Música
Criolo revisita “Nó na Orelha” 15 anos depois e reencontra a força de um clássico no Tiny Desk Brasil
Com direção musical de Daniel Ganjaman, artista revive músicas que marcaram sua trajetória e reafirma a potência estética, política e cultural de um dos discos mais importantes da música brasileira contemporânea
Quinze anos depois de transformar sua carreira e ampliar as fronteiras do rap brasileiro, Criolo volta a “Nó na Orelha” para reencontrar músicas, parceiros e memórias que ajudaram a construir uma das obras mais marcantes da música brasileira contemporânea. O reencontro acontece no Tiny Desk Brasil, em episódio que estreia nesta terça-feira (6), às 11h, no canal do projeto no YouTube.
Mais do que uma celebração de aniversário, a apresentação funciona como uma espécie de retorno às origens. Com direção musical de Daniel Ganjaman, Criolo divide a pequena mesa com músicos que participaram da construção do álbum lançado em 2011 e revisita canções que atravessaram gerações, como “Subirusdoistiozin” e “Não Existe Amor em SP”.
Naquele momento, “Nó na Orelha” ajudou a desmontar a ideia de que o rap precisava permanecer restrito a uma única linguagem musical. Produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, o disco colocou lado a lado rap, samba, afrobeat, reggae, MPB e soul, criando uma sonoridade que não parecia interessada em escolher apenas um caminho.
O resultado foi um álbum que ampliou o alcance de Criolo sem apagar as referências que estavam na sua formação. Pelo contrário: a mistura funcionava justamente porque havia identidade, território e repertório por trás de cada escolha.
Um disco que virou ponto de virada
Criolo, nome artístico de Kleber Gomes, nasceu em Santo Amaro e foi criado no Grajaú, na zona sul de São Paulo. Começou a escrever rap aos 11 anos e construiu sua trajetória dentro da cultura hip hop, passando pela criação da Rinha dos MCs, espaço que se tornou importante para a formação de uma geração de artistas.
Quando “Nó na Orelha” chegou, em 2011, Criolo já carregava anos de caminhada. O que aconteceu a partir dali, porém, mudou a dimensão de sua carreira.
O disco levou para públicos muito maiores uma produção que já vinha sendo construída nas margens da indústria musical e mostrou que era possível dialogar com diferentes tradições sem abrir mão da potência do hip hop.
Entre batidas, sopros, percussões e melodias, Criolo construiu um repertório que falava de São Paulo, desigualdade, afeto, violência, espiritualidade e relações humanas. “Não Existe Amor em SP”, por exemplo, tornou-se uma espécie de retrato afetivo e crítico da cidade, enquanto “Subirusdoistiozin” carregava a força narrativa característica do artista.
Quinze anos depois, essas músicas não aparecem no Tiny Desk apenas como peças de um passado celebrado. Elas retornam em um contexto diferente, diante de públicos que continuam encontrando significado nelas.
O reencontro com quem construiu o disco
Para essa apresentação, Criolo reuniu parte importante da equipe que ajudou a transformar “Nó na Orelha” em realidade.
Ao lado do artista estão Daniel Ganjaman, na direção musical, teclado e backing vocal; Marcelo Cabral, no contrabaixo acústico e elétrico; DJ Dandan, no DJ e backing vocal; Guilherme Held, na guitarra; Maurício Badé, na percussão; Thiago França, no saxofone e flauta; Vitor Cabral, na bateria; além de Dyani Primo e Jamah, nos backing vocals.
É uma escolha que dá outro peso à celebração. Em vez de simplesmente reproduzir um repertório conhecido, o Tiny Desk cria a possibilidade de reunir novamente pessoas que fizeram parte daquele momento.
“Esses músicos incríveis me ajudaram a construir a história desse álbum que é muito importante na minha vida. O ‘Nó na Orelha’ é muito importante na minha vida. Tem muito sentimento. Um sonho que ainda segue de outras formas. Mas agora se renova”, afirmou Criolo sobre o reencontro.
A emoção também aparece na maneira como o artista descreve a experiência de cantar no formato.
“É como eu me escutar pela primeira vez”, contou. Para Criolo, a característica mais particular do Tiny Desk Brasil está justamente na proximidade: a ausência de uma grande estrutura de palco e a união entre músicos fazem com que a performance revele outras camadas de quem está ali.
Ele admite que, durante a gravação, houve momentos em que não sabia sequer se conseguiria terminar ou começar uma música por conta da emoção.
E talvez esteja aí uma das forças desse reencontro: voltar a uma obra também significa reencontrar a pessoa que existia quando aquela obra foi criada.
A força de uma música que continua circulando
Ao longo dos 15 anos seguintes a “Nó na Orelha”, Criolo não ficou preso ao sucesso daquele disco.
Vieram trabalhos como “Convoque Seu Buda”, “Espiral de Ilusão” e “Sobre Viver”, além de colaborações com nomes como Emicida, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Gal Costa, Tom Zé, Ivete Sangalo e Mano Brown.
A trajetória também levou o artista ao Grammy Latino, além de novas indicações à premiação, consolidando uma carreira que atravessou diferentes territórios da música brasileira.
Mas existe uma particularidade em “Nó na Orelha”: o disco permanece como uma referência justamente porque não depende apenas da nostalgia.
Suas músicas continuam sendo descobertas, reinterpretadas e incorporadas por novas gerações. O que parecia uma experiência particular de 2011 passou a fazer parte de um repertório maior da música brasileira contemporânea.
Por isso, celebrar os 15 anos do álbum no Tiny Desk Brasil é também reconhecer a permanência de uma obra que ajudou a ampliar o espaço do rap dentro da música nacional.
Uma mesinha para uma história enorme
O encontro de Criolo com o Tiny Desk Brasil também evidencia uma característica central do projeto: colocar artistas diante de uma estrutura menor para que a música ocupe o primeiro plano.
O formato criado pela NPR trabalha justamente com essa proximidade. Sem a voz amplificada no ambiente e com os músicos reunidos em um espaço pequeno, a apresentação valoriza a interação entre instrumentos, vozes, ritmos, expressões e pequenas imperfeições de uma performance ao vivo.
No caso de Criolo, essa proposta ganha um significado especial. Um artista cuja trajetória está profundamente ligada ao território, à cultura de rua e à construção coletiva do hip hop aparece diante de uma mesa pequena, cercado por músicos que ajudaram a construir parte de sua história.
É uma apresentação sobre música, mas também sobre memória, parceria e continuidade.




