10 de fevereiro de 2026

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Universidade historicamente negra é acusada de orientar estudante a retirar a palavra “Black” de material do Mês da História Negra

O incidente em uma HBCU reflete um embate mais amplo sobre como universidades públicas lidam com linguagem racial sob regulamentações anti-DEI

Barbara Braga | 10/02/2026
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- Crédito: Cortesia de Universidade Agrícola e Mecânica da Flórida

O episódio envolvendo a Florida A&M University (FAMU), onde uma estudante de Direito afirmou ter sido orientada a não usar a palavra “Black” em panfletos do Mês da História Negra, não acontece de forma isolada. Ele surge em meio a um cenário legislativo e institucional mais amplo nos Estados Unidos, em que políticas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) vêm sendo fortemente contestadas e, em vários casos, limitadas ou restringidas por leis e diretrizes nos últimos anos.

Desde 2024, diversas assembleias legislativas estaduais adotaram leis que impõem restrições a programas e termos relacionados a DEI em universidades públicas. Essas medidas variam de estado para estado, mas têm em comum a tentativa de limitar expressões consideradas alinhadas a identidade racial ou grupos específicos, muitas vezes sob a justificativa de neutralidade ou de evitar supostas práticas “partidárias” ou “divisivas”.

Por exemplo, em estados como Ohio, o Senate Bill 1, que entrou em vigor em 2025, proibiu certas práticas de diversidade e vinculou a manutenção de financiamento público ao cumprimento estrito dessas regras. Em outros locais, leis semelhantes desencorajaram a criação de departamentos de DEI ou tornaram mais cautelosa a linguagem usada em materiais que mencionem raça, comunidade ou identidade cultural.

Esse ambiente legislativo fragmentado criou uma incerteza jurídica e administrativa para universidades públicas, que muitas vezes se veem entre a missão de apoiar seus estudantes, especialmente em temas de identidade e diversidade, e a necessidade de cumprir normas estatais e federais cada vez mais rigorosas sobre o uso de recursos e linguagem institucional.

No caso da FAMU, tradicionalmente reconhecida como uma Historically Black College and University (HBCU), instituições historicamente dedicadas à educação da população negra, essa tensão se torna ainda mais sensível. Celebrar o Black History Month com a palavra “Black” claramente expressa pode parecer uma acusação paradoxal, especialmente em um campus onde o evento faz parte da missão educativa e cultural.

A FAMU não nega a alegação, tendo emitido a seguinte declaração ao News 6:

“A Universidade Florida A&M tem cumprido integralmente o  Projeto de Lei do Senado 266  e o ​​Regulamento 9.016 do Conselho de Governadores. Apoiamos e implementamos a diretriz política estabelecida pelo Governador, pela Assembleia Legislativa e pelo Conselho de Governadores no que diz respeito à Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), em consonância com as decisões judiciais federais pertinentes.

A Universidade Agrícola e Mecânica da Flórida (FAMU) está comprometida em promover uma comunidade universitária que incentive a livre troca de ideias, garantindo um ambiente de respeito mútuo, segurança e consciência. A Universidade reconhece que a liberdade de expressão é fundamental para a investigação acadêmica, o desenvolvimento pessoal e o engajamento cívico.

Embora a universidade tenha posteriormente caracterizado o incidente como um erro de revisão da equipe, pendendo inicialmente para uma leitura excessivamente cautelosa das normas, o episódio expôs um dilema real: até que ponto as instituições educacionais podem nomear, promover e celebrar identidade cultural ou racial quando legislações restritivas afetam o uso de certos termos, materiais ou iniciativas?

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Barbara Braga