Música
Uma nova geração canta Chico Buarque: conheça “Chico 2.0”
Com artistas como Xênia França, Tasha & Tracie, Budah, Livinho e mais, o projeto revisita obra do compositor a partir do rap, trap, funk, R&B, soul e nova MPB
A obra de Chico Buarque atravessou gerações, mudanças culturais e diferentes momentos da história brasileira. Agora, parte desse repertório encontra novas vozes e sonoridades em “Chico 2.0”, projeto que reúne artistas de diferentes gerações e gêneros para revisitar clássicos do compositor.
A primeira parte do projeto chegou às plataformas digitais na sexta-feira (21), com dez faixas.
Realizado pela CUFA, FRecords, Tha House e Universal Music Brasil, o projeto tem produção musical de Felipe Poeta e Alê Siqueira, além da articulação cultural de Celso Athayde, Preto Zezé e Fábio Almeida.
A proposta vai além de simplesmente regravar canções conhecidas. Em Chico 2.0, as composições originais ganham novas identidades a partir das referências de cada intérprete, transitando por rap, trap, funk, R&B, samba, soul e nova MPB.
Chico encontra a música urbana
Um dos pilares do projeto é justamente aproximar a obra de Chico das linguagens que movimentam a música brasileira atualmente. Para Felipe Poeta, diretor musical de Chico 2.0 ao lado de Alê Siqueira, essa conexão faz sentido porque os temas presentes nas composições continuam dialogando com o presente.
“Desde o começo, a ideia foi criar essa ponte entre a obra do Chico e a música urbana de hoje. Mesmo sendo letras escritas em outros contextos, as histórias, os amores e os temas que ele aborda continuam muito atuais.”
O desafio, segundo o produtor, foi experimentar sem perder a essência das músicas.
“A gente quis inovar sonoramente, mas sempre com muito respeito pela obra, principalmente pelas harmonias e melodias do Chico.”
O resultado é uma coleção de releituras que coloca clássicos da MPB em contato com o rap, o trap, o funk e o R&B, permitindo que artistas de diferentes trajetórias encontrem suas próprias maneiras de interpretar esse repertório.
Do rap ao trap, clássicos ganham novos beats
A música urbana ocupa um espaço importante na primeira parte de Chico 2.0.
MC Cabelinho revisita “Cálice”, clássico de Chico Buarque e Gilberto Gil, enquanto MC Livinho aparece em “Construção” e “Pivete”. Dexter também participa de “Construção”, levando sua identidade para uma composição que permanece atual mesmo décadas depois de seu lançamento.
Já Tasha & Tracie assumem “Deus Lhe Pague”, aproximando a canção do universo musical da dupla.
O projeto também promove encontros entre diferentes gerações e regiões. Em “João e Maria”, Júlia Mestre divide os vocais com TZ da Coronel, criando uma ponte entre a delicadeza da composição e uma sonoridade contemporânea.
Outro encontro de destaque acontece em “O Que Será (À Flor da Terra)”, com VANDAL e Don L, além das participações de Milton Nascimento e do próprio Chico Buarque. Para Don L, participar do projeto é também uma oportunidade de apresentar a obra do compositor a uma geração que talvez ainda não tenha tido contato profundo com suas músicas.
“Eu sou um grande fã da obra de Chico, então recebi o convite muito honrado, pra interpretar uma música muito importante na história do Brasil e importante de ser lembrada no momento atual e pra sempre.”
Ao seu lado, VANDAL destaca a importância de dividir a faixa com Don L e de participar de um projeto que reúne nomes tão diferentes da música brasileira.
“O que mais me toca é poder interpretar uma faixa com Milton Nascimento e o próprio Chico Buarque. Também fico muito feliz em dividir esse momento com Don L, uma voz nordestina que admiro.”
Para o rapper baiano, a parceria representa ainda uma conexão entre artistas de diferentes territórios.
“Essa conexão entre dois artistas do Nordeste era muito esperada e, para mim, representa uma entrega muito especial ao nosso povo.”
Xênia França, Budah e Grag Queen também reinventam Chico
Se rap, trap e funk ajudam a construir uma nova leitura da obra, Chico 2.0 também abre espaço para R&B, pop e nova MPB.
Entre os nomes está Xênia França, que interpreta “Olê, Olá” e participa de “Cálice”. A artista já havia se aproximado do repertório de Chico em outros momentos e recebeu a nova oportunidade como uma forma de colocar suas composições em diálogo com o presente.
“Para mim, é uma honra participar desse projeto. Chico é um dos grandes mestres da música e da cultura brasileira, e sua obra sempre esteve no meu imaginário.”
Xênia também destaca a possibilidade de mostrar que histórias escritas em outros períodos continuam encontrando sentido na atualidade: “Adorei a proposta de trazer suas crônicas para o presente, mostrando como elas continuam atuais na voz de artistas contemporâneos.”
Budah aparece em “Roda Viva”, levando para a composição sua identidade ligada ao R&B e à música urbana. A participação reforça justamente a proposta de Chico 2.0 de fazer com que canções conhecidas encontrem novos públicos por meio de outras linguagens.
Já Grag Queen encara uma das músicas mais emblemáticas e provocadoras do repertório: “Geni e o Zepelim”. A canção, marcada por discussões sobre julgamento, desejo, marginalização e hipocrisia, ganha uma nova camada a partir da experiência da artista como drag queen.
“Foi uma experiência muito singular e de muita responsabilidade, mas também uma oportunidade de contar novamente essa história a partir da minha linguagem.”
Grag explica que levou para a interpretação elementos de seu próprio universo artístico: “Como drag queen e intérprete, pude levar para a música meu universo, meu deboche, meus cacos e minha perspectiva, respeitando a essência de uma obra que atravessa gerações.”
Uma nova geração contando histórias antigas
Bela Maria também participa do projeto com “Meu Caro Amigo”, composição de Chico Buarque e Francis Hime que faz parte de sua formação musical. A artista aproveitou a releitura para experimentar sonoridades diferentes daquelas que costuma apresentar em seus próprios lançamentos.
“Foi uma honra das grandes dar uma nova roupagem a um clássico que escuto desde pequena. Me diverti muito explorando tons e ritmos que não costumo lançar, mas que fazem parte da minha vida.”
Para Bela, revisitar Chico também significa reconhecer a importância de artistas que abriram caminhos para as novas gerações.
“Homenagear quem abriu portas para nós e valorizar a riqueza da música brasileira é sempre um ato necessário. Chico democratiza isso da maneira mais bonita possível: ele canta nossa história.”
É justamente essa possibilidade de recontar histórias que atravessa o conceito de Chico 2.0. As músicas permanecem reconhecíveis, mas passam a carregar outras referências, sotaques, ritmos e experiências.
A presença negra em “Chico 2.0”
Um dos aspectos que chama atenção no projeto é a presença expressiva de artistas negros da nova geração da música brasileira.
Nomes como Xênia França, MC Cabelinho, Budah, Dexter, Tasha & Tracie, TZ da Coronel, Don L e VANDAL entram em contato com um repertório fundamental da música brasileira e acrescentam a ele suas próprias perspectivas.
São artistas que vêm de diferentes cenas e territórios, mas que têm em comum a capacidade de transformar suas experiências em linguagem musical.
Ao colocar essas vozes diante de músicas como “Construção”, “Cálice”, “Roda Viva”, “Deus Lhe Pague” e “O Que Será”, o projeto também cria um encontro simbólico entre diferentes momentos da cultura brasileira.
Não se trata apenas de olhar para o passado. É uma maneira de fazer com que esse repertório continue circulando e sendo descoberto por quem está construindo a música do presente.
🎧 Tracklist — “Chico 2.0”
- “Construção” — Dexter, Maurício Pazz, MC Livinho e Felipe Poeta
- “O Que Será (À Flor da Terra)” — VANDAL, Don L e Felipe Poeta
- “Olê, Olá” — Xênia França e Felipe Poeta
- “Meu Caro Amigo” — Bela Maria e Felipe Poeta
- “Pivete” — MC Livinho e Felipe Poeta
- “Roda Viva” — Budah e Felipe Poeta
- “João e Maria” — Júlia Mestre, TZ da Coronel e Felipe Poeta
- “Deus Lhe Pague” — Tasha & Tracie e Felipe Poeta
- “Cálice” — Xênia França, MC Cabelinho e Felipe Poeta
- “Geni e o Zepelim” — Grag Queen e Felipe Poeta
“Chico 2.0” já disponível em todas as plataformas digitais. A segunda parte do projeto está prevista para outubro.




