8 de outubro de 2026

Política

Ana Elisa leva sua estratégia digital para Lula: “Nosso maior panfleto está no telefone”

Aos 21 anos, deputada federal eleita por Minas Gerais atribui cerca de 90% dos seus 524 mil votos à atuação digital e agora participa das discussões sobre a comunicação de Lula no segundo turno

Barbara Braga | 07/10/2026
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- Crédito: @ricardostuckert | @lulaoficial

A política brasileira ganhou mais uma prova de que a disputa eleitoral já não acontece apenas nas ruas, nos palanques ou no horário eleitoral. Ela também está no celular, e Ana Elisa Santos Silva, aos 21 anos, chega ao centro dessa discussão depois de transformar sua presença nas redes sociais em votação expressiva nas urnas.

Eleita deputada federal por Minas Gerais com 524.219 votos, Ana Elisa atribui cerca de 90% de sua votação ao trabalho desenvolvido nas redes sociais durante mais de dois anos. A jovem, que construiu sua projeção política principalmente pela internet, agora colocou essa experiência à disposição da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno da eleição presidencial.

“Nosso maior panfleto está no telefone e na rede social”, afirmou Ana Elisa nesta quarta-feira (7), em Brasília, ao falar sobre a nova etapa de sua atuação política.

A frase resume não apenas a estratégia que ajudou a levá-la ao Congresso, mas uma mudança na própria maneira de fazer campanha. Para Ana Elisa, a comunicação digital deixou de ser complemento da política tradicional e passou a ocupar um lugar central na disputa pela atenção e pelo voto.

Uma eleição construída na internet

Ana Elisa chegou às urnas depois de mais de dois anos produzindo conteúdo político nas plataformas digitais. Seus vídeos abordam temas como direitos sociais, educação, questões raciais, direitos trabalhistas e política, geralmente utilizando uma linguagem mais direta e próxima do cotidiano de quem acompanha as redes.

O resultado dessa construção apareceu no dia da eleição.

Com 524.219 votos, ela foi a segunda candidata mais votada para a Câmara dos Deputados em Minas Gerais e se tornou a deputada federal mais jovem eleita no país. Antes mesmo de chegar ao Congresso, já havia reunido milhões de seguidores nas redes.

A dimensão territorial da votação também chamou sua atenção. Ana Elisa afirma que esteve presencialmente em cerca de 20 municípios durante a campanha, mas recebeu votos nos 853 municípios mineiros.

Para ela, o dado mostra uma característica particular da comunicação digital: a possibilidade de alcançar territórios onde o candidato não necessariamente conseguiu estar fisicamente.

“É a prova que a rede social chega muito antes do que o nosso próprio corpo nos territórios”, afirmou.

A experiência ajuda a explicar por que, poucos dias depois da eleição, ela passou de candidata recém-eleita a participante de conversas sobre a estratégia digital da campanha presidencial.

De candidata a peça da comunicação de Lula

Ana Elisa esteve em Brasília nesta semana para participar das articulações do segundo turno e contou que passou a noite de terça-feira, até as 23h, reunida com integrantes da comunicação de Lula.

O objetivo foi discutir maneiras de ampliar a presença do presidente nas redes e encontrar formatos que aproximem sua comunicação das linguagens utilizadas atualmente nas plataformas digitais.

A movimentação já produziu uma mudança visível.

Nesta quarta-feira (7), Lula publicou um vídeo em formato selfie, uma linguagem muito associada às redes e que vinha sendo discutida pela equipe. O registro marcou uma tentativa de tornar a presença digital do presidente mais direta e menos dependente dos formatos tradicionais de comunicação política.

A cena também evidencia o contraste que tornou a participação de Ana Elisa tão simbólica.

De um lado, Lula, cuja trajetória política foi construída durante décadas em comícios, televisão, rádio, sindicatos e grandes mobilizações populares. Do outro, uma jovem que entrou na política institucional depois de construir comunidade e audiência no ambiente digital.

