Música
Artistas negros no Super Bowl: um histórico de presença cultural em um dos maiores palcos do mundo
De Michael Jackson a Kendrick Lamar e Rihanna, artistas negros marcaram presença histórica no show do intervalo e redefiniram o significado cultural do evento
O Super Bowl, final do campeonato de futebol americano que mobiliza milhões de espectadores em todo o mundo, não é apenas um dos eventos esportivos mais assistidos, seu show do intervalo se transformou em um dos maiores palcos da música popular global. Ao longo das décadas, artistas negros têm desempenhado um papel central nessa história, levando ritmos, narrativas e performances que refletem a influência profunda da cultura afro-americana no pop, no hip-hop e no R&B.
Ícones que mudaram o jogo
Uma das performances mais emblemáticas de toda a história do Super Bowl aconteceu em 1993, quando Michael Jackson subiu ao palco no show do intervalo do Super Bowl XXVII. Sua apresentação foi um marco: não apenas elevou o show a um espetáculo musical esperado tanto quanto o jogo em si, como também abriu espaço para que artistas de grande impacto cultural fossem convidados a se apresentar nas edições seguintes.
Outro momento lendário foi a performance de Prince no Super Bowl XLI, em 2007, que entrou para a história. Sua versão de “Purple Rain”, executada sob chuva torrencial, ficou marcada como uma das apresentações mais memoráveis de todos os tempos, tanto pela qualidade técnica quanto pela carga simbólica de resistência e entrega artística.
Hip-hop, R&B e a renovação do palco
Nas últimas duas décadas, o Super Bowl ampliou sua celebração musical para incluir gêneros fortemente ligados à expressão negra contemporânea. Em 2022, o show do intervalo do Super Bowl LVI foi um marco do hip-hop, com um time lendário formado por Dr. Dre, Snoop Dogg, Eminem, Mary J. Blige e Kendrick Lamar. A apresentação foi amplamente comemorada como uma afirmação da relevância e do alcance global do hip-hop, um gênero nascido nas comunidades negras urbanas e que hoje domina as conversas musicais em todo o mundo.
Em 2023, foi a vez de Rihanna assumir o palco no Super Bowl LVII, trazendo ao palco seu repertório de sucessos que atravessam R&B, pop e soul. A performance de Rihanna consolidou ainda mais a presença feminina negra no centro da narrativa cultural do Super Bowl, em um momento em que o evento busca refletir maior diversidade artística.
Já no Super Bowl 2024, o artista Usher liderou o halftime show com uma apresentação repleta de convidados importantes do R&B e hip-hop, incluindo Alicia Keys, H.E.R., Lil Jon, Ludacris, will.i.am e Jermaine Dupri, um desfile de talentos que revisitou décadas da música preta com energia, estilo e impacto.
Em 2025, o rap voltou a dominar com Kendrick Lamar no Super Bowl LIX em New Orleans, cuja performance com participação de SZA e outros colaboradores consolidou o artista como uma das vozes mais influentes de sua geração. A apresentação de Lamar combinou letras contundentes, design visual marcante e referência à história negra americana, um exemplo de como o Super Bowl hoje serve também como palco de expressões culturais complexas e narrativas políticas sutis.
A presença contínua de artistas negros no Super Bowl representa mais do que shows impressionantes: reflete a centralidade da música negra na cultura popular mundial. Do soul ao funk, do R&B ao hip-hop, os ritmos e formas de expressão desenvolvidos por comunidades negras nos Estados Unidos se tornaram pilares da indústria global, e o palco do Super Bowl, com sua audiência massiva, é hoje um dos principais espaços de afirmação dessa influência.
Esse movimento de inclusão e protagonismo não aconteceu de forma linear. Por muitos anos, o show do intervalo privilegiou artistas e formatos que não refletiam a riqueza da música negra. A transição passou a se intensificar com a ascensão do hip-hop como força cultural dominante e foi acelerada pela parceria entre a NFL e a produtora Roc Nation, liderada por Jay-Z, que tem impulsionado maior diversidade no line-up.
As performances de Michael Jackson, Prince, Dr. Dre, Kendrick Lamar, Rihanna e Usher, entre outros, não só atraíram milhões de telespectadores, muitas vezes estabelecendo recordes de audiência, como também colocaram artistas negros no centro de uma vitrine global, com impacto direto na representação cultural, na produção musical e na percepção dos públicos sobre quem molda a música popular.
