27 de julho de 2026

Entrevistas

Zezé Motta: de Xica da Silva para a eternidade

Xica da Silva completa 50 anos de sua estreia em 2026 e Zezé Motta, aos 82 anos, continua sendo impactando o audiovisual brasileiro

Michael Fonseca | 27/07/2026
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- Crédito: Divulgação

Quando se fala em carreira de sucesso e legado na dramaturgia brasileira, Zezé Motta é um dos nomes a se lembrar. Em seis décadas de carreira, a atriz, cantora e ativista se consolidou como referência no cinema, na televisão, no teatro e na música, além de se tornar uma voz fundamental nos debates sobre igualdade racial e representatividade.

A artista ficou mundialmente conhecida por protagonizar “Xica da Silva”, filme de Cacá Diegues de 1976 e um dos pioneiros do movimento Cinema Novo. Em 2026, o filme completa 50 anos ainda sendo reverenciado como um dos grandes filmes brasileiros e um dos principais longas com protagonismo negro, em uma época que ainda não era tão comum ver negros em papeis de destaque.

“Acho que Xica da Silva atravessou o tempo porque nunca foi apenas um filme. Ele abriu uma conversa importante sobre poder, raça, desejo, liberdade e sobre as contradições da formação do Brasil. Cinquenta anos depois, muitos dos temas que o filme provoca ainda estão presentes na nossa sociedade, e isso faz com que ele continue dialogando com diferentes gerações.”, reflete Zezé Motta.

Em julho, o filme volta em cartaz pela Sessão Vitrine Petrobras e também será tema da Salgueiro no Carnaval 2027, além de já ter se tornado até novela. Mesmo cinco décadas, Motta ainda é lembrada por sua atuação emblemática no papel de Xica.

“A arte tem esse poder: ela pode envelhecer, mas, quando toca em questões humanas profundas, continua viva. É por isso que me emociona ver jovens que nem eram nascidos quando o filme foi lançado assistindo a Xica da Silva hoje e encontrando nele reflexões que ainda fazem sentido.”

O filme evidenciou sua potência e sua carreira tomou voos maiores e abriu novas oportunidades. Desde então, seu currículo ficou cada vez mais extenso, conquistando o público no cinema, novelas, teatro e na música. Entre os destaques, a novela Corpo a Corpo, o qual a atriz considera outro grande ponto alto da sua carreira.

A atriz também participou da novela “Xica da Silva”, de 1996, onde interpretou a mãe de Xica, o longa “Anjos da Noite”, de 1987, lançou o álbum “Zezé Motta”, em 1977, o álbum “Negritude, em 1978, e mais diversos outros trabalhos que não caberiam em um parágrafo. Atualmente, ela interpreta a benzedeira “Dona Menina” na novela “A Nobreza do Amor”.

“Antes de tudo, eu me sinto muito honrada quando as pessoas falam em legado. Acho que legado não é aquilo que a gente decide deixar, mas o que constrói ao longo da vida, com escolhas, coragem e coerência. Eu tive o privilégio de interpretar personagens marcantes, como a Xica, mas também procurei usar a minha voz para abrir caminhos e questionar estruturas que, durante muito tempo, limitaram a presença de artistas negros na televisão, no cinema e no teatro”, comentou Motta.

Além de ser essa potência da dramaturgia, ela deixou seu nome marcado na luta pela igualdade racial. Zezé Motta usou sua força e influência para ajudar a criar o Movimento Negro Unificado (MNU), que completou 48 anos no dia 07 de julho e foi um dos capitulos mais importantes da luta racial do Brasil. Ela concorda que hoje evoluimos e temos mais representatividade na arte, no mundo acadêmico e nas demais áreas, mas diz que aprendeu que “representatividade sozinha não transforma uma estrutura”.

“Como dizia Lélia Gonzalez, é preciso olhar para as raízes das desigualdades. Não basta estarmos presentes; é preciso que tenhamos oportunidades reais de crescer, decidir, criar e ocupar espaços de poder. Ainda convivemos com o racismo, muitas vezes de forma silenciosa, mas muito presente no mercado de trabalho, na educação, na cultura e no acesso aos direitos.”

Aos longos da sua seis décadas de carreira, ela adquiriu muita experiência e se tornou uma referência para artistas mais novos, seja aqueles que ainda estão começando a carreira ou aqueles que já estão consolidados. Para os mais novos, ela aconselha que não percam sua essência e é preciso muita persistência para seguir.

“Eu diria para nunca perderem de vista quem vocês são. A carreira artística é feita de talento, claro, mas também de estudo, disciplina, persistência e muita coragem. Nem sempre as portas vão se abrir com facilidade, e eu sei disso porque vivi essa realidade. Mas acreditem no valor da sua história e da sua identidade.”

“Também aconselho a não esperarem que alguém autorize seus sonhos. Busquem formação, criem seus próprios projetos, estabeleçam redes de apoio e estejam preparados para as oportunidades quando elas aparecerem. A arte é um exercício permanente de aprendizado e de reinvenção”, complementou.

Zezé Motta é sinônimo de excelência e uma carreira sólida, sempre foi ativa na sua carreira. Desde 1987, ela está presente em pelo menos um projeto no cinema, na tv ou no teatro por ano (com exceção de 2008 e 1991). Mas agora, mesmo continuando ativa, aprendeu a valorizar mais a vida fora do trabalho.

“A Zezé do começo da carreira tinha muitos sonhos e uma enorme vontade de trabalhar. A Zezé de hoje continua sonhando, mas aprendeu que a vida não se resume às conquistas profissionais. Entendi que o tempo é precioso, que os afetos precisam ser cultivados e que a nossa maior força está em permanecermos fiéis a quem somos.”

Mesmo com papéis emblemáticos em toda sua trajetória, sendo protagonista no cinema e na televisão. Zezé Motta ainda tem muito trabalho pela frente e muitas oportunidades que ainda não conseguiu viver, como ser uma antagonista. “Adoraria fazer uma vilã, de verdade, uma mulher poderosa, vaidosa…”

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Michael Fonseca