Não se trata apenas de uma diferença de idade. É uma diferença de linguagem, formação política e relação com o público.

A esquerda e o desafio de entender as redes

Desde antes da eleição, Ana Elisa vinha defendendo uma mudança na maneira como a esquerda se comunica na internet. Depois de seu resultado nas urnas, ela passou a apresentar a própria trajetória como evidência de que redes sociais também elegem.

“Foi provado para a esquerda que redes sociais elegem”, afirmou.

A discussão, porém, vai além de produzir vídeos mais curtos ou abrir novas contas em plataformas.

O desafio está em entender que cada rede possui uma dinâmica própria e que o público não necessariamente quer receber na internet o mesmo conteúdo produzido para televisão, palanque ou propaganda eleitoral tradicional.

No ambiente digital, informação, entretenimento, opinião, militância e publicidade disputam o mesmo espaço. O conteúdo precisa conquistar atenção antes mesmo de conseguir apresentar sua mensagem.

É justamente nesse território que Ana Elisa construiu sua força política.

Sua experiência mostra que uma campanha pode começar muito antes do período eleitoral: na construção de uma comunidade, na frequência das publicações, na criação de identificação e na capacidade de transformar um assunto institucional em uma conversa que faça sentido para quem está do outro lado da tela.

A disputa por eleitores que não estão no mesmo campo político

Outro ponto levantado por Ana Elisa durante as discussões do segundo turno é a necessidade de conversar com eleitores que não necessariamente fazem parte da base tradicional do PT.

Entre os grupos mencionados está parte do eleitorado de Renan Santos, candidato do Missão no primeiro turno. Ana Elisa avalia que existe espaço para conversar com esse público e considera que parte desses eleitores busca uma alternativa ao bolsonarismo.

A análise faz parte de sua leitura sobre a disputa pelo voto no segundo turno, mas também revela uma questão maior: como conversar com quem não está previamente convencido?

Para a política nas redes, essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis. Os algoritmos podem aproximar pessoas que pensam de maneira semelhante e criar comunidades extremamente engajadas. Ao mesmo tempo, tornam mais difícil estabelecer diálogo com quem está fora daquela bolha.

Por isso, ocupar as redes não significa apenas falar mais alto. Significa conseguir alcançar públicos diferentes sem transformar toda conversa política em disputa de torcida.

Uma nova geração ocupando o centro da política

A história de Ana Elisa também chama atenção pelo que representa geracionalmente.

Aos 21 anos, ela chega ao Congresso depois de construir sua principal ferramenta política fora das instituições tradicionais. Sua experiência nasceu no ambiente digital e só depois chegou às urnas.

Essa trajetória representa uma geração que aprendeu a produzir conteúdo, formar comunidades e disputar narrativas antes mesmo de ocupar espaços institucionais.

No caso de uma jovem negra, essa ocupação também ganha uma dimensão de representação. A política institucional brasileira ainda é marcada por desigualdades de gênero, raça e idade, e a chegada de novos perfis ao Congresso amplia o debate sobre quem participa das decisões que afetam a sociedade.

Ana Elisa agora terá que fazer o caminho inverso: levar para dentro de uma instituição tradicional a experiência adquirida em um ambiente em constante transformação.

O celular como território político

Durante décadas, o panfleto foi uma das ferramentas mais básicas de uma campanha. Era preciso imprimir, distribuir e chegar fisicamente até o eleitor.

Hoje, uma mensagem pode atravessar um estado inteiro em segundos.

Foi essa transformação que Ana Elisa resumiu ao dizer que “nosso maior panfleto está no telefone”.

Sua própria eleição é um exemplo desse novo cenário. A deputada eleita afirma ter feito grande parte de sua campanha pelas redes e ter alcançado eleitores em todos os municípios de Minas Gerais, mesmo sem conseguir estar fisicamente em todos eles.

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Barbara Braga