10 de setembro de 2026

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Morre Zélia Amador de Deus, intelectual que transformou a luta antirracista na Amazônia e no Brasil

Professora, ativista, escritora e referência do movimento negro brasileiro, Zélia deixa um legado que ajudou a moldar políticas de igualdade racial, ações afirmativas e a defesa dos direitos quilombolas

Barbara Braga | 09/09/2026
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- Crédito: Governo Federal / Midia Ninja

O Brasil se despede de uma de suas maiores intelectuais negras.

Morreu nesta terça-feira (8), aos 74 anos, em Belém (PA), Zélia Amador de Deus, professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA), ativista histórica do movimento negro, escritora, atriz e uma das principais vozes na luta contra o racismo estrutural no país. Sua trajetória atravessou a universidade, os movimentos sociais, a cultura e a formulação de políticas públicas que ajudaram a transformar a vida de milhares de pessoas negras no Brasil.

Nascida em 1951 no território quilombola de Mangueiras, no arquipélago do Marajó, Zélia construiu uma vida dedicada à produção de conhecimento e à defesa dos direitos da população negra. Ao longo de mais de quatro décadas de atuação, tornou-se uma das referências centrais do pensamento antirracista na Amazônia e no país.

Falar de Zélia Amador de Deus é falar de uma geração de mulheres negras que abriu caminhos quando quase não existiam referências ocupando espaços de poder.

Filha de uma trabalhadora doméstica, criada entre as dificuldades impostas pelo racismo e pela desigualdade social, ela encontrou na educação uma ferramenta de transformação. Ainda jovem, aproximou-se dos movimentos sociais e, posteriormente, consolidou sua atuação política dentro e fora da universidade.

Em 1980, participou da fundação do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA), organização que se tornaria uma das mais importantes entidades de defesa dos direitos da população negra na região Norte. A partir desse trabalho, esteve envolvida em debates sobre titulação de territórios quilombolas, combate à discriminação racial e construção de políticas de reparação histórica.

Sua atuação ajudou a fortalecer uma perspectiva muitas vezes invisibilizada no debate nacional: a da população negra amazônica.

A universidade como espaço de transformação

A trajetória acadêmica de Zélia também foi marcada por pioneirismo.

Professora da Universidade Federal do Pará, ela ocupou cargos de liderança em uma época em que mulheres negras raramente alcançavam posições de destaque nas instituições de ensino superior brasileiras. Entre 1993 e 1997, foi vice-reitora da universidade, tornando-se uma das primeiras mulheres negras a ocupar um posto dessa relevância no país. Em 2019, recebeu o título de professora emérita da instituição.

Dentro da UFPA, esteve entre os nomes que impulsionaram debates sobre inclusão, diversidade e democratização do acesso ao ensino superior. Sua contribuição foi decisiva para a construção de políticas de ações afirmativas e para a defesa das cotas raciais como instrumento de justiça social.

O trabalho de Zélia ultrapassou fronteiras.

Em 2001, ela representou o Brasil na histórica Conferência Mundial contra o Racismo, realizada pela Organização das Nações Unidas em Durban, na África do Sul. O encontro é considerado um dos marcos mais importantes da agenda internacional de enfrentamento ao racismo e à discriminação racial.

Ao longo dos anos, recebeu homenagens, premiações e reconhecimentos por sua contribuição aos direitos humanos e à igualdade racial. Ainda assim, permaneceu comprometida com o trabalho de base, com a formação de novas lideranças e com a produção de conhecimento voltada para a transformação social.

O legado de uma intelectual negra amazônida

A importância de Zélia Amador de Deus não pode ser medida apenas pelos cargos que ocupou ou pelos prêmios que recebeu.

Seu legado está presente nas universidades que se tornaram mais diversas, nas políticas públicas construídas a partir das demandas do movimento negro, nas comunidades quilombolas que conquistaram reconhecimento e nos milhares de estudantes que passaram a enxergar a educação como um espaço possível de pertencimento.

Ela ajudou a construir pontes entre academia e militância, mostrando que a produção intelectual negra também é uma ferramenta de resistência.

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Barbara Braga