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“Se uma comunidade é invadida, todos nós somos invadidos”: Aly Muritiba e Matheus Nachtergaele falam sobre nova temporada de Cidade de Deus
Diretor e ator destacam a participação de moradores da comunidade na produção, o aprofundamento dos personagens e os conflitos políticos e territoriais que atravessam a segunda temporada da série
A segunda temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para amplia os conflitos apresentados na primeira fase da série e aprofunda o olhar sobre as pessoas que vivem nas comunidades brasileiras. Entre disputas por território, política, milícia e violência, a produção também busca mostrar histórias que acontecem longe dos confrontos: a vida dentro de casa, as relações de afeto, os encontros entre moradores e as diferentes formas de existência nas periferias.
Durante a première da nova temporada, o diretor Aly Muritiba e o ator Matheus Nachtergaele, intérprete de Cenoura, conversaram sobre os caminhos da produção e a importância de construir uma narrativa que não reduza a Cidade de Deus à criminalidade. Para os dois, a série também representa uma oportunidade de aproximar o público da realidade de quem vive nesses territórios.
Aly destaca que o formato de série permite desenvolver aspectos da vida dos personagens que dificilmente teriam o mesmo espaço em um longa-metragem. Com aproximadamente seis horas de duração, a produção consegue acompanhar situações cotidianas e apresentar outras dimensões da comunidade.
“A gente tem uma vantagem que o filme não tem, que é tempo. A gente tem praticamente seis horas de tempo de tela para aprofundar a vida dos nossos personagens. A gente consegue, na série, não só ver tiroteio, tráfico de drogas, briga por poder, mas a gente consegue ver o interior da casa das personagens, as personagens cozinhando, as personagens conversando, as personagens vivendo momentos de comunidade”, explicou o diretor.
Para ele, mostrar essas experiências é parte fundamental da complexidade da narrativa. A violência está presente na história, mas não é a única dimensão da vida dos moradores. A proposta é acompanhar personagens que também trabalham, convivem, constroem relações e compartilham experiências que fazem parte da rotina das comunidades.
“Fazer algo sobre a existência nas comunidades que vai além da violência, que extrapola a violência, foi uma oportunidade que eu não podia perder”, afirmou Aly.
Uma história construída com a Cidade de Deus
Outro aspecto destacado pelo diretor é a participação de moradores da própria comunidade na produção. Além de artistas que fizeram parte do filme original, a série conta com jovens atores que vivem na Cidade de Deus e integram o grupo de teatro Arteiros.
Segundo Aly, a escolha foi abrir espaço para que essas pessoas contribuíssem com suas próprias experiências e perspectivas, participando da construção da história. Para ele, a presença desses jovens trouxe elementos que não poderiam ser reproduzidos apenas a partir de um olhar externo.
“A nossa escolha foi fazer o filme não sobre a Cidade de Deus, mas com a Cidade de Deus”, declarou.
Aly acredita que essa abertura contribuiu para aproximar a produção da realidade das comunidades. O reconhecimento de situações, personagens e espaços familiares para quem vive nesses territórios também se tornou uma parte importante da relação do público com a série.
“Eles trouxeram uma coisa que eu, que não sou morador de comunidade, nunca conseguiria colocar para dentro da história, que é a verdade”, afirmou.
Política, milícia e disputas por território
Na segunda temporada, os conflitos também ganham novas dimensões. De acordo com Aly, a disputa por território deixa de se concentrar apenas dentro da Cidade de Deus e alcança bairros próximos, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Além das ações criminosas, a produção passa a explorar as disputas no campo político e simbólico.
Um dos movimentos centrais dessa expansão acontece com Berenice, personagem de Roberta Rodrigues, que assume uma cadeira na Câmara de Vereadores. Com isso, a série coloca em paralelo diferentes formas de disputa pelo poder e mostra como decisões tomadas nas instituições também interferem diretamente na vida dos moradores.
“A disputa por território está também no universo político e simbólico, porque Berenice vai para a Câmara de Vereadores. Então, a gente tem várias lutas sendo travadas paralelamente”, explicou o diretor.
Para Aly, essas histórias não estão isoladas. As disputas nos gabinetes e os conflitos territoriais provocados pelas milícias têm consequências sobre a população que vive nas periferias.
“Mas todas essas lutas confluem para o mesmo lugar, que é a vida do trabalhador, a vida da população periférica. As lutas travadas nos gabinetes têm consequência direta com o que acontece dentro das comunidades. A luta por território que as milícias empreendem tem consequência direta na vida da comunidade”, destacou.
O diretor compara a construção da nova temporada a um tabuleiro de xadrez, com diferentes movimentos acontecendo ao mesmo tempo. A intenção é mostrar como esses conflitos se conectam e como acontecimentos que parecem distantes da rotina dos moradores acabam chegando até eles.
