29 de julho de 2026

Esportes

Mia Lopes e a Afroesporte: quando o esporte deixa de ser só performance e passa a ser projeto de futuro

Jornalista e CEO da Afroesporte, Mia Lopes lidera uma iniciativa que conecta formação, letramento racial e desenvolvimento de carreira para atletas de alto rendimento

Barbara Braga | 29/07/2026
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- Crédito: Foto: Miguel Barros

Jornalista, comunicadora e empreendedora social, Mia Lopes é uma das vozes mais influentes quando o assunto é esporte, narrativa e transformação estrutural no Brasil. À frente da Afroesporte, ela lidera uma iniciativa que conecta formação, letramento racial e desenvolvimento de carreira para atletas de alto rendimento.

Na Afroesporte, ela criou um ecossistema que vai além do desempenho atlético e reposiciona o atleta como protagonista de sua própria carreira, identidade e futuro. Mas a história da Afroesporte não começa em uma empresa. Começa em uma trajetória pessoal atravessada por esporte, comunicação e uma inquietação com as narrativas tradicionais sobre atletas negros.

Do Jaspion ao jornalismo: uma paixão que nasceu na cultura pop e nas lutas

A relação de Mia Lopes com o esporte começa antes mesmo da vida profissional. Na infância, ela foi atravessada por referências da cultura pop e das artes marciais, de séries japonesas como Jaspion e Power Rangers até filmes de ação e transmissões de luta.

Arquivo Pessoal | Mia Lopes

Essa mistura de imaginário e realidade ajudou a construir sua conexão com o universo esportivo, especialmente com os esportes de combate. Em Salvador, onde cresceu, essa paixão foi se fortalecendo ao mesmo tempo em que ela começava a entender o esporte como linguagem, identidade e possibilidade.

Mais tarde, essa relação se transformaria em jornalismo.

Arquivo Pessoal | Mia Lopes

Quando o jornalismo esportivo questiona quem pode falar de esporte

Ao entrar no jornalismo, Mia encontrou um ambiente onde a legitimidade para falar de esporte ainda era atravessada por barreiras simbólicas.

Como ela mesma relata, era comum ouvir perguntas que colocavam em dúvida sua presença naquele espaço, como se fosse necessário ter sido atleta para poder narrar o esporte.

Essa vivência expôs algo maior: o racismo estrutural e as desigualdades de acesso também moldam quem conta as histórias esportivas no Brasil.

Diante disso, Mia escolheu outro caminho: usar a comunicação como ferramenta de deslocamento de narrativa.

Arquivo Pessoal

A evolução da Afroesporte e o foco no letramento racial

A Afroesporte nasce em 2019 como um projeto de conteúdo digital, inicialmente focado em contar histórias de atletas sob uma perspectiva mais humana, potente e antirracista.

O que começou como um perfil e narrativas sobre esportistas rapidamente ganhou força, principalmente durante os Jogos Olímpicos de Tóquio, quando Mia passou a reunir histórias de atletas e criar novas formas de cobertura esportiva, mais coletivas, digitais e descentralizadas.

A resposta do público e, principalmente, dos atletas, revelou uma demanda maior: não bastava contar histórias. Era preciso estruturar caminhos.

Afroesporte Fund: quando contar histórias vira também sustentar trajetórias

A partir dessa virada, nasce o Afroesporte Fund, um programa estruturado e focado no desenvolvimento de atletas negros de alto rendimento.

Na sua quarta edição, realizada em parceria com a Betano e a Africanize, o projeto selecionou 10 atletas que, desde outubro de 2025, recebem:

  • bolsa mensal de R$ 6.000,00 
  • acompanhamento psicológico
  • mentoria financeira
  • letramento racial
  • media training e produção de conteúdo
  • formação em branding pessoal e carreira
  • suporte contínuo de desenvolvimento humano

A expansão da Afroesporte também se conecta a parcerias estratégicas.

