25 de agosto de 2026

Representatividade

Vercilene Dias é a primeira quilombola a conquistar doutorado em Direito no Brasil

Nascida no território Kalunga, em Goiás, advogada defendeu tese na UnB sobre as formas próprias de organização e produção de conhecimento de sua comunidade

Barbara Braga | 25/08/2026
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- Crédito: @vercikalunga

O território que ensinou Vercilene Francisco Dias a compreender o mundo também se tornou objeto de sua pesquisa acadêmica. Nascida na comunidade Vão do Moleque, no Território Quilombola Kalunga, em Goiás, a advogada entrou para a história em agosto de 2026 ao se tornar a primeira mulher quilombola a obter o título de doutora em Direito no Brasil.

A conquista aconteceu em 11 de agosto, quando Vercilene defendeu, na Universidade de Brasília (UnB), a tese “Começo, Meio e Começo: O Direito Achado Entre os Vãos do Território Quilombola Kalunga”. O trabalho investiga como a própria comunidade constrói formas de normatividade, organização social e resolução de conflitos, levando para dentro da universidade conhecimentos produzidos a partir da experiência quilombola.

A trajetória de Vercilene representa a ocupação de um espaço historicamente distante das populações quilombolas e coloca no centro do debate jurídico saberes construídos dentro de um território negro.

Uma trajetória que começou no território Kalunga

Antes do doutorado, Vercilene já havia construído outros caminhos de pioneirismo. Ela se formou em Direito pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e, em 2019, concluiu o mestrado em Direito Agrário na mesma instituição, com uma pesquisa dedicada aos conflitos territoriais da comunidade Kalunga.

A relação com o Direito, porém, não nasceu apenas nos livros.

A infância no território fez com que ela acompanhasse de perto os conflitos que atingiam sua comunidade e as disputas relacionadas à permanência e ao reconhecimento das terras quilombolas. Em entrevista ao Brasil Escola, Vercilene contou que, aos 8 anos, trabalhava na roça com os pais. A experiência comunitária e a percepção das ameaças ao território acabaram influenciando sua escolha profissional.

Foi nesse caminho que o Direito deixou de ser apenas uma profissão e passou a ser também uma ferramenta de defesa do território, da memória e dos direitos quilombolas.

O título do doutorado de Vercilene já anuncia uma perspectiva diferente da tradicional produção acadêmica sobre comunidades quilombolas.

Em vez de analisar o território Kalunga somente a partir das normas criadas pelo Estado, sua pesquisa investiga as formas pelas quais a própria comunidade produz e atualiza suas regras de convivência.

A tese parte das relações entre identidade, territorialidade, ancestralidade e luta coletiva pela permanência no território. Segundo o resumo oficial registrado pela UnB, o território não é compreendido apenas como espaço físico, mas como lugar de produção de vida, memória, pertencimento e organização comunitária.

A pesquisa também dialoga com conceitos como pluralismo jurídico, epistemologias negras e perspectivas contra-coloniais, reconhecendo que existem formas de juridicidade construídas pela própria comunidade que coexistem, dialogam e, em alguns momentos, entram em tensão com o direito estatal.

É uma mudança importante de perspectiva: em vez de tratar os conhecimentos quilombolas apenas como objeto de estudo, Vercilene os apresenta como fontes legítimas de conhecimento e organização social.

“Essa tese não é minha. Ela é nossa”

A dimensão coletiva da conquista aparece também na maneira como Vercilene fala sobre sua trajetória.

Ao refletir sobre o doutorado, a advogada destaca que a universidade lhe ofereceu ferramentas formais para compreender o Direito, mas que sua sensibilidade, sua maneira de atuar e seu olhar sobre o território foram construídos na comunidade.

Por isso, o título conquistado não é apresentado apenas como uma realização pessoal. A própria pesquisa é compreendida como uma produção coletiva, construída a partir das histórias, memórias e experiências das pessoas que vivem no território Kalunga. Em entrevista, Vercilene afirmou que a tese não é apenas dela, mas do território e da comunidade.

Essa perspectiva também rompe com uma ideia individualizada de sucesso acadêmico. Vercilene chega à universidade levando consigo as pessoas, os saberes e a memória do lugar de onde veio.

A trajetória da pesquisadora evidencia ainda a importância da presença quilombola nas universidades.

Ao ocupar o espaço acadêmico, Vercilene não apenas alcança o título de doutora. Ela questiona quais conhecimentos são reconhecidos como legítimos dentro das instituições de ensino e pesquisa e amplia a possibilidade de que outros pesquisadores quilombolas também encontrem espaço para produzir ciência a partir de suas próprias experiências.

Na pesquisa, elementos como oralidade, memória ancestral, convivência comunitária e processos coletivos de decisão aparecem como componentes fundamentais para compreender a organização do território Kalunga.

O resultado é uma produção acadêmica que aproxima Direito, território, ancestralidade e resistência.

Hoje, Vercilene atua como assessora e coordenadora jurídica da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), mantendo sua atuação diretamente ligada à defesa dos direitos das comunidades quilombolas.

Seu percurso, portanto, não termina com o diploma. Pelo contrário: o doutorado amplia uma atuação que já estava profundamente conectada à defesa dos territórios e da autonomia quilombola.

Kalunga: território, memória e resistência

O Território Quilombola Kalunga está localizado no nordeste de Goiás e abrange áreas dos municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás. É considerado o maior território quilombola em extensão do Brasil.

Foi nesse espaço que Vercilene construiu as primeiras referências que posteriormente levaria para a universidade. Sua história ajuda a lembrar que um quilombo não é apenas uma delimitação territorial. É também comunidade, memória, ancestralidade, cultura, organização política e resistência.

A primeira mulher quilombola doutora em Direito no Brasil chega ao título carregando uma história que começou muito antes da universidade. Seu diploma é individual, mas o conhecimento que o sustenta pertence a muitas mãos.

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Barbara Braga