Matheus Nachtergaele revisita Cenoura
Para Matheus Nachtergaele, retornar ao universo de Cidade de Deus também foi uma oportunidade de reencontrar um personagem importante de sua trajetória. Mais de duas décadas depois do filme, o ator volta a interpretar Cenoura, que reaparece na história após cumprir a pena estabelecida ao final da produção original.
Na nova temporada, o personagem tenta se afastar da criminalidade e não pretende retornar à comunidade. No entanto, os laços afetivos acabam levando Cenoura de volta à Cidade de Deus, onde ele é chamado para tentar apaziguar conflitos entre lideranças do tráfico.
“Na série, o Cenoura cumpriu pena, a pena a qual ele foi destinado no final do filme. Saiu da Cidade de Deus e não quer voltar para o crime, não quer voltar para a criminalidade e não quer mais voltar para a comunidade. Mas, por laços afetivos, ele é levado a voltar para apaziguar as lideranças das bocas que estão brigando entre si dentro da comunidade”, contou o ator.
O retorno, porém, não significa que Cenoura consiga se manter distante da realidade que tentou deixar para trás. Segundo Matheus, o personagem acaba envolvido novamente nos conflitos de suas origens, mesmo que essa não seja sua vontade inicial. O ator evitou revelar detalhes dos acontecimentos para não antecipar surpresas da temporada.
“E acaba envolvido de novo nas suas origens, na violência onde ele nasceu, um pouco a contragosto. E aí eu não posso dar spoiler, ele vai ser levado de novo para o redemoinho das aventuras”, adiantou.
Matheus também relacionou a volta à série ao momento vivido pelo audiovisual brasileiro. Para ele, acompanhar o crescimento de uma produção que nasceu de uma obra tão importante para o cinema nacional é uma oportunidade de observar os resultados de um processo de fortalecimento da indústria.
O ator lembrou de produções como O Auto da Compadecida, Central do Brasil e Cidade de Deus, que marcaram diferentes momentos da retomada do cinema brasileiro. Ao retornar ao universo da história, ele enxerga a continuidade desse trabalho e a expansão do setor.
“É uma alegria e o sentimento de que o plantio foi bonito e a colheita generosa”, afirmou.

Matheus Nachtergaele, como Cenoura, no filme ‘Cidade de Deus’ (2002) e na segunda temporada ‘Cidade de Deus: A luta não para’ — Foto: Divulgação
“Tudo é a cidade”: a favela também faz parte da sociedade
A conversa também abordou a relação entre ficção e realidade, especialmente diante da violência que atravessa a vida de moradores de comunidades brasileiras. Questionado sobre a importância de produções como Cidade de Deus para aproximar o público dessas experiências, Matheus destacou que conhecer os personagens permite enxergar suas diferentes dimensões, com qualidades, contradições e histórias próprias.
Para o ator, esse contato pode contribuir para a construção de empatia e para uma compreensão mais ampla sobre os territórios que muitas vezes são tratados como se estivessem separados do restante das cidades.
“Com certeza, o filme Cidade de Deus e a série ajudam a gente a olhar mais de perto os personagens que vivem nas comunidades do Brasil, suas realidades, seus defeitos e suas virtudes, cria empatia das pessoas com esses personagens”, declarou.
Matheus também questionou a separação simbólica entre os centros urbanos e as favelas, lembrando que esses territórios não existem fora da cidade, mas são parte dela.
“Me parece que são um caminho bonito para que a gente entenda que as comunidades, como são chamadas os subúrbios, as favelas do Brasil, também são a cidade. Não é que existem as cidades e as comunidades, tudo é a cidade”, afirmou.
Ao falar sobre sua própria experiência durante as filmagens, o ator contou que a Cidade de Deus também ampliou sua percepção sobre o lugar que ocupa dentro da sociedade. Para ele, conhecer aquele território foi conhecer uma parte da própria cidade que, até então, não fazia parte de sua vivência.
A reflexão ganhou ainda mais força quando Matheus relacionou a realidade das comunidades à responsabilidade coletiva diante da violência. “Então, é isso, somos todos parte do mesmo país. Se uma comunidade é invadida, todos nós somos invadidos”, concluiu.
Entre o aprofundamento dos personagens, a participação de moradores na construção da narrativa e a expansão das disputas políticas e territoriais, a segunda temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para propõe olhar para a comunidade por diferentes perspectivas. A violência faz parte dessa realidade, mas não resume as vidas que existem ali. A série também fala de pertencimento, trabalho, afeto, cultura e das relações que conectam a favela ao restante da sociedade.
A segunda temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para estreia em 8 de novembro de 2026, na HBO e na HBO Max.