A Betano entra como marca que viabiliza o suporte financeiro e estrutural do Afroesporte Fund, enquanto a Africanize atua como plataforma de amplificação narrativa, garantindo visibilidade e circulação dessas histórias.

Para Mia, essa união representa algo maior: quando diferentes potências se encontram, o impacto se multiplica.

“A gente tem orgulho de dizer que não entrega apenas uma bolsa. É um conjunto de ferramentas que cerca o atleta de todos os lados.” — Mia Lopes sobre o Afroesporte Fund 4 e a parceria com a Betano.

Comunicação, identidade e o atleta como marca

Um dos pilares centrais da Afroesporte é a construção de autonomia narrativa. Para Mia, atletas já são influenciadores por natureza, e precisam entender isso como potência, não como pressão. O trabalho envolve ajudar cada atleta a compreender sua própria trajetória como marca, com identidade, linguagem e presença digital estratégica, mas sem perder autenticidade.

A lógica não é transformar atletas em criadores de conteúdo, mas ajudá-los a se reconhecer como produtores da própria história.

Letramento racial e estrutura emocional como parte do alto rendimento

Outro eixo fundamental do projeto é o letramento racial aplicado ao esporte. A Afroesporte trabalha para preparar atletas para os atravessamentos do racismo estrutural que fazem parte da carreira esportiva, além de oferecer suporte psicológico contínuo para lidar com pressão, exposição e desafios emocionais.

Esse conjunto de ferramentas amplia a compreensão do que é alto rendimento: não apenas performance física, mas também estrutura mental, social e econômica.

“Não tem como um atleta despontar, ficar milionário da noite para o dia, sem estrutura para entender e enfrentar o racismo que vai viver.”  — Mia Lopes sobre a importância do letramento racial para os atletas negros

Narrativas de felicidade como escolha política

Um dos pontos mais marcantes da visão de Mia Lopes é sua crítica à forma como o esporte negro é historicamente narrado.

Ela questiona a lógica que reduz trajetórias de atletas negros a histórias de sofrimento e superação extrema, defendendo o direito à felicidade como parte legítima da narrativa esportiva.

“A medalha é felicidade. Por que a história do atleta negro precisa ser contada apenas pela dor? A gente tem direito a uma narrativa de alegria, de conquista e de celebração.” — Mia Lopes sobre a felicidade como narrativa do esporte negro.

Na Afroesporte, a proposta é outra: contar histórias de potência, alegria, conquista e humanidade, sem apagar a dor, mas sem transformá-la em centro.

Raízes do Pódio: uma união estratégica Africanize, Afroesporte e Betano

Essa visão de futuro também se materializa no Raízes do Pódio, projeto que reúne Africanize, Afroesporte e Betano em torno de um objetivo comum: fortalecer e amplificar as trajetórias de atletas negros brasileiros. A iniciativa combina desenvolvimento, visibilidade e representatividade, criando um espaço onde essas histórias podem ser contadas a partir de suas conquistas, sonhos e potências. Mais do que dar voz aos atletas, o projeto reforça a importância de construir estruturas que permitam que eles permaneçam, cresçam e ocupem o protagonismo dentro e fora das competições, uma missão que está no centro do trabalho realizado por Mia Lopes e pela Afroesporte.

Você tem esse triângulo, esse tripé que é a Betano enquanto marca com receita, com capital, com estrutura, Afro trazendo os atletas nesse olhar de potência, de valor e a Africanize ampliando, colocando um megafone para tudo isso que a gente está fazendo. Isso transforma esse nosso poder de voz, eleva para um nível muito legal.

A Afroesporte, sob liderança de Mia Lopes, se consolida como um projeto que reorganiza o entendimento sobre a carreira esportiva no Brasil.

E nesse processo, Mia ocupa um lugar central: o de quem não apenas conta histórias do esporte, mas ajuda a construir novas formas de vivê-lo.

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Barbara Braga