9 de outubro de 2026

Música

Na estreia como produtora, Bebé constrói uma nova versão de si em “Dissolução”

Terceiro álbum da artista paulistana marca sua estreia na produção musical e transforma desapego, coragem e mudança em uma experiência que atravessa jazz, indie e música brasileira

Barbara Braga | 09/10/2026
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- Crédito: @bebesalvego | Mariana Maria

Antes de existir uma nova versão de alguém, quase sempre existe um momento em que a antiga deixa de caber.

É nesse intervalo, entre o que já não sustenta e aquilo que ainda não nasceu completamente, que Bebé encontra “Dissolução”, seu terceiro álbum. Mais do que o nome de um disco, a palavra funciona como uma espécie de chave para entender o momento vivido pela artista: não é preciso saber exatamente quem se será depois para reconhecer que já não é possível permanecer igual.

A inspiração vem da alquimia, em que dissolver representa uma etapa necessária para transformar. Bebé leva essa ideia para dentro da música e constrói um trabalho interessado menos em respostas e mais na travessia.

Depois de dois discos atravessados por questões de identidade e amadurecimento, a artista paulistana chega a um lugar diferente. Em vez de tentar organizar todas as inquietações antes de transformá-las em canção, ela passa a confiar também naquilo que surge sem aviso.

“Teve um momento em que eu parei de tentar entender tudo e só deixei as coisas acontecerem”, conta.

Essa frase talvez seja uma das melhores portas de entrada para “Dissolução”. Porque o álbum não parece interessado em apresentar uma Bebé completamente resolvida. Pelo contrário: ele registra uma artista disposta a se ouvir enquanto ainda está mudando.

Pela primeira vez, Bebé assume a produção

A transformação não está apenas no que as músicas dizem. Ela também acontece na maneira como o disco foi construído.

Em “Dissolução”, Bebé estreia como produtora musical de um álbum, aprofundando sua participação em cada etapa do processo criativo. Ao lado do irmão, o produtor Felipe Salvego, ela assume decisões que passam pela sonoridade, pelos arranjos e pela construção de um universo próprio para as canções.

É um passo importante para uma artista que parece estar ampliando não apenas seu repertório, mas também o controle sobre a própria linguagem.

Grande parte do material nasceu dentro de seu próprio espaço, a partir de fragmentos acumulados durante anos: melodias, frases, memórias e sensações que permaneceram guardadas até encontrarem o momento certo para virar música.

Algumas chegaram lentamente. Outras apareceram quase prontas. O disco nasce justamente desse encontro entre os dois movimentos.

Quando a imperfeição deixa de ser um problema

Há uma escolha importante em “Dissolução”: não tentar controlar tudo.

A imperfeição aparece como parte consciente da estética do trabalho. Não como descuido, mas como reconhecimento de que determinadas experiências perdem sua verdade quando são excessivamente polidas.

Essa liberdade aproxima o álbum do jazz, gênero em que o improviso, a escuta e a possibilidade de desvio fazem parte da própria construção musical. Ao mesmo tempo, Bebé mistura esse espírito com referências do indie contemporâneo e com a tradição da canção brasileira.

A guitarra ganha protagonismo e os arranjos deixam espaços para que as músicas respirem.

Entre as referências que atravessam o processo estão Milton Nascimento, Esperanza Spalding, Wayne Shorter e Radiohead. São universos diferentes que encontram um ponto de contato na maneira como Bebé entende a música: como território de experimentação.

A presença de instrumentistas como Badi Assad, nos violões, Vanessa Ferreira, no baixo acústico, Alana Ananias, na bateria, e da norte-americana Dee Simone, conhecida por suas colaborações com artistas como Doechii, amplia essa construção.

O resultado não abandona a intimidade do projeto. Pelo contrário: parece existir justamente uma tentativa de fazer a expansão sonora acontecer sem perder a dimensão pessoal.

Um disco feito de encontros

“Dissolução” também é atravessado por outras vozes.

O álbum reúne participações de Tássia Reis, Tuyo, Brisa Flow, Marissol Mwabá e Ana Karina Sebastião, artistas que entram em diferentes momentos da narrativa e ajudam a deslocar o disco de uma experiência exclusivamente individual.

Em “Compartilhando o Céu”, a presença de Tássia Reis adiciona uma nova camada ao percurso. Com a Tuyo, “Ano do Cavalo” aparece como um dos momentos em que o álbum ganha impulso.

Já “Se Tocar”, com Ana Karina Sebastião, coloca identidade e linguagem em movimento. Na reta final, “Vulcânica”, com Brisa Flow, transforma aquilo que estava acumulado em força de expressão. É como se o silêncio que vinha sendo elaborado ao longo do disco finalmente encontrasse uma saída.

Em “No More Hiding”, com Marissol Mwabá, a experiência deixa de ser apenas individual e ganha uma dimensão mais coletiva. Essa escolha de parcerias reforça uma característica importante de “Dissolução”: Bebé não atravessa a transformação sozinha.

A música como coragem para decidir

Se o álbum nasce de uma mudança interna, suas músicas também carregam uma provocação para quem está do outro lado da escuta. Bebé diz que fez o disco para instigar as pessoas a terem coragem, de decidir, falar, experimentar e fazer aquilo que muitas vezes só encontram espaço para fazer longe dos olhos dos outros.

“Fiz esse disco pra instigar as pessoas a terem coragem. A decidir coisas, falar o que não falariam, fazer o que só fariam no off”, afirma.

Existe algo bastante contemporâneo nessa ideia.

Em uma época em que tantas pessoas sentem a necessidade de explicar constantemente quem são, “Dissolução” propõe quase o movimento contrário: e se, por um instante, fosse permitido não saber? Não ter todas as respostas. Mudar de ideia. Abandonar uma versão antiga. Reconhecer que determinado lugar deixou de fazer sentido.

E seguir.

Entre memória e transformação

O álbum também entende que mudar não significa apagar o passado.

“Variante Estrelar”, escrita no dia da morte de Lô Borges, é um exemplo dessa relação entre memória e continuidade. A faixa incorpora uma experiência de perda ao percurso do disco e lembra que transformação também pode nascer daquilo que permanece.

Porque dissolver não é esquecer. É mudar a forma como algo existe. Essa parece ser uma das ideias mais bonitas do álbum: o passado não precisa desaparecer para que o futuro tenha espaço.

O portal antes da travessia

A imagem escolhida para a capa reforça esse conceito. Em meio à natureza, aparece um portal, como se alguém estivesse diante de uma passagem entre dois estados.

Não há uma garantia sobre o que existe do outro lado. Há apenas a escolha de atravessar. O símbolo resume o que “Dissolução” parece propor ao longo de suas faixas: aceitar que algumas estruturas precisam cair para que outras possam surgir.

A própria artista sintetiza o conceito ao afirmar: “Não é sobre destruir. É sobre mudar de estado.”

E talvez seja exatamente isso que o terceiro álbum represente dentro de sua trajetória. Não uma ruptura completa com quem Bebé foi, mas uma reorganização de tudo aquilo que ela já carregava.

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Barbara Braga