25 de março de 2026

Blacks Leaders

Eduardo Paiva promove liderança negra em iniciativas de negócios no Grupo L'Oréal: “O talento negro sempre existiu”

Sub: Diretor de Diversidade, Equidade e Inclusão no grupo de beleza, profissional de marketing ocupa um dos principais postos estratégicos da empresa no Brasil

Barbara Braga | 25/03/2026
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- Crédito: @e.dupaiva | @jordanfotografo

Quando conta sobre a própria trajetória, Eduardo Paiva, diretor de Diversidade, Equidade e Inclusão do Grupo L’Oréal, aponta a educação como elemento fundamental da sua história. Filho de uma família com raízes no interior do Maranhão, na cidade de Rosário, ele cresceu em Santos, no litoral paulista, e encontrou nos estudos a principal porta de entrada para o mundo corporativo.

Hoje, quase duas décadas depois de iniciar a carreira, Paiva ocupa um dos postos estratégicos do Grupo L’Oréal no Brasil. Além de diretor de Diversidade, Equidade e Inclusão da companhia, ele também atua como diretor no Movimento pela Equidade Racial (MOVER), uma coalizão empresarial que reúne grandes empresas comprometidas com o avanço da equidade racial no país.

A trajetória que o levou até esse lugar não foi linear. Formado em engenharia, Paiva começou a carreira em áreas ligadas ao negócio, passando por empresas como a Nestlé antes de chegar ao Grupo L’Oréal, em 2019, inicialmente como líder de marketing.

Foi dentro da multinacional de beleza que ele encontrou um propósito que ampliaria sua atuação profissional, como conta à Africanize em entrevista.

“Se eu tivesse que resumir minha trajetória, diria que sou um profissional de comunicação, marketing e negócios que entendeu que a diversidade, quando pensamos no Brasil, é a nossa maior força”, afirma.

Diversidade como estratégia de negócios

Ao assumir a liderança da agenda de diversidade, equidade e inclusão da companhia, Paiva passou a trabalhar para conectar dois universos que, por muito tempo, foram tratados de forma separada no ambiente corporativo: propósito social e estratégia de negócios.

Na visão dele, a diversidade não deve ser entendida apenas como um valor institucional, mas como um elemento central para o crescimento das empresas. “O Brasil é um país extremamente diverso, e queremos ver esse Brasil refletido dentro das grandes corporações”, diz.

No setor de beleza, essa perspectiva ganha ainda mais relevância. O país possui um dos maiores mercados do mundo, com uma população marcada por múltiplas identidades, histórias e expressões culturais. Para Paiva, reconhecer essa diversidade é também reconhecer oportunidades de inovação, desenvolvimento de produtos e construção de novas narrativas no mercado.

Representatividade dentro das empresas

Parte central do trabalho liderado por Paiva está ligada à criação de políticas que ampliem a presença de profissionais negros em posições de liderança dentro da companhia. Os números mostram avanços recentes. Em 2020, apenas 13% dos cargos de liderança do Grupo L’Oréal no Brasil eram ocupados por pessoas negras. Em 2025, esse percentual chegou a 25%, praticamente o dobro em cinco anos.

Mais do que o crescimento numérico, um dado chama atenção: pela primeira vez, as promoções internas passaram a ser o principal motor desse avanço, superando as contratações externas. Segundo Paiva, esse movimento indica que as políticas de desenvolvimento de carreira dentro da empresa começam a produzir efeitos estruturais.

“Quando combinamos talento com estratégia, visão e acompanhamento, os resultados aparecem. O talento negro sempre existiu no Brasil. O que estamos fazendo agora é criar estruturas para que esse talento possa crescer.”

Liderança em ambientes onde faltavam referências

A experiência pessoal também moldou a forma como Paiva enxerga a liderança. Ele entrou no mercado corporativo em um cenário em que profissionais negros ainda eram raros em muitos espaços de decisão. Em diversas ocasiões, era o único na sala. Essa realidade, segundo ele, exigiu o desenvolvimento de novas habilidades.

“Muitas vezes precisei aprender a transitar entre diferentes contextos e a me conectar com pessoas que não eram parecidas comigo.” Com o tempo, aquilo que começou como uma estratégia de adaptação se transformou em uma competência de liderança.

“Hoje consigo enxergar diferentes perspectivas dentro de situações complexas”, explica.

Impacto além da empresa

A agenda de diversidade também tem reflexos diretos no mercado de beleza. Nos últimos anos, iniciativas ligadas à inclusão do consumidor negro, à ampliação de portfólios e ao desenvolvimento de soluções mais representativas passaram a ganhar espaço dentro da companhia.

Um dos exemplos recentes é a criação do Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro, iniciativa desenvolvida em parceria com o MOVER e especialistas da área jurídica para ampliar o debate sobre racismo nas relações de consumo no varejo de luxo.

O projeto nasceu a partir de pesquisas que identificaram práticas discriminatórias enfrentadas por consumidores negros em lojas de beleza de alto padrão e propõe protocolos e recomendações para transformar a experiência de atendimento.

Para Paiva, iniciativas como essa demonstram que o papel das empresas vai além da geração de lucro. “Combater a discriminação é um dever ético, mas também é uma questão de eficiência econômica”, afirma.

Ele lembra que pesquisas indicam que 91% das pessoas negras já sofreram racismo em estabelecimentos de luxo e que mais da metade deixa de frequentar esses espaços após essas experiências.

Em um país onde mais da metade da população é negra e que possui um dos maiores mercados de beleza do mundo, ignorar esse cenário significa também desperdiçar oportunidades de crescimento.

Transformação em curso

Para o executivo, a transformação no ambiente corporativo brasileiro ainda está em estágio inicial, mas os sinais de mudança começam a aparecer. A meta agora é consolidar os avanços e ampliar o impacto dessas políticas dentro e fora das empresas.

“Nosso compromisso é continuar avançando com consistência e visão de longo prazo”, afirma.

Ao olhar para jovens profissionais negros que desejam construir carreira no mundo corporativo, Paiva deixa um conselho direto: “As grandes corporações são, sim, lugares possíveis de presença e ascensão. A educação continua sendo uma chave fundamental.”

Eduardo Paiva vê sua presença em um cargo de liderança como parte de um movimento coletivo de transformação. “Não existe protagonismo sem preparo”, conclui.

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Barbara Braga