África
O legado ignorado do Distrito Seis, 60 anos de resistência contra o apartheid
Em fevereiro de 1966, o governo sul-africano declarou o Distrito Seis, na Cidade do Cabo, área apenas para brancos, destruindo uma comunidade vibrante
Há 60 anos, no dia 11 de fevereiro de 1966, o Distrito Seis, um bairro multicultural e pulsante no centro da Cidade do Cabo, na África do Sul, foi oficialmente declarado uma “área exclusiva para brancos” pelo regime do apartheid. Com essa declaração, assinada sob a famigerada Group Areas Act (Lei de Áreas de Grupo), milhares de pessoas negras, mestiças e indianas foram expulsas de suas casas, suas ruas foram apagadas e uma comunidade inteira foi reduzida a dor, deslocamento e esquecimento.
Em 2026, seis décadas depois, a história do Distrito Seis ainda ressoa como um dos capítulos mais brutais da segregação racial institucionalizada e, ao mesmo tempo, como um símbolo de resistência, memória coletiva e vontade de recuperação.

District Six Museum /Giovanna De Matteo
Um bairro que era casa de todos
Antes de sua destruição, o Distrito Seis era um lugar onde diferentes identidades culturais negras, mestiças, indianas e brancas, conviviam, construindo uma vida de trocas, música, trabalhos, relações familiares e econômicas. A diversidade era respirada nas ruas, nos mercados, nos sons e nos cheiros do bairro. Era um lugar de pertencimento popular e, por isso mesmo, foi alvo do ódio racial do Estado.
A imposição de uma “zona branca” significou, na prática, uma ruptura violenta: mais de 60 mil moradores foram forçados a deixar suas casas, seus negócios e suas histórias. Muitos foram transportados para as periferias distantes dos Cape Flats, áreas largas e segregadas onde as condições de vida eram precárias, a infraestrutura insuficiente e as oportunidades restritas. Memórias foram dilaceradas juntamente com tijolos e paredes derrubadas.
60 anos depois: memória, museu e resistência
O marco dos 60 anos vem sendo lembrado de forma sensível e crítica por organizações culturais e pelo próprio District Six Museum, instituição que preserva a história do bairro e de seus habitantes através de objetos, relatos, fotos e mapas que resistem à tentativa de apagamento.
Neste ano, o museu inaugurou uma nova instalação simbólica que substitui o tradicional mapa do bairro por uma superfície coberta com sal e pedras gravadas com nomes e memórias de moradores expulsos. A proposta não é apenas rememorar o que foi perdido, mas assertar a presença do que foi arrancado e consolidar o direito à memória como forma de afirmação histórica.
O diretor do museu resumiu bem em suas falas públicas: memória não é nostalgia, é insistir na presença do que o Estado tentou apagar. É reconhecer que, embora o apartheid tenha caído formalmente em 1994, suas consequências estruturais, especialmente em termos de desigualdade espacial, disparidade de terras e segregação urbana, ainda moldam a vida de milhões de pessoas na África do Sul.
Lutas contemporâneas: restituição e desigualdade
Relembrar o Distrito Seis hoje não é apenas olhar para trás. É olhar para as questões contemporâneas de desigualdade e injustiça que persistem no país. A disputa por terra, moradia digna e justiça reparatória ainda está em curso e, para muitos ativistas e ex-moradores, a lembrança do que aconteceu em 1966 é um lembrete urgente de que a justiça nunca foi totalmente alcançada.
Os impactos geográficos e socioeconômicos da remoção forçada ainda definem onde as pessoas moram, como se deslocam, que empregos conseguem e qual acesso têm a serviços básicos. Gigantescas lacunas entre áreas historicamente privilegiadas e aquelas relegadas à margem continuam a ser uma das marcas mais duradouras do apartheid.
Celebrar ou melhor, lembrar com consciência crítica, os 60 anos da declaração racista do Distrito Seis serve a dois propósitos: honrar a memória de quem perdeu tudo e reafirmar que a história ainda está em construção. O passado não desapareceu; ele está inscrito nas ruas da Cidade do Cabo, nas desigualdades urbanas e na luta de pessoas que continuam reivindicando direito à terra, à cidade e à dignidade.




