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Duas mulheres são resgatadas após décadas de trabalho doméstico análogo à escravidão em Minas Gerais
Vítimas de 90 e 65 anos começaram a trabalhar ainda adolescentes e permaneceram ligadas à mesma família por décadas, segundo a fiscalização
Uma mulher negra de 90 anos foi resgatada em Belo Horizonte após passar aproximadamente 75 anos trabalhando para a mesma família em condições análogas à escravidão, segundo informações divulgadas por órgãos de fiscalização do trabalho. O caso, revelado durante a Operação Resgate 6, expõe uma realidade que muitos imaginam ter ficado no passado, mas que continua atingindo principalmente mulheres negras no Brasil.
De acordo com a investigação, a idosa chegou à residência ainda na adolescência e permaneceu vinculada à família ao longo de diferentes gerações. Ela realizava atividades domésticas como limpeza da casa, preparo de refeições e outras tarefas cotidianas sem acesso aos direitos garantidos pela legislação trabalhista. Os fiscais apontam que ela não recebia salário regular, não tinha autonomia sobre sua própria vida e enfrentava restrições ao convívio social e ao acesso à educação.
Outra mulher negra, de 65 anos, também foi resgatada na mesma operação. Segundo as autoridades, ela estava ligada à família havia cerca de 58 anos, desde a infância. Ambas teriam sido transferidas entre diferentes membros do núcleo familiar ao longo das décadas, reproduzindo uma dinâmica que os órgãos responsáveis classificaram como trabalho doméstico em condições análogas à escravidão.
Um dos aspectos que mais chamou a atenção das equipes de fiscalização foi o grau de dependência criado ao longo dos anos. Mesmo após o resgate, uma das vítimas continuava se referindo à antiga empregadora como “patroa” e demonstrava dificuldade em romper com a rotina imposta durante décadas de exploração. Ambas foram encaminhadas para acolhimento e passaram a receber acompanhamento de uma rede de assistência social e proteção.
Embora os empregadores tenham alegado que as mulheres eram “como parte da família”, a fiscalização concluiu que havia prestação contínua de serviços domésticos sem o reconhecimento de direitos básicos. Para os órgãos envolvidos na operação, a ausência de remuneração adequada, de descanso regular, de acesso à educação e de autonomia sobre a própria vida caracteriza uma relação de exploração incompatível com a dignidade humana.
O resgate ocorreu durante a Operação Resgate 6, ação coordenada por auditores fiscais, Ministério Público, Polícia Federal e Defensoria Pública da União. Em sua edição mais recente, a operação retirou 479 pessoas de situações análogas à escravidão em diferentes regiões do país, elevando para mais de 70 mil o número de trabalhadores resgatados desde 1995.




