Carnaval
Do Anhembi à Sapucaí: as escolas que levaram identidade e espetáculo à avenida
Entre potência popular, tradição e espetáculos visuais, São Paulo encerrou as duas noites do Grupo Especial e o Rio abriu os desfiles com Portela e Mangueira na avenida
O Carnaval 2026 já começou a desenhar seu mapa de destaques nas duas maiores passarelas do samba do país. Até a noite de 15 de fevereiro, o público acompanhou em São Paulo o encerramento das duas noites do Grupo Especial no Anhembi e o início do Grupo de Acesso I, enquanto o Rio de Janeiro deu o pontapé inicial no Grupo Especial com escolas históricas desfilando na Sapucaí.
Mais do que disputa por notas, os desfiles mostraram, mais uma vez, como o samba segue sendo um espaço de memória, identidade e criação coletiva, com enredos que atravessam cultura popular, tradição, ancestralidade e a força das comunidades que sustentam o Carnaval o ano inteiro.
São Paulo: quem brilhou no Anhembi
O Grupo Especial de São Paulo desfilou nas noites de 13 e 14 de fevereiro, reunindo algumas das escolas mais tradicionais e competitivas da cidade. Entre elas, oito agremiações se destacaram por presença de avenida, impacto visual e consistência de conjunto.
Mocidade Unida da Mooca
A MUM foi a primeira escola a desfilar na primeira noite de desfiles da capital paulista. E foi a estreia da escola no grupo especial, que apresentou o samba-enredo “Gèlèdés – Agbára Obìnrin”. O samba-enredo homenageia o Geledés – Instituto da Mulher Negra, organização fundada por Sueli Carneiro e outras mulheres em 1988, que defende os direitos de mulheres e de pessoas negras. O enredo faz ainda “uma ode à força ancestral das mulheres negras”.
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@eyes.grazi | @terrapretaproducoes | @portalgeledes
Dragões da Real
A Dragões confirmou sua assinatura: grande apelo popular, energia alta e uma bateria que empurra a escola com potência. Com o enredo “Guerreiras Icamiabas: Uma Lendária História de Força e Resistência“, a agremiação buscou exaltar a ancestralidade indígena, o matriarcado e a importância da preservação ambiental
Barroca Zona Sul
A Barroca foi a última escola a desfilar na primeira noite do Carnaval 2026 no Anhembi. A escola apresentou o samba-enredo “Oro Mi Maió Oxum”. Trata-se de uma homenagem a Oxum, orixá que representa águas doces, beleza, fertilidade e amor.
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@woody_henrique / Liga-SP | Miro Neto
Império de Casa Verde
A Império entregou um desfile de peso, com impacto visual e apuro técnico. A primeira escola a desfilar no segundo dia do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo 2026, apresentou um enredo que celebra a ancestralidade e a resistência das mulheres negras escravizadas no Brasil. “Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras”, que conta a história das joias que ajudaram escravas a conquistarem sua liberdade.
Mocidade Alegre
Sempre entre as mais aguardadas, a Mocidade Alegre apresentou um desfile com padrão de favorita. A escola homenageou a atriz Léa Garcia, que morreu em 2023, aos 90 anos. O enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra” teve como proposta retratar a trajetória e a obra de Léa Garcia sob uma ótica afro-religiosa e poética.
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Miro Neto | @deeh_fotografia13 | @futebolquebrada_
Gaviões da Fiel
A quarta escola a pisar no Anhembi foi a Gaviões da Fiel, que homenageou o Brasil indígena e trouxe um samba-enredo que defendia o meio ambiente. O cortejo, forte favorito ao título do Carnaval desse ano, não utilizou verde, ainda que falasse de florestas. A postura é uma tradição da escola ligada à torcida do Corinthians, que evita a cor associada ao Palmeiras, seu arquirrival.
Camisa Verde e Branco
Uma das agremiações mais tradicionais de São Paulo, o Camisa encerrou os desfiles do grupo especial do carnaval de São Paulo, com o samba-enredo “Abre Caminhos”, que celebra as diferentes manifestações de Exu, orixá guardião das encruzilhadas, dos caminhos e da comunicação, levando à avenida uma proposta de forte simbolismo religioso e cultural, mas que acabou ofuscada pelo problema no tempo de desfile.
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@felipearaujofotografo / Liga-SP
Rio de Janeiro: a Sapucaí abriu o Grupo Especial com tradição e peso histórico
No Rio, a noite de 15 de fevereiro marcou a abertura do Grupo Especial na Sapucaí, com quatro escolas desfilando e dando o tom do que promete ser uma temporada intensa.
Passaram pela avenida:
Acadêmicos de Niterói
Abrindo a primeira noite, a Acadêmicos de Niterói entrou na Sapucaí com energia e proposta visual forte. A escola fundada em 2018 fez sua estreia no Grupo Especial com uma homenagem ao presidente Lula (PT). Nos dias que antecederam o carnaval, o desfile foi alvo de pelo menos dez ações na Justiça e no Tribunal de Contas da União (TCU).
Portela
A Portela levou para a avenida o peso de ser uma das maiores instituições do samba, em busca do 23º título, com o enredo “O mistério do Príncipe do Bará – A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, exaltando a religiosidade, a cultura e a resistência da população negra no Rio Grande do Sul, estado com o maior número de terreiros no país.
Estação Primeira de Mangueira
A Mangueira, como sempre, transformou a Sapucaí em território de paixão, levantou o Sambódromo com o enredo “Mestre Sacaca do encanto Tucuju – O guardião da Amazônia Negra”. A escola homenageou o curandeiro amapaense Mestre Sacaca e exaltou a identidade do povo Tucuju, indígenas da foz do Rio Oiapoque, além de destacar a força da cultura afro-indígena.
@danilo.filme
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O que vem agora: apuração, notas e Desfile das Campeãs
Com São Paulo já tendo encerrado o Grupo Especial e o Rio apenas iniciando os desfiles, a folia entra na fase mais aguardada (e mais nervosa): a apuração.
Apuração em São Paulo
Depois das duas noites do Grupo Especial e do início do Acesso, São Paulo caminha para a leitura oficial das notas. É o momento em que detalhes técnicos passam a valer tudo: harmonia, evolução, enredo, fantasia, comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira, bateria e alegoria.
Desfiles do Rio continuam
No Rio, o Grupo Especial ainda segue nesta segunda-feira (16) com a segunda noite de desfiles do Grupo Especial do Carnaval 2026. Quatro escolas de samba cruzarão a avenida a partir das 22h, Mocidade Independente, Beija-Flor, Unidos da Viradouro e Unidos da Tijuca apresentam enredos que homenageiam personalidades como Rita Lee, Mestre Cissa e Carolina Maria de Jesus
Desfile das Campeãs
Depois da apuração, vem um dos momentos mais simbólicos do Carnaval: o Desfile das Campeãs (21/02), quando as escolas mais bem colocadas voltam para a avenida em clima de celebração, já sem o peso da nota, com o público curtindo como festa e consagração.
Até a noite de 15/02, São Paulo e Rio já indicaram uma tendência clara: escolas investindo em espetáculo e técnica, mas também reforçando o Carnaval como espaço de cultura, memória e identidade.
O samba, mais uma vez, aparece como o que sempre foi: arte coletiva, tradição viva e um dos maiores palcos do Brasil para contar histórias com corpo, canto e comunidade.




















