Esportes
Surya Bonaly: a patinadora que quebrou o gelo antes do esporte estar pronto para ela
Muito antes de o esporte começar a discutir diversidade, corpo, estética e racismo estrutural, Surya Bonaly já tinha chegado ao limite. E, quando chegou, decidiu não se dobrar
Surya Bonaly entrou na patinação artística sem pedir licença e pagou um preço alto por isso. Ex-ginasta, ela só começou a patinar aos 11 anos, idade considerada tardia para um esporte conhecido por formar campeãs ainda na infância. Mesmo assim, construiu uma carreira gigantesca: três medalhas de prata em Campeonatos Mundiais, cinco títulos europeus, nove campeonatos franceses e três participações olímpicas (1992, 1994 e 1998).
Os números, no entanto, nunca contaram a história completa. Porque Surya não era apenas uma atleta de alto rendimento. Ela era uma mulher negra em um dos esportes mais brancos do mundo, treinada pela própria mãe, fora dos grandes centros tradicionais da patinação artística europeia. E isso, desde cedo, a colocou em rota de colisão com um sistema que não estava preparado para reconhecer sua excelência.
Quando o problema nunca foi a técnica
A crítica que acompanhou Surya ao longo de toda a carreira era quase sempre a mesma: ela era “atlética demais”. Forte demais. Musculosa demais. Saltava demais. Um juiz chegou a declarar que gostaria de vê-la “parar de saltar por seis meses para aprender a patinar”. O subtexto era evidente e cruel. Não era sobre execução, era sobre corpo, estética e quem parecia pertencer ao gelo.
Em um esporte que historicamente premiava leveza, delicadeza e uma feminilidade rigidamente codificada, Surya apresentava outra linguagem: potência, explosão e força. E isso não cabia nos critérios subjetivos de avaliação.
Se o sistema não reconhecia seu talento, Surya seguiu expandindo os limites do possível. Ela foi uma das primeiras mulheres a tentar saltos quádruplos em competição, mesmo antes de eles serem plenamente aceitos pelas regras. Mais do que isso, criou um movimento que entraria para a história: o backflip aterrissado em uma única lâmina.
O salto era tecnicamente impressionante e imediatamente proibido. Tornou-se ilegal por ser considerado perigoso e “incompatível” com a estética do esporte. Ainda assim, virou um fenômeno popular. Surya não performava delicadeza. Ela performava potência.
O dia em que o silêncio acabou
O ponto de ruptura veio em 1994, no Campeonato Mundial do Japão. Empatada em pontos com a atleta da casa, Yuka Sato, Surya perdeu no critério de desempate. Na cerimônia de premiação, recusou-se a subir ao pódio. Chorou. Foi puxada à força. Tirou a medalha do pescoço sob vaias da plateia.
Para muitos, foi rotulada como “antidesportiva”. Para Surya, foi o esgotamento de anos sendo julgada por métricas atravessadas por tradição, exclusão e racismo estrutural, em uma época em que essas palavras ainda não circulavam no vocabulário esportivo.
Nagano, 1998: punição e eternidade
Quatro anos depois, nos Jogos Olímpicos de Nagano, Surya guardou sua resposta final. Lesionada, fora da disputa por medalhas e prestes a se aposentar, ela fez o impensável: executou o backflip ilegal, em rede mundial, aterrissando em uma lâmina só.
A punição foi imediata. A história, eterna. A imprensa descreveu o gesto como “o palavrão mais elaborado da história olímpica”. Outros foram mais diretos: Surya Bonaly não estava apenas patinando, ela estava falando. Falando como uma atleta negra em um esporte que nunca esteve disposto a escutá-la.
Décadas depois, quando o backflip finalmente se torna legal e novos nomes recebem aplausos por movimentos semelhantes, o gesto de Surya ganha outra camada de significado. Não era rebeldia vazia. Era denúncia. Era sobrevivência. Era legado.




