11 de fevereiro de 2026

Carnaval

Carolina Maria de Jesus vira enredo da Unidos da Tijuca e será celebrada no Carnaval 2026

A vida da escritora será contada em uma narrativa cronológica que percorre suas múltiplas identidades, levando para o desfile temas como desigualdade, fome, dignidade e potência criativa

Barbara Braga | 11/02/2026
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- Crédito: CCSP

A Unidos da Tijuca anunciou que vai levar para a Marquês de Sapucaí, no Carnaval 2026, a trajetória de Carolina Maria de Jesus, escritora, poeta, compositora e uma das vozes mais importantes da literatura brasileira. A escola promete transformar em desfile uma vida marcada por sobrevivência, escrita e coragem, em um enredo que reconhece a potência cultural e simbólica de uma mulher negra que escreveu o Brasil a partir do lugar que quase nunca é ouvido: a favela.

Carolina é conhecida mundialmente por Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, livro que reúne anotações e relatos feitos por ela no cotidiano da favela do Canindé, em São Paulo. Sua escrita é direta, dura e profundamente humana. É também uma obra que incomodou, justamente por revelar o país sem filtro: a fome, o abandono, o racismo estrutural, o machismo e a desigualdade social atravessando a vida de quem está na base.

No desfile, a Unidos da Tijuca pretende contar a história de Carolina de forma cronológica, resgatando desde a infância, quando ela era chamada de “Bitita”, apelido dado pelo avô, até o momento em que se torna autora reconhecida e uma figura que atravessa gerações. A proposta do enredo também destaca que Carolina não cabe em uma única definição: ela foi doméstica, mãe, catadora, escritora, mulher invisibilizada, e também uma figura constantemente enquadrada por estereótipos.

Segundo a escola, a narrativa vai explorar diferentes “faces” de Carolina ao longo do desfile, como uma forma de representar as múltiplas camadas da sua existência e, por consequência, as múltiplas camadas de tantas mulheres negras brasileiras, historicamente empurradas para papéis sociais limitados, mesmo quando carregam talentos extraordinários.

A homenagem ganha ainda mais peso porque coloca a escritora em um espaço que é, ao mesmo tempo, espetáculo e disputa simbólica. O Carnaval, como uma das maiores expressões culturais do país, também é um lugar onde histórias são recontadas, memórias são reivindicadas e figuras apagadas podem finalmente ser celebradas com grandeza. Levar Carolina para a avenida é afirmar que a literatura também nasce da periferia, que a cultura brasileira também é construída por quem catou papel, cuidou dos filhos sozinha e escreveu para não enlouquecer.

Tânia Rêgo/Agência Brasil 

A Unidos da Tijuca, que integra o Grupo Especial do Rio de Janeiro, deve apresentar o enredo no Sambódromo em 2026, com previsão de desfile na segunda-feira de Carnaval, 16 de fevereiro. A expectativa é que a escola use a força visual do espetáculo para traduzir a potência da escrita de Carolina, uma mulher que transformou o cotidiano em denúncia, e a palavra em sobrevivência.

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Barbara Braga