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Navi Pillay ganha Nobel da Paz de 2026 e marca história da justiça internacional
Jurista sul-africana de origem tâmil-indiana enfrentou o apartheid, tornou-se a primeira mulher não branca nomeada juíza da Alta Corte do país e dedicou décadas à defesa dos direitos humanos
Aos 85 anos, Navi Pillay foi anunciada como vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2026. A jurista sul-africana foi reconhecida pelo Comitê Norueguês do Nobel por sua atuação na promoção da paz e do direito internacional, em uma trajetória marcada pelo enfrentamento à discriminação racial e pela defesa da responsabilização por crimes internacionais.
Nascida em Durban, na África do Sul, em uma família de origem tâmil-indiana, Navanethem “Navi” Pillay cresceu sob o apartheid, regime que institucionalizou a segregação racial e restringiu direitos da população não branca do país. Décadas depois, sua carreira se tornou parte da história da justiça sul-africana e internacional.
Em 1967, Pillay abriu seu próprio escritório de advocacia na província de Natal. Em um contexto de exclusão racial e de gênero, construiu uma carreira dedicada à defesa de pessoas perseguidas pelo regime, incluindo ativistas contrários ao apartheid e presos políticos.
Em 1995, tornou-se a primeira mulher não branca nomeada juíza da Alta Corte da África do Sul, um marco em um sistema jurídico historicamente atravessado pela segregação racial.
Da luta contra o apartheid aos tribunais internacionais
A atuação de Pillay ultrapassou as fronteiras sul-africanas. Em 1999, ela passou a integrar o Tribunal Penal Internacional para Ruanda, criado para julgar crimes relacionados ao genocídio de 1994. Posteriormente, presidiu a instituição.
Sua atuação contribuiu para o reconhecimento de que a violência sexual e o estupro podem constituir crimes contra a humanidade e atos de genocídio, ampliando os parâmetros de responsabilização por atrocidades cometidas em conflitos.
Entre 2008 e 2014, Pillay ocupou o cargo de alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Também atuou como juíza do Tribunal Penal Internacional e, em 2019, foi nomeada juíza ad hoc da Corte Internacional de Justiça no caso em que Mianmar é acusado de violar a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio.
Entre 2021 e 2025, presidiu a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental, e Israel. Em 2025, a comissão concluiu que Israel havia cometido atos de genocídio em Gaza. O governo israelense rejeitou as conclusões.

REUTERS | Universidade Of Cape Town
“O poder, em vez da lei, determina de quem é o sofrimento que importa”
Ao receber a notícia da premiação, Pillay demonstrou surpresa. Durante uma fala improvisada a colegas e amigos, chegou a brincar que a notícia parecia uma piada.
Mais tarde, dedicou o reconhecimento aos sobreviventes de crimes internacionais e às pessoas que trabalham na defesa da justiça internacional.
Em declarações repercutidas pela BBC, a jurista alertou para os riscos de enfraquecer as instituições jurídicas internacionais. Segundo ela, as tentativas de deslegitimar esses mecanismos podem levar o mundo de volta a uma realidade em que “o poder, em vez da lei, determina de quem é o sofrimento que importa”.
A declaração sintetiza uma das questões centrais de sua trajetória: a possibilidade de responsabilizar indivíduos e Estados por violações graves, independentemente de sua posição política ou poder internacional.
O significado de sua trajetória
A história de Navi Pillay conecta a experiência de uma mulher não branca que construiu sua carreira durante o apartheid à atuação em instituições internacionais responsáveis por investigar e julgar crimes de grande gravidade.
Seu percurso também evidencia a presença de mulheres que desafiaram barreiras raciais e de gênero em espaços historicamente excludentes, da advocacia sul-africana aos tribunais internacionais.
Ao anunciar o Nobel da Paz de 2026, o Comitê Norueguês destacou a contribuição de Pillay para o fortalecimento do direito internacional e para a responsabilização por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio.




