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Mulheres negras seguem sendo as maiores vítimas de homicídio feminino no Brasil, aponta Atlas da Violência 2026
Dados revelam que 67,5% das mulheres assassinadas no país são negras e reforçam como racismo e violência de gênero caminham juntos no Brasil
Existe um dado que atravessa o Brasil há anos e que continua se repetindo mesmo quando os índices gerais de violência apresentam queda. No país, a violência contra a mulher tem cor.
Segundo o Atlas da Violência 2026, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as mulheres negras representaram 67,5% das vítimas de homicídio feminino no Brasil em 2024.
Na prática, isso significa que mais de duas a cada três mulheres assassinadas no país eram negras.
O levantamento aponta que 2.457 mulheres negras perderam a vida de forma violenta no período analisado. A taxa de homicídios entre mulheres negras também permanece muito superior à registrada entre mulheres não negras, evidenciando uma desigualdade racial histórica que segue estruturando quem vive, e quem morre, no Brasil.
Embora o estudo mostre redução nos índices gerais de homicídio feminino nos últimos anos, os números revelam que essa queda não acontece de forma igual para todas.
E é justamente aí que os dados deixam de ser apenas estatística. Porque eles ajudam a expor um padrão histórico. A violência contra mulheres negras no Brasil não pode ser entendida apenas como um problema de segurança pública ou violência doméstica.
Ela está diretamente ligada às desigualdades sociais e raciais que atravessam o país desde sua formação. Mulheres negras ocupam, proporcionalmente, os espaços mais precarizados da sociedade brasileira:
- recebem menores salários
- enfrentam maior vulnerabilidade econômica
- possuem menos acesso à proteção institucional
- e estão mais expostas à violência dentro e fora de casa.
O próprio Atlas mostra que a maioria das agressões contra mulheres acontece dentro do ambiente doméstico, revelando como o espaço que deveria representar proteção muitas vezes se transforma em território de risco.
Mas existe também outra camada importante nesse debate, a naturalização histórica da dor da mulher negra. Durante décadas, mulheres negras foram empurradas para lugares de invisibilidade social, onde suas violências raramente receberam a mesma atenção pública, institucional ou midiática.
Quando uma mulher negra desaparece, sofre violência ou é assassinada, o impacto coletivo muitas vezes não mobiliza o país da mesma forma.
E isso também faz parte da engrenagem do racismo estrutural. Os dados do Atlas ajudam a mostrar que gênero e raça não podem ser tratados como debates separados no Brasil. Porque a violência de gênero atinge todas as mulheres, mas não da mesma maneira.
A exposição à violência letal cresce justamente onde se acumulam desigualdade racial, pobreza, ausência de políticas públicas e dificuldade de acesso à proteção do Estado.
Por isso, especialistas e movimentos negros defendem há anos que o enfrentamento à violência contra a mulher precisa considerar o recorte racial como elemento central das políticas públicas.




