11 de agosto de 2026

Música

MC Hariel faz do Red Bull Symphonic uma celebração da memória do funk paulista

Ao lado de orquestra, coro e convidados especiais, artista celebra a memória, as origens e o futuro de um dos movimentos culturais mais importantes das periferias brasileiras

Barbara Braga | 10/08/2026
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- Crédito: @redbullbr | @pivaphoto | @marcelomaragni | @fgf0t

O que aconteceu no último sábado (8), no Auditório Simón Bolívar, em São Paulo, foi muito mais do que um show. Foi uma afirmação cultural.

Diante de uma casa lotada, MC Hariel comandou a primeira edição brasileira do Red Bull Symphonic, projeto internacional que promove encontros entre artistas contemporâneos e formações sinfônicas. Mas, ao contrário de uma simples fusão entre gêneros, o espetáculo se transformou em uma celebração da história do funk paulista, de suas raízes periféricas e de sua capacidade de ocupar espaços que durante décadas pareciam inacessíveis para artistas vindos das quebradas.

Ao lado do maestro Xuxa Levy, do produtor Nave Beatz e da Orquestra de Fluxo, formação criada especialmente para a apresentação, reunindo 45 instrumentistas, oito vozes no coro e bases de DJ, Hariel revisitou sua trajetória artística e construiu uma narrativa sobre a evolução do funk como expressão cultural, política e social.

O espetáculo