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Delroy Lindo fala sobre ‘Sinners’, primeira indicação ao Oscar e anos de esnobadas: “O trabalho continua valendo”
Aos 73 anos, o ator recebe sua primeira indicação ao prêmio da Academia e transforma o reconhecimento tardio em afirmação de legado
Depois de cinco décadas de carreira, atravessando teatro, televisão e cinema entre diferentes países, Delroy Lindo finalmente entrou para a lista mais simbólica de Hollywood: a dos indicados ao Oscar. Aos 73 anos, o ator recebeu sua primeira indicação da Academia por sua atuação como Delta Slim em Sinners, filme dirigido por Ryan Coogler que não apenas dominou a temporada, como também entrou para a história ao conquistar 16 indicações, o maior número já registrado por um único longa na premiação.
Em entrevista à Variety, Lindo falou sobre a sensação de ver o reconhecimento chegar depois de tantos anos e, principalmente, depois de tantas omissões. Sem melodrama e sem ressentimento performático, ele resumiu sua postura com uma frase que parece carregar a vida inteira de um artista negro dentro da indústria:
“O trabalho continua valendo.”
A declaração funciona como síntese do que o público já sabe, mas Hollywood insistiu em ignorar por tempo demais: Delroy Lindo sempre esteve entre os grandes, apenas não era tratado como tal pelos circuitos tradicionais de validação.
O silêncio que veio antes do Oscar
Um dos pontos centrais dessa reflexão passa por Da 5 Bloods (2020), filme de Spike Lee em que Lindo entregou uma das atuações mais celebradas do ano. Ele recebeu prêmios e aclamação crítica, foi colocado como favorito na temporada e, por meses, parecia inevitável que chegasse ao Oscar.
Mas o que veio foi o silêncio: nada de SAG, nada de Globo de Ouro, nada de Academia.
Lindo, no entanto, se recusa a reduzir o valor de sua arte a esses selos. Para ele, a ausência de reconhecimento institucional não apaga a força do que foi construído.
“O fato de não ter sido reconhecido pelos sindicatos não diminui o trabalho. São esferas muito diferentes”, afirmou.
‘Sinners’ e o peso do que ele carrega
Em Sinners, Lindo interpreta Delta Slim, personagem que carrega um tipo de densidade rara: ele não é construído para ser “carismático” no sentido tradicional, nem para se encaixar em arquétipos fáceis. É um homem atravessado por memórias, feridas, cultura e tempo, e isso exige um ator capaz de sustentar silêncio, dor e humanidade sem precisar explicar tudo em palavras.
O filme também ganhou destaque por um marco importante: tornou-se uma das produções com maior número de indicados negros individuais, empatando com Judas and the Black Messiah. É o tipo de estatística que diz muito sobre o presente, mas também sobre o quanto o cinema ainda está corrigindo atrasos históricos.
A performance foi recebida como uma das mais fortes do filme, e se tornou um dos pontos altos de uma temporada em que Sinners apareceu como um dos títulos mais comentados e celebrados.
Lindo faz questão de reconhecer o papel dos diretores que o colocaram em rota de visibilidade nos últimos anos: Ryan Coogler e Spike Lee.
“Se Da 5 Bloods não tivesse acontecido, eu não estaria nessa trajetória”, disse.
Reconhecimento não apaga o caminho, mas muda o futuro
A nomeação de Lindo conversa diretamente com um debate que não sai de cena: o quanto a indústria ainda demora para reconhecer talentos negros que não estão no molde do “novo” ou do “hype”. Muitas vezes, Hollywood só olha para artistas negros veteranos quando já é tarde demais para que esse reconhecimento se traduza em uma sequência de oportunidades proporcionais ao que eles sempre mereceram.




