Representatividade
Eliana Alves Cruz se torna a primeira mulher negra da Academia Carioca de Letras
Escritora e jornalista foi eleita para a Cadeira 39, no ano em que a instituição celebra seu centenário
A literatura carioca acaba de viver um daqueles momentos que ultrapassam o significado de uma eleição. A escritora e jornalista Eliana Alves Cruz foi eleita para a Academia Carioca de Letras (ACL) e se tornou a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na instituição.
A conquista acontece em um momento especialmente simbólico: em 2026, a Academia Carioca de Letras completa 100 anos de existência. Um século depois de sua criação, uma mulher negra passa a fazer parte oficialmente de seu quadro de acadêmicos.
Eliana foi eleita para a Cadeira 39, com 31 votos, em uma votação realizada no dia 31 de agosto. A vaga estava aberta desde a morte da acadêmica Maria Amélia Amaral Palladino.
Nascida no Rio de Janeiro, em 1966, Eliana Alves Cruz construiu uma carreira que atravessa diferentes áreas da comunicação e da cultura.
Jornalista, escritora e roteirista, ela consolidou na literatura uma produção marcada pela presença de personagens negros, pela memória e pela reconstrução de histórias que durante muito tempo foram contadas a partir de perspectivas que deixavam essas vozes à margem.
Seus livros frequentemente estabelecem uma relação entre passado e presente, recuperando acontecimentos históricos e experiências da população negra para refletir sobre questões que permanecem atuais.
Essa trajetória também levou Eliana a importantes reconhecimentos. Em 2022, ela recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Contos, por A Vestida: Contos. Mais recentemente, em 2026, seu romance Meridiana, publicado em 2025, venceu o Prêmio Guimarães Rosa, concedido pela Academia Brasileira de Letras.
A obra acompanha uma família negra em processo de ascensão social e aborda as tensões provocadas pela mudança da favela para um condomínio de classe média.

@elialvescruz
A atuação de Eliana não se limita aos livros. A escritora também está à frente do “Trilha de Letras”, programa da TV Brasil dedicado à literatura, no qual conversa com autores e amplia o espaço para o debate sobre produção literária no país.
Sua presença na televisão se soma a uma trajetória construída também no jornalismo e reforça uma característica de sua carreira: a palavra como ferramenta de comunicação, memória e transformação.
Agora, essa trajetória chega a uma das mais tradicionais instituições literárias do Rio de Janeiro.
Um século depois, uma mulher negra ocupa uma cadeira
A dimensão histórica da eleição de Eliana está justamente no contraste entre o tempo de existência da Academia e o momento em que essa representação finalmente acontece. Criada há 100 anos, a Academia Carioca de Letras atravessou diferentes períodos da história do Rio de Janeiro e do Brasil. Ao longo desse século, a instituição reuniu escritores e intelectuais importantes para a cultura carioca.
Mas somente agora uma mulher negra passa a integrar oficialmente seu quadro.
A eleição de Eliana não apaga a ausência histórica de pessoas negras desses espaços. Pelo contrário: evidencia uma questão que durante muito tempo esteve presente na formação das instituições culturais brasileiras, quem teve o direito de contar histórias, ocupar lugares de reconhecimento e definir o que deveria ser preservado como literatura e memória.




