20 de agosto de 2026

Educação

Pesquisadoras negras criam plataforma de francês que conecta idioma à cultura afro-francófona

Afrofrancês utiliza literatura, memória, ancestralidade e histórias de países africanos de língua francesa para ensinar o idioma a partir de perspectivas negras

Michael Fonseca | 20/08/2026
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- Crédito: Divulgação

Duas pesquisadoras negras brasileiras criaram uma plataforma de ensino de idiomas que propõe aprender francês a partir de um repertório ainda pouco explorado no mercado educacional: as culturas e experiências dos países africanos francófonos. Idealizado pela professora e pesquisadora Joanna Fernanda e pela jornalista, criadora de conteúdo e pesquisadora Gaby Ferraz, o Afrofrancês conecta o aprendizado do idioma a temas como literatura, colonialismo, memória, ancestralidade e identidade.

A plataforma parte do francês utilizado em mais de 20 países africanos que têm o idioma como herança do processo de colonização francesa. Nesses territórios, o francês convive e se mistura a línguas locais como wolof, lingala, kikongo, swahili, tshiluba e baoulé, entre outras.

A proposta surgiu do encontro entre as trajetórias de pesquisa das duas criadoras. Joanna é professora de francês e mestranda em Literaturas Francófonas, com estudos voltados ao colonialismo, à cultura e à literatura dos países africanos de língua francesa. É desse repertório que parte a construção dos conteúdos, da curadoria literária e cultural e da abordagem crítica utilizada nas aulas.

Gaby, por sua vez, é jornalista, criadora de conteúdo e pesquisadora de memória e narrativas negras na diáspora. No projeto, atua na estruturação das experiências culturais, das imersões, do podcast e na seleção dos professores africanos que participam das aulas.

A ideia também nasceu da própria experiência das pesquisadoras como estudantes de idiomas. Autodidata em inglês e espanhol, Gaby percebeu que a identificação com os conteúdos pode tornar o aprendizado mais próximo e significativo. A aproximação com o francês aconteceu a partir do contato com produções da TV5 Monde Afrique, que apresenta histórias, vivências e processos de empoderamento de pessoas negras no continente africano.

A experiência acabou aproximando Gaby de Joanna e ajudou a dar forma à proposta do Afrofrancês: ensinar um idioma sem dissociá-lo das culturas e das histórias das pessoas que o utilizam.

Atualmente, as aulas são conduzidas por professores nativos de diferentes países africanos francófonos. Para as idealizadoras, esses profissionais não atuam apenas como professores, mas como uma espécie de “corpo-memória”, levando para as aulas suas próprias experiências, histórias e referências culturais.

O Afrofrancês também aposta em experiências culturais como parte do processo de aprendizagem. A plataforma já promoveu encontros de culinária, artesanato, cineclubes, cinedebates e clubes de leitura relacionados a diferentes países africanos.

A formação das turmas também é personalizada. Antes de começar as aulas, cada aluno responde a um formulário que funciona como uma espécie de entrevista, com perguntas sobre interesses pessoais, formas preferidas de aprendizado e experiências multiculturais. A partir dessas informações, os grupos são organizados de acordo com perfis e demandas semelhantes.

O projeto começou voltado exclusivamente ao francês, mas o interesse dos alunos levou à a plataforma a começar a estudar uma expansão para inglês e espanhol, mantendo a mesma proposta de aproximar o ensino de idiomas de cultura, memória e representatividade.

As novas turmas já estão abertas e mais informações podem ser conferidas no @francesafro.

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Michael Fonseca