9 de abril de 2026

Blacks Leaders

A inteligência que não é artificial: como Léo Oliveira transforma repertório negro em estratégia de liderança

Ex-executivo da Netflix, lança a Humanos & IA e propõe uma virada no uso da tecnologia: menos algoritmo, mais consciência e um novo caminho para enfrentar a solidão da liderança no Brasil

Barbara Braga | 08/04/2026
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Por trás de toda tecnologia, existe uma pergunta que o mercado ainda evita encarar: quem constrói a inteligência que decide?

No caso de Léo Oliveira, a resposta passa por mais de duas décadas atravessando estruturas corporativas, ocupando espaços de poder e, principalmente, aprendendo a ler o que nem sempre está explícito nas decisões.

Antes de fundar a Humanos & IA, Léo construiu sua trajetória em gigantes como Siemens, LATAM Airlines, Wellhub e, mais recentemente, a própria Netflix. Foram anos atuando em uma das áreas mais sensíveis, e muitas vezes incompreendidas ,das organizações: o RH.

“Meu desafio sempre foi como ser um RH ético e estratégico ao mesmo tempo. Porque, no fim, as decisões são tomadas por quem está no topo. A questão é como influenciar essas decisões para que sejam mais coerentes e mais justas.”

Essa inquietação não ficou no discurso. Virou produto.

Lançada em 2025, a Humanos & IA nasce com uma proposta incomum: usar inteligência artificial não para automatizar processos, mas para qualificar decisões humanas.

Diferente de ferramentas genéricas, a plataforma é alimentada por um banco de dados construído a partir de experiências reais, erros, acertos, crises e aprendizados de executivos com décadas de atuação.

“Antes da tecnologia, vem a parte humana. A gente não quis criar mais uma IA que responde tudo. A ideia é provocar o líder, ampliar repertório, ajudar a pensar melhor.”

Na prática, isso significa transformar o que antes era restrito a salas de conselho, mentorias ou vivência acumulada em algo acessível, ainda que mediado por tecnologia.

Em um país como o Brasil, onde decisões corporativas ainda são atravessadas por vieses históricos, essa proposta ganha outra camada.

Léo não fala diretamente em “IA racial”, mas sua trajetória deixa evidente: repertório não é neutro.

“Quando a gente cresce dentro das empresas, existe uma tendência de contratar e promover quem se parece com quem já está lá. E isso impacta diretamente quem sobe e quem fica.”

A questão, então, não é apenas tecnológica. É estrutural.

Com 56% da população brasileira se autodeclarando negra, a ausência desse grupo nos espaços estratégicos expõe uma contradição que nenhuma inovação, sozinha, resolve. Mas pode tensionar.

A solidão da liderança e quem sente mais

Outro ponto central da plataforma é enfrentar algo pouco discutido no mundo corporativo: a solidão da liderança.

“Tem muita decisão que o líder toma sozinho. E nem sempre ele tem com quem trocar, seja por falta de tempo, de estrutura ou de confiança.”

Para lideranças negras, esse isolamento tende a ser ainda mais intenso.

“Quando você é o único na sala, existe uma pressão maior. Um erro não é só um erro, ele vira representativo.”

A Humanos & IA surge, nesse contexto, como uma espécie de copiloto estratégico, não para substituir decisões, mas para oferecer repertório onde antes havia silêncio.

Se por um lado a tecnologia avança, por outro, o Brasil ainda enfrenta um desafio recorrente: adaptar modelos globais a uma realidade profundamente local.

“Grande parte das políticas vem de fora. E o nosso trabalho é tropicalizar. Porque o Brasil é diferente, tem sindicato, tem legislação específica, tem uma complexidade social que não dá pra ignorar.”

Essa leitura também influencia a própria construção da plataforma, que se afasta de bases genéricas para apostar em um banco de dados mais curado, contextual e, sobretudo, aplicado.

Do corporativo ao empreendedorismo: o risco calculado

A decisão de sair do ambiente executivo para empreender também carrega uma camada estratégica, e estrutural.

“Se eu não tivesse me planejado financeiramente, provavelmente outra pessoa criaria isso. Alguém com mais recurso, mais acesso.”

A fala revela algo que vai além da trajetória individual: quem tem tempo e condição de inovar?

Ainda assim, o movimento deu resultado. Sem concorrentes diretos na América Latina, a Humanos & IA se posiciona como pioneira em um novo segmento: o de inteligência executiva aplicada à liderança.

Um dos primeiros casos de impacto da plataforma vem de fora do eixo Rio-São Paulo.

Baseado em Salvador, o diretor de fotografia e empreendedor Tiago Rodriguez, à frente de um ecossistema criativo com atuação nacional, encontrou na ferramenta um suporte para estruturar o crescimento do negócio.

Com a integração da Humanos & IA, o grupo dobrou o faturamento em 2025.

“Minha caminhada ficou menos solitária. Existe um debate objetivo entre mim e a plataforma, que amplia o que é possível executar”, afirma Tiago.

A ferramenta passou a apoiar desde decisões estratégicas até organização de processos, preservando o equilíbrio entre criatividade e gestão.

@tiagorodriguez.k | @salcitycria | @km.fotografias

Para Léo, o case carrega um significado que vai além dos números:

“É um tipo de liderança que o Brasil inteiro reconhece: criativa, resiliente, ambiciosa. E que, com repertório, consegue crescer com consistência.”

Antes de tudo isso, existe uma história que começa longe dos centros de poder.

Criado em Taboão da Serra, na zona sul de São Paulo, Léo iniciou a carreira como office boy, passou por experiências internacionais no Chile e na Austrália e construiu, passo a passo, uma trajetória que hoje inspira outras lideranças.

Mas ele faz um ponto importante:

“Não foi fácil. E não é só sobre mérito. É sobre planejamento, acesso e conexão.”

Hoje, parte desse caminho se transforma em devolutiva, por meio de mentorias e, agora, de uma tecnologia que busca ampliar acesso ao que antes era privilégio de poucos.

A inteligência do futuro

No fim, a proposta da Humanos & IA não é substituir o humano. É expor uma lacuna.

Em um mercado que ainda separa estratégia de sensibilidade, tecnologia de contexto e liderança de vulnerabilidade, Léo Oliveira propõe uma inversão:

A verdadeira inteligência não está na máquina, está no repertório que a alimenta.

E talvez seja exatamente isso que ainda falta para o Brasil tomar decisões mais conscientes, mais diversas e, finalmente, mais alinhadas com a realidade que insiste em não caber nos algoritmos.

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Barbara Braga