Histórias Negras
Quando a capoeira enfrentava a repressão: o dia em que Mestre Bimba virou manchete ao desafiar a violência policial
Registros históricos mostram que golpes como “cabeçada” e “rabo de arraia” apareciam em relatos policiais, evidenciando a criminalização da prática antes de seu reconhecimento cultural
Em 1936, uma manchete chamou atenção nas páginas do jornal A Tarde: “Não é fácil pegar um capoeirista”. A frase, que poderia soar quase anedótica hoje, na verdade sintetiza um momento histórico em que a capoeira era tratada como crime e seus praticantes como alvo constante de repressão.
A matéria relatava um episódio envolvendo Manoel dos Reis Machado, conhecido como Mestre Bimba, figura central na transformação da capoeira no Brasil. Segundo o jornal, ele teria se defendido de uma agressão utilizando golpes como “cabeçadas” e “rabos de arraia”, movimentos tradicionais da prática.
O que a manchete não dizia
Por trás da narrativa publicada, havia um contexto mais profundo. Os chamados “elementos” citados na matéria seriam, na verdade, policiais militares envolvidos em ações violentas contra civis na região da Praça da Sé, em Salvador. Ao intervir, Bimba não apenas reagiu, mas enfrentou o grupo, desarmando os agentes e expondo a situação.
O episódio evidencia o papel da capoeira como ferramenta de defesa em um período marcado por violência institucional e perseguição a corpos negros nas ruas.
Criminalização e controle
Naquele momento, a capoeira ainda era considerada ilegal no Brasil. O Código Penal de 1890 classificava a prática como crime, permitindo a prisão de capoeiristas sob a justificativa de desordem pública.
Essa criminalização impactava diretamente a forma como a capoeira era retratada pela imprensa, muitas vezes associada à marginalidade, ignorando seu valor cultural e histórico.
A virada de chave
Foi nesse cenário que Mestre Bimba iniciou um processo de transformação. Ao sistematizar a prática e criar a chamada Capoeira Regional, ele abriu caminho para que a capoeira deixasse de ser vista apenas como enfrentamento e passasse a ser reconhecida como expressão cultural e esportiva.
Em 1937, Bimba fundou a primeira academia de capoeira oficialmente reconhecida no país, com alvará de funcionamento, um marco que simboliza a saída da clandestinidade. Sua atuação também chegou a espaços institucionais, incluindo demonstrações para autoridades e ensino em ambientes militares.
Da repressão ao reconhecimento
O episódio registrado em 1936 ajuda a entender a trajetória da capoeira: de prática criminalizada a patrimônio cultural. Hoje, reconhecida internacionalmente pela UNESCO, a capoeira carrega em seus movimentos a memória de resistência de gerações.
Uma luta ou dança, ela é linguagem, estratégia e história viva, construída a partir da experiência de quem precisou transformar o próprio corpo em instrumento de defesa e afirmação.




