Esportes
Por que o tênis se tornou o esporte mais avançado na luta pela igualdade de gênero
Enquanto outras modalidades ainda enfrentam disparidades salariais, os Grand Slams distribuem premiações iguais para homens e mulheres graças a décadas de mobilização feminina
Quando uma campeã do US Open, de Wimbledon, de Roland Garros ou do Australian Open levanta um troféu hoje, ela recebe exatamente a mesma premiação destinada ao campeão masculino.
Em um mundo esportivo ainda marcado por desigualdades salariais, essa informação parece simples. Mas ela é resultado de uma das mais importantes mobilizações da história do esporte.
O tênis é frequentemente apontado como a modalidade mais avançada quando o assunto é igualdade de gênero, especialmente em suas principais competições. O que muitas pessoas não sabem é que essa conquista foi construída ao longo de mais de cinco décadas por atletas que desafiaram dirigentes, questionaram estruturas de poder e transformaram a forma como o esporte enxerga as mulheres.
E, nessa trajetória, mulheres negras tiveram papel fundamental.
A revolução começou quando nove mulheres disseram não
Hoje é difícil imaginar, mas houve um tempo em que as mulheres recebiam apenas uma fração do que era pago aos homens no tênis profissional.
No início da chamada Era Aberta, no fim da década de 1960, a diferença nas premiações era enorme. Em alguns torneios, os campeões masculinos recebiam várias vezes mais do que as campeãs, mesmo quando o interesse do público era semelhante.
Foi nesse cenário que surgiu um grupo conhecido como Original 9.
Em 1970, nove tenistas romperam com a estrutura tradicional do esporte e criaram um circuito feminino independente. O movimento abriu caminho para a fundação da Women’s Tennis Association (WTA), entidade que passou a representar os interesses das atletas profissionais.
A iniciativa não foi apenas uma disputa por dinheiro. Era uma luta por reconhecimento, respeito e pela ideia de que o trabalho das mulheres tinha valor equivalente ao dos homens.
Billie Jean King mudou as regras do jogo
Nenhum nome está mais associado a essa transformação do que o de Billie Jean King.
Considerada uma das maiores tenistas de todos os tempos, King usou sua posição de destaque para pressionar organizadores e patrocinadores em favor da igualdade. Em 1973, sua mobilização ajudou a fazer do US Open o primeiro Grand Slam da história a oferecer premiação igualitária para homens e mulheres.
A conquista foi histórica, mas ainda estava longe de ser suficiente. Os demais torneios mais importantes do mundo levariam décadas para seguir o mesmo caminho.
Ainda assim, Billie Jean King provou que atletas poderiam ser muito mais do que competidoras. Elas também poderiam ser agentes de transformação.
Se Billie Jean King representa a geração que lutou pela igualdade de premiação, Naomi Osaka simboliza uma nova etapa dessa história. Filha de um haitiano e de uma japonesa, a multicampeã de Grand Slam transformou sua influência em uma plataforma para debater racismo, saúde mental e maternidade, ampliando o significado da equidade no esporte. Sua trajetória mostra que igualdade não é apenas receber o mesmo prêmio em dinheiro, mas também ter voz, representatividade e poder para transformar a indústria esportiva.
Venus Williams concluiu uma batalha iniciada décadas antes
Nos anos 2000, a desigualdade permanecia em dois dos torneios mais tradicionais do circuito: Wimbledon e Roland Garros.
Foi então que entrou em cena uma atleta que já havia mudado a história do esporte dentro das quadras. Venus Williams.
A norte-americana utilizou sua visibilidade para pressionar dirigentes, participou de reuniões, liderou campanhas e publicou uma carta aberta criticando a diferença de tratamento entre homens e mulheres. Sua atuação foi decisiva para que Wimbledon anunciasse a igualdade de premiação em 2007. Roland Garros tomou decisão semelhante no mesmo período.
A coincidência carregou um simbolismo poderoso. Naquele mesmo ano, Venus conquistou o título de Wimbledon e se tornou a primeira campeã a receber a nova premiação igualitária.
Quando se fala sobre igualdade de gênero no esporte, muitas vezes a discussão se concentra em números e políticas institucionais.
Mas a história do tênis também é uma história de representatividade negra. Venus e Serena Williams transformaram um esporte historicamente associado às elites em um espaço onde meninas negras passaram a enxergar possibilidades de futuro.
As irmãs não apenas dominaram o circuito profissional. Elas desafiaram padrões estéticos, enfrentaram episódios de racismo, questionaram estruturas de poder e ampliaram o debate sobre quem pode ocupar os espaços de prestígio no esporte mundial.
O impacto dessa transformação pode ser percebido na geração atual. Atletas como Coco Gauff, campeã de Grand Slam ainda muito jovem, frequentemente citam Billie Jean King, Venus e Serena como referências fundamentais em suas trajetórias.
O tênis alcançou a igualdade?
A resposta é complexa. Nos maiores torneios do mundo, homens e mulheres recebem hoje a mesma premiação. Isso faz do tênis uma das modalidades mais avançadas quando o assunto é equidade econômica entre gêneros.
Mas os desafios não desapareceram.
Diferenças em contratos de patrocínio, exposição midiática, investimentos em eventos menores e oportunidades comerciais ainda fazem parte da realidade de muitas atletas. A própria WTA segue desenvolvendo estratégias para ampliar a equiparação financeira em diferentes níveis do circuito profissional.
Ainda assim, poucas modalidades conseguiram avançar tanto quanto o tênis.
A história da igualdade no tênis não é apenas sobre esporte. É sobre mulheres que se recusaram a aceitar que seu trabalho valia menos, atletas que utilizaram fama, talento e influência para abrir caminhos para outras gerações. E é também sobre o papel decisivo de mulheres negras que transformaram uma modalidade tradicionalmente excludente em um espaço mais diverso, mais representativo e mais justo.
Por isso, quando uma tenista recebe hoje o mesmo prêmio que um homem em um Grand Slam, o que está sendo celebrado não é apenas uma vitória esportiva.




