestão da ação.
Não há, no material divulgado, informação que permita afirmar o que cada uma das crianças compreende sobre o cenário político brasileiro, sobre os candidatos citados ou sobre o significado eleitoral do número 22.
É justamente essa ausência de informação que torna importante discutir a responsabilidade dos adultos envolvidos.
Em uma comunicação política, a escolha de uma criança não é neutra. Sua imagem pode transmitir espontaneidade, inocência e identificação emocional de uma maneira diferente da participação de um adulto.
Quando a imagem de crianças negras vira instrumento de narrativa
O episódio também remete a uma discussão mais ampla sobre a forma como imagens de crianças negras africanas são utilizadas para construir narrativas.
Durante décadas, fotografias e vídeos de crianças africanas em situações de pobreza foram utilizados em campanhas de arrecadação e comunicação humanitária para provocar comoção. Esse modelo de representação é questionado justamente porque pode reduzir pessoas e comunidades a imagens que servem aos objetivos de quem produz a campanha.
O paralelo, neste caso, não significa dizer que as duas situações sejam idênticas. O ponto em comum está na utilização da imagem de crianças negras para transmitir uma mensagem construída por terceiros.
A diferença é que, neste episódio, a imagem das crianças aparece diretamente associada a uma mensagem eleitoral brasileira.
A infância não deveria carregar uma disputa que não é dela
O debate provocado pelo vídeo não precisa transformar as crianças em alvo de críticas ou ataques nas redes sociais. Ao contrário: a responsabilidade deve ser direcionada a quem decidiu utilizar a participação delas em uma comunicação política.
As crianças podem dançar, cantar, conhecer outras culturas e produzir conteúdos que atravessem fronteiras. O que precisa ser discutido é quando essa imagem passa a ser utilizada para representar uma posição política em um país no qual elas não são eleitoras e cuja disputa eleitoral não lhes pertence.
A questão, portanto, não é simplesmente se houve ou não uma parceria comercial.
É perguntar quais são os limites éticos para o uso da imagem de crianças em publicidade política e qual responsabilidade cabe aos adultos que colocam essa imagem no centro de uma campanha.
Porque, antes de serem personagens de um vídeo que circula internacionalmente, elas são crianças. E crianças negras de países africanos não deveriam ser tratadas como peças de uma campanha eleitoral brasileira.




