Representatividade
Cartilha “Saúde com Axé” apresenta terreiros como territórios de cuidado e prevenção, com foco em mulheres negras
Material gratuito une ciência e cultura africana para enfrentar desigualdades no acesso à saúde e ampliar a prevenção entre mulheres negras
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) lançou a cartilha Saúde com Axé: mulheres negras e prevenção do câncer, um material educativo que vai além dos tradicionais guias de saúde. Publicado em 2026, o conteúdo é resultado de uma pesquisa colaborativa entre pesquisadoras do INCA e mulheres de terreiros de candomblé do Rio de Janeiro, com foco em promoção da saúde, prevenção do câncer e o diálogo entre saberes técnicos e saberes ancestrais.
A cartilha foi construída com a participação ativa de mulheres de comunidades como o Ilê Axé Obá Labí e o Ilê Axé Egbé Iyalodê Oxum Karê Adê Omi Arô, reconhecendo os terreiros como territórios de cuidado, acolhimento e resistência, espaços que historicamente atuam na promoção da saúde integral, especialmente em contextos onde o acesso a serviços de saúde é marcado por desigualdades e discriminação.
Um diálogo entre ciência e ancestralidade
Ao lançar o material, as autoras destacaram a importância de criar um diálogo real entre os saberes ancestrais dos terreiros e as informações científicas sobre prevenção do câncer. Como elas disseram:
“Os terreiros são locais de acolhimento, cuidado e solidariedade, espaços de cultura e de religiosidade afro-brasileira. Aproximar esse universo dos saberes técnicos pode nos ajudar a prevenir doenças, como o câncer, e foi o diálogo proposto na cartilha.”
Essa abordagem amplia a compreensão de saúde para além do modelo biomédico tradicional, incorporando aspectos sociais, culturais e espirituais, muitos dos quais são centrais para as estratégias de cuidado em comunidades negras.

Joédson Alves/Agência Brasi
Conteúdo que faz diferença na prática
A cartilha aborda de forma acessível temas essenciais para a vida das mulheres negras, como:
- Tipos de câncer mais prevalentes entre mulheres negras (como mama, colo de útero e intestinal);
- Hábitos de vida que podem diminuir o risco de câncer;
- Sinais de alerta e quando buscar atendimento médico;
- Exames preventivos recomendados em diferentes fases da vida;
- Importância da amamentação como fator protetor, entre outras orientações;
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O conteúdo é apresentado em linguagem acessível, ilustrado com imagens que dialogam com o universo cultural das mulheres negras e referências simbólicas à mitologia africana, especialmente através de representações de yabás (orixás femininas), que expressam proteção, força e cuidado.
Vozes que importam: racismo religioso e acesso à saúde
Um dos pontos mais marcantes da cartilha é a inclusão de falas de mulheres negras que experienciam, em primeira pessoa, o racismo no atendimento de saúde, incluindo discriminações específicas relacionadas à religiosidade. Nesse sentido, a cartilha não apenas informa, mas denuncia práticas que colocam barreiras ao acesso e à qualidade de cuidados.
A coordenadora-geral da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro), Mãe Nilce de Iansã, destacou um exemplo concreto dessas tensões:
“Tem muitos casos de hospitais querendo que as pessoas tirem seus fios de conta… nós não usamos os fios de conta como enfeite, mas como proteção. Se eu vou fazer uma consulta que o fio de conta não atrapalha em nada, tenho que permanecer com ele.”
Esse tipo de relato evidencia que a exclusão passa por discursos sutis e práticas institucionais que frequentemente ignoram ou desconsideram saberes ancestrais, reforçando a importância de um material educativo que fale diretamente com a realidade dessas mulheres.
A cartilha também valoriza os terreiros como espaços onde se pratica cuidado coletivo e autocuidado, reconhecendo que, para muitas mulheres negras, esses territórios funcionam como rede de apoio e promoção de bem-estar, complementando, muitas vezes com mais acolhimento, o sistema de saúde formal.
Acesso livre e gratuito
Saúde com Axé: mulheres negras e prevenção do câncer está disponível gratuitamente em formato digital no site do INCA e pode ser acessada por qualquer pessoa interessada em informação culturalmente sensível sobre prevenção do câncer, clique aqui.