Linha do tempo: Artistas negros no show do intervalo do Super Bowl
1967
The Grambling State University Marching Band
Uma das primeiras presenças negras no halftime show, representando a força das HBCUs (universidades historicamente negras) e a tradição das marching bands.
1972
Ella Fitzgerald, Carol Channing e Al Hirt
Ella Fitzgerald leva o jazz e a tradição musical negra ao palco do Super Bowl.
1991
Whitney Houston (Participação)
A icônica interpretação do hino nacional dos EUA por Whitney, é amplamente considerada a melhor de todos os tempos.
1993
Michael Jackson
Um divisor de águas. A performance muda o patamar do show do intervalo e transforma o halftime show em um espetáculo musical global.
1995
Patti LaBelle
Realizou uma das apresentações mais memoráveis do show de intervalo do Super Bowl XXIX, intitulado “Indiana Jones and the Temple of the Forbidden Eye”.
1996
Diana Ross
Um show grandioso, com estética pop e presença de palco histórica, reforçando o protagonismo feminino negro.
1997
James Brown
O show, intitulado “Blues Brothers Bash”, também contou com ZZ Top e The Blues Brothers (Dan Aykroyd, John Goodman e Jim Belushi).Uma das apresentações mais animadas e soul da história.
1998
Boyz II Men + Smokey Robinson + Martha Reeves & The Vandellas +The Temptations+ Queen Latifah
Uma noite que celebrou R&B e soul, reunindo diferentes gerações da música negra. Queen Latifah tornou-se a primeira rapper a se apresentar no Super Bowl.
1999
Stevie Wonder
A apresentação, intitulada “A Celebration of Soul, Salsa and Swing”, contou com a participação de Chaka Khan.
2001
Nelly + Mary J. Blige (participações)
O hip-hop e o R&B entram com mais força no show do intervalo, ainda como parte de line-ups mistos.
2004
Janet Jackson
Performance icônica e também controversa, que virou marco na história do evento e na relação da mídia com artistas negras.
2006
Aretha Franklin
A Rainha do Soul cantou com Aaron Neville, Dr. John e um coral, prestando homenagem a Nova Orleans após o Katrina.
2007
Prince
Uma das performances mais celebradas da história do Super Bowl, com “Purple Rain” na chuva, momento lendário.
2011
The Black Eyed Peas (com Fergie e will.i.am)
Com estilo futurista, tocaram “I Gotta Feeling” e “Boom Boom Pow”, com participação especial de Usher.
2013
Beyoncé + Destiny’s Child
Um marco histórico: performance poderosa, visualmente impecável e central para o legado pop negro.
2014
Bruno Mars (principal)
Com raízes negras e latinas, Bruno Mars faz um dos shows mais elogiados da década.
2015
Missy Elliott (participação)
Elliott participou como convidada especial, e foi considerada um dos pontos altos do show, recebendo elogios por sua energia e impacto nos 121 milhões de telespectadores
2016
Beyoncé + Bruno Mars
Beyoncé leva referências políticas e estéticas negras, num dos momentos mais comentados do evento.
2019
Travis Scott e Big Boi (Participação)
Travis cantou seu sucesso “Sicko Mode” em uma performance energética que incluiu uma introdução com o Bob Esponja.E Big se destacou por sua entrada em um Cadillac conversível usando um grande casaco de pele para cantar “The Way You Move”.
2021
The Weeknd (principal)
Com um investimento próprio de US$ 7 milhões, ele entregou uma performance cinematográfica de 14 minutos, com cenários 3D e dançarinos com bandagens no rosto.
2022
Dr. Dre + Snoop Dogg + Mary J. Blige + Kendrick Lamar
Um marco: o hip-hop vira o centro absoluto do Super Bowl. Uma noite histórica para a cultura negra.
2023
Rihanna
Performance icônica, com força pop e legado de R&B. Um dos shows mais comentados da década.
2024
Usher + Alicia Keys + H.E.R. + Lil Jon + Ludacris + Jermaine Dupri + will.i.am
Celebração do R&B e do hip-hop, com um time de estrelas negras atravessando gerações.
2025
Kendrick Lamar + SZA
O rap e a performance conceitual ocupam o palco com linguagem visual, crítica e potência cultural.
Ao longo das décadas, o Super Bowl passou de um palco conservador para um espaço onde a música negra, especialmente o hip-hop e o R&B, se consolidou como linguagem central do entretenimento global.




