21 de setembro de 2026

Representatividade

19ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa reúne cerca de 60 mil pessoas em Copacabana

Evento ocupou a Avenida Atlântica com mais de 40 caravanas e cerca de 26 grupos culturais, reunindo diferentes tradições religiosas em defesa da liberdade de crença

Barbara Braga | 21/09/2026
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- Crédito: Zezinho Andrade

Copacabana ganhou novas cores, sons e símbolos neste domingo (20). Entre tambores, cantos, danças e manifestações de fé, cerca de 60 mil pessoas ocuparam a Avenida Atlântica para participar da 19ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, uma mobilização que transforma as ruas do Rio de Janeiro em espaço de encontro entre diferentes crenças e culturas.

Da concentração no Posto 5 até a chegada à região da Praça do Lido, no Posto 2, o percurso foi marcado pela presença de mais de 40 caravanas vindas de diferentes regiões do Rio de Janeiro, de outros estados e até de fora do país. A caminhada também contou com aproximadamente 26 grupos culturais, entre manifestações de religiões de matriz africana, Folias de Reis, afoxés e blocos afros.

19ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa – Foto: Zezinho Andrade

Antes de a multidão ocupar a Avenida Atlântica, participantes, lideranças religiosas, representantes de movimentos sociais, autoridades e apoiadores se reuniram durante a manhã para um café da manhã no Hotel Pestana, em Copacabana.

Por volta das 10h, o público seguiu para o Posto 5. Entre os participantes estava Andréa Gomes, evangélica de Nova Iguaçu, que participou pela primeira vez acompanhada da filha e da neta.

“Vim pela primeira vez, fiquei encantada com a proposta, muito bacana esse encontro”, contou.

A presença de pessoas de diferentes gerações também ajudou a traduzir uma das principais características da caminhada: a construção de um espaço público em que diferentes tradições religiosas podem compartilhar a mesma rua sem que uma precise apagar a outra.

Ao meio-dia, o cortejo começou a percorrer a Avenida Atlântica em direção à Praça do Lido.

No caminho, estavam representantes do candomblé, da umbanda, do catolicismo, de igrejas evangélicas, do espiritismo, do judaísmo, do islamismo e de tradições indígenas, além de pessoas que não seguem nenhuma religião.

Da ancestralidade aos blocos afros

A cultura teve papel central na ocupação da orla. Os aproximadamente 26 grupos culturais presentes levaram para Copacabana diferentes formas de expressão, conectando religiosidade, música, dança e memória.

Entre as manifestações estavam afoxés, blocos afros e grupos ligados às tradições de matriz africana, além das tradicionais Folias de Reis.

A presença dessas expressões também reforçou uma dimensão histórica da caminhada: para comunidades de terreiro, ocupar espaços públicos com seus símbolos, músicas e manifestações culturais representa também uma forma de reivindicar visibilidade e respeito.

Entre os participantes estava Sandro Luiz, que veio de São Paulo para integrar a programação. Ao falar sobre a importância da mobilização, ele destacou a relação entre presença, ancestralidade e resistência.

“Para nós, povos de terreiro, ocupar esse espaço com nossa música, nossa cultura, nossa ancestralidade e nossa espiritualidade também é um ato de resistência, de dignidade e de liberdade. Que essa caminhada continue abrindo caminhos para um Brasil onde todas as religiões possam existir, celebrar e expressar sua fé sem medo.”

O encerramento contou ainda com Marquinhos de Oswaldo Cruz e a Bateria da Mangueira, além da participação das MCs Dandara Suburbana e Zilá Lima.

19ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa – Foto: Zezinho Andrade

A história da caminhada está diretamente ligada à luta contra a intolerância religiosa e à defesa das religiões de matriz africana.

O evento foi criado em 2008 pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) e pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), em meio à mobilização de comunidades e organizações diante de episódios de perseguição e violência contra praticantes de religiões de origem africana.

Desde então, a caminhada cresceu e passou a reunir diferentes segmentos religiosos em torno de uma pauta comum: o direito à liberdade de crença e à convivência entre diferentes tradições.

Segundo os organizadores, aproximadamente 1,8 milhão de pessoas já participaram das 18 edições anteriores. Neste ano, cerca de 60 mil pessoas participaram da mobilização em Copacabana.

Uma presença que atravessa fronteiras

Entre as histórias que marcaram esta edição esteve a da Monja Oca, de 88 anos, que viajou do Japão para participar da caminhada. Ela esteve à frente de uma delegação de aproximadamente 40 pessoas, representando a Catedral Budista de São Paulo e o Templo Budista de Itaguaí, ligados ao Budismo Primordial.

Sua presença ajuda a dimensionar o alcance que a caminhada adquiriu ao longo dos anos. O que começou como uma mobilização diretamente relacionada à defesa das religiões de matriz africana passou a reunir, na mesma avenida, diferentes comunidades religiosas e culturais.

A diversidade do público não elimina as diferenças entre as tradições. Pelo contrário: a proposta do encontro é justamente criar um espaço em que elas possam existir lado a lado.

Liberdade religiosa também é direito de existir

Ao longo de quase duas décadas, a Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa se consolidou no calendário do Rio de Janeiro como um momento de visibilidade, encontro e reivindicação de direitos.

A presença de terreiros, igrejas, comunidades religiosas, grupos culturais, movimentos sociais e pessoas sem religião transforma a Avenida Atlântica em um retrato da pluralidade que existe para além das diferenças de fé.

Em uma sociedade marcada por distintas formas de acreditar, praticar e compreender a espiritualidade, defender a liberdade religiosa significa também defender o direito de cada pessoa viver sua identidade e suas tradições sem medo.

Em Copacabana, essa mensagem ganhou música, dança, ancestralidade e milhares de vozes. E, mais uma vez, a caminhada mostrou que ocupar a rua também pode ser uma maneira de afirmar: toda fé tem direito a existir com respeito e dignidade.

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Barbara Braga