Afri News
Breque dos Apps: entregadores fazem paralisação nacional por melhores condições de trabalho
Trabalhadores reivindicam valor mínimo de R$ 10 por entrega de até 4 km, adicional por quilômetro rodado e mais transparência nos bloqueios realizados pelas plataformas
Os entregadores de aplicativos realizam nesta terça-feira (1º) uma paralisação nacional contra as condições de trabalho e os valores pagos pelas plataformas de delivery. Batizado de “Breque Geral dos Apps”, o movimento é articulado por trabalhadores por meio das redes sociais e de grupos de mensagens e reúne manifestações em diferentes cidades brasileiras.
Entre as principais reivindicações está a criação de uma taxa mínima de R$ 10 para entregas de até 4 quilômetros, além do pagamento de R$ 2,50 por quilômetro adicional. Para os trabalhadores, os valores praticados atualmente não acompanham os custos envolvidos na atividade, como combustível, manutenção dos veículos, alimentação e outros gastos do dia a dia.
A mobilização também cobra mudanças na forma como as plataformas administram os bloqueios e suspensões de contas. Os entregadores reivindicam critérios mais claros e mecanismos que permitam contestar decisões, principalmente nos casos em que os bloqueios são realizados de forma automatizada.
Outro ponto de insatisfação é o modelo “+Entregas”, adotado pelo iFood. A iniciativa direciona entregadores para determinadas regiões e horários com a promessa de aumentar a quantidade de pedidos recebidos.
Para representantes do movimento, porém, o sistema pode reduzir a autonomia dos trabalhadores e criar uma dinâmica em que quem não participa dessas áreas ou horários acaba tendo dificuldades para alcançar uma remuneração considerada adequada.
Durante a paralisação, os organizadores orientam os trabalhadores a ficarem offline dos aplicativos. Além disso, estão sendo realizados atos presenciais, buzinaços e carreatas em diferentes pontos do país.
Em São Paulo, cerca de 300 motociclistas se concentraram na região do Pacaembu e seguiram em direção às sedes de empresas como 99 e iFood, segundo informações divulgadas nesta terça-feira.
Mobilização também envolve denúncias sobre bônus
Durante o movimento, surgiram ainda acusações de que algumas plataformas teriam oferecido bônus temporários aos entregadores durante o período da paralisação.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, trabalhadores denunciaram ao Ministério Público do Trabalho (MPT) que empresas como Keeta e 99Food teriam oferecido valores extras, entre R$ 3 e R$ 9, durante os horários dos protestos.
A Keeta negou que os bônus tivessem como objetivo esvaziar a mobilização. A 99Food, por sua vez, não havia se manifestado sobre a denúncia até a publicação das informações.
Debate sobre regulamentação dos trabalhadores de aplicativos
O Breque dos Apps acontece em meio a uma discussão maior sobre a regulamentação do trabalho realizado por meio de plataformas digitais.
O PLP 152/2025 está entre as propostas que buscam estabelecer regras para motoristas e entregadores que trabalham por aplicativos. O texto prevê medidas relacionadas à remuneração, proteção social, seguros e transparência nos critérios utilizados pelas empresas, mantendo os trabalhadores como autônomos.
Parte dos entregadores, no entanto, considera que a proposta ainda é insuficiente e teme que a regulamentação possa formalizar uma relação de trabalho sem garantir direitos considerados essenciais pela categoria.
Entidades ligadas às plataformas defendem a criação de uma regulamentação que estabeleça direitos e proteções sem inviabilizar o modelo de negócios. O debate envolve, de um lado, a necessidade de garantir condições mais dignas para quem trabalha nas ruas e, de outro, a sustentabilidade econômica das plataformas e do próprio serviço de entrega.
Uma reivindicação que não começou agora
O atual movimento recupera o histórico de mobilizações dos trabalhadores de aplicativos no Brasil. Em 2020, durante a pandemia de Covid-19, entregadores organizaram uma série de paralisações nacionais que ficaram conhecidas como “Breque dos Apps”.
Naquele período, enquanto os pedidos por delivery aumentavam e os trabalhadores permaneciam nas ruas, a categoria já denunciava baixa remuneração, jornadas extensas, aumento dos custos de trabalho e falta de proteção social.
Seis anos depois, muitas dessas questões continuam no centro das reivindicações. O movimento desta terça-feira coloca novamente em evidência uma discussão que ultrapassa as taxas de cada entrega: quem trabalha por meio dos aplicativos deve ter quais garantias, direitos e formas de proteção?




