9 de março de 2026

Entretenimento

Como a novela "A Nobreza do Amor" construiu seu reino africano com cenografia monumental e figurinos luxuosos

Produção da TV Globo mergulha em referências históricas e culturais africanas para construir o universo da novela, que mistura realeza fictícia, ancestralidade e o litoral do Nordeste brasileiro

Barbara Braga | 09/03/2026
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A nova novela das seis da TV Globo, A Nobreza do Amor, aposta em uma construção visual ambiciosa para levar à televisão a história de uma princesa africana que precisa fugir de seu reino para salvar a própria vida e a de sua família.

Para dar forma a esse universo, a produção mergulhou em referências históricas, culturais e estéticas de diferentes regiões da África, desenvolvendo um projeto artístico que atravessa cenografia, figurino e caracterização.

O trabalho contou com a consultoria de Maurício Camillo, pesquisador da Guiné-Bissau dedicado ao estudo da história de grandes reinos africanos, além da direção de arte de Rafael Cabeça, pesquisador de cultura afro-brasileira. A proposta da equipe era evitar representações simplificadas frequentemente associadas ao continente africano no audiovisual.

“O povo da África ficou reduzido a estereótipos de pobreza e atraso em muitos filmes e novelas. A Nobreza do Amor busca outro caminho, mostrando formas diversas de viver e culturas africanas em sua pluralidade”, explica Camillo.

Um reino africano construído dentro dos Estúdios Globo

Para criar os cenários da trama, os Estúdios Globo construíram dois grandes universos narrativos: o reino fictício de Batanga e a cidade brasileira de Barro Preto.

Ao todo, a produção ocupou mais de 4.500 metros quadrados de área cenográfica. A construção mobilizou cerca de 300 profissionais e levou mais de três meses para ser concluída.

O reino africano ocupa 974 metros quadrados, enquanto a cidade brasileira soma 3.532 metros quadrados. Batanga foi projetada pela cenógrafa Paula Salles e incorpora elementos inspirados em diferentes tradições culturais africanas. Um dos símbolos centrais do cenário é o baobá, árvore associada à ancestralidade e à resistência.

A versão cenográfica tem cerca de 6,5 metros de altura e uma copa de 12 metros de folhagem, construída com estrutura metálica revestida em poliuretano. Dentro da narrativa, o baobá funciona como um símbolo espiritual e histórico do reino.

Ao redor dele aparecem outros elementos importantes, como muxarabis, treliças vazadas de origem árabe comuns no norte da África, e símbolos adinkra, ideogramas tradicionais do povo Akan que representam valores filosóficos e ancestrais.

Tronos inspirados em orixás e cenários artesanais

A sala do trono é um dos ambientes mais emblemáticos da novela. O espaço reúne madeira entalhada, bandeiras e pinturas feitas à mão, criando uma atmosfera de opulência associada à realeza de Batanga.

Dois tronos foram desenvolvidos especialmente para a trama, cada um inspirado em uma divindade da tradição iorubá:

  • Iansã, que inspira o trono da rainha
  • Xangô, referência para o trono do rei

Segundo a equipe de cenografia, a proposta foi valorizar um visual artesanal, com a sensação de que o espaço foi construído por muitas mãos, em contraste com uma estética industrial.

Quase 200 perucas e figurinos com pó de ouro

O figurino é outro destaque da produção. As peças foram desenvolvidas a partir de referências de diferentes culturas africanas, incluindo influências iorubás, bantu e masai.

A família real de Batanga utiliza roupas com padrões inspirados no Aso Oke, tecido artesanal iorubá historicamente associado à nobreza. As cores predominantes do reino são vermelho e dourado, reforçando a ideia de poder e realeza.

Algumas peças da princesa Duda Santos, que interpreta a personagem Alika, foram produzidas com técnicas tradicionais de tingimento africano, além de aplicações de foil e pó de ouro.

Na caracterização, os números também impressionam: o acervo reúne quase 200 perucas, muitas delas modulares, capazes de gerar cerca de 300 combinações diferentes.

Entre os estilos aparecem tranças, dreads e adornos com pedras, ampliando a diversidade estética dos personagens.

A cidade brasileira que contrasta com o reino

Se Batanga é marcada por tons terrosos e uma iluminação própria, a cidade fictícia de Barro Preto, ambientada no Rio Grande do Norte, apresenta uma estética diferente.

Inspirada em cidades históricas brasileiras e em balneários europeus do início do século XX, a cenografia reúne casarios coloridos, arquitetura eclética e elementos coloniais.

A cidade foi estruturada ao redor de uma praça central, formato clássico de novelas brasileiras, onde ficam a igreja, o armazém e as principais casas da narrativa.

Mesmo assim, a presença africana permanece atravessando esse território de forma simbólica. Elementos artesanais e símbolos adinkra, incluindo o Sankofa, aparecem em detalhes da arquitetura e da cenografia.

O símbolo representa a ideia de olhar para o passado para construir o futuro, um conceito que dialoga diretamente com a narrativa da novela e com o percurso da protagonista.

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Barbara Braga