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ONU lança plataforma em português dedicada à história da escravidão e do tráfico transatlântico
Nova plataforma reúne conteúdos históricos e educativos sobre a escravidão, a resistência negra e os impactos do comércio transatlântico na sociedade contemporânea
A história da escravidão e do tráfico transatlântico de pessoas africanas escravizadas ganhou uma nova ferramenta de acesso para o público de língua portuguesa. A Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um portal em português dedicado a preservar e ampliar o conhecimento sobre um dos processos históricos que mais profundamente transformaram sociedades em diferentes partes do mundo.
A iniciativa integra o Programa de Divulgação sobre o Comércio Transatlântico de Escravizados e a Escravidão, criado pela Assembleia Geral da ONU em 2007. A proposta é disponibilizar informações, materiais educativos e recursos que contribuam para compreender não apenas a dimensão histórica da escravidão, mas também seus legados no presente.
Para países como o Brasil, onde a história da população negra está diretamente ligada ao tráfico transatlântico, o acesso a esse conteúdo em português ganha uma dimensão ainda maior.
Durante séculos, milhões de africanos foram sequestrados, comercializados e transportados à força para diferentes regiões das Américas.
Estima-se que aproximadamente 12,5 milhões de africanos tenham sido deportados através do comércio transatlântico entre os séculos XVI e XIX. Cerca de 5 milhões foram levados para o Brasil, fazendo do território brasileiro o principal destino do tráfico transatlântico nas Américas.
Esses números ajudam a dimensionar a escala de um sistema que não representou apenas a retirada forçada de milhões de pessoas de seus territórios de origem. A escravidão também foi responsável pela construção de estruturas econômicas, sociais e políticas que deixaram marcas profundas nas sociedades americanas.
No Brasil, seus efeitos podem ser percebidos até hoje nas desigualdades raciais, na distribuição de oportunidades e na forma como a população negra é representada e reconhecida socialmente.
Um dos aspectos importantes da iniciativa da ONU é a tentativa de apresentar essa história para além da narrativa da violência. O programa também destaca resistência, sobrevivência, liberdade e contribuição cultural das populações africanas e afrodescendentes.
Ao longo dos séculos, pessoas escravizadas e seus descendentes preservaram idiomas, conhecimentos, religiões, tecnologias, formas de organização comunitária, manifestações artísticas e diferentes tradições que ajudaram a construir as sociedades onde foram forçadas a viver.
No Brasil, essa herança está presente em manifestações como o samba, a capoeira, o jongo, o maracatu, o candomblé, além de diferentes expressões da culinária, da música, da literatura e das artes.
A memória, nesse contexto, deixa de ser apenas uma ferramenta para olhar para o passado e passa a funcionar como instrumento para compreender o presente.
Por que um portal em português importa?
A disponibilização do conteúdo em português amplia o acesso de estudantes, professores, pesquisadores, jornalistas e organizações da sociedade civil a materiais produzidos no âmbito das Nações Unidas.
Também aproxima a discussão internacional da realidade de países africanos de língua portuguesa e de comunidades afrodescendentes espalhadas pelo mundo.
No caso brasileiro, a iniciativa pode contribuir para fortalecer o acesso a informações sobre um período que durante muito tempo foi ensinado de maneira fragmentada, frequentemente concentrando a narrativa na escravização e deixando em segundo plano as experiências, culturas e formas de resistência das populações negras.
Ter materiais disponíveis em português facilita que esse conhecimento circule por escolas, universidades, espaços culturais e projetos de educação antirracista.
Os impactos não ficaram no passado
A ONU também relaciona o legado da escravidão aos desafios enfrentados atualmente.
O tráfico transatlântico e o sistema escravista ajudaram a estruturar hierarquias raciais que sobreviveram à abolição formal da escravidão. Por isso, o debate sobre memória está diretamente conectado a questões contemporâneas como racismo, discriminação e desigualdade racial.
Reconhecer essa continuidade histórica não significa tratar o passado como algo estático. Significa compreender como determinadas estruturas foram construídas e por que seus efeitos ainda podem ser percebidos nas sociedades atuais. Essa perspectiva também reforça a importância de políticas de educação, preservação da memória e combate ao racismo.
A Arca do Retorno
Entre os conteúdos relacionados ao programa está a Arca do Retorno, memorial permanente localizado na sede da ONU, em Nova York. A obra foi criada pelo arquiteto norte-americano de origem haitiana Rodney Leon e funciona como um espaço de homenagem às milhões de pessoas vítimas da escravidão e do tráfico transatlântico.
O memorial convida os visitantes a refletirem sobre três momentos: reconhecimento da história, reflexão sobre suas consequências e compromisso com um futuro de igualdade. A escolha de manter viva essa memória reforça uma das principais mensagens do programa da ONU: reconhecer as vítimas e compreender a história são etapas necessárias para enfrentar os efeitos que permanecem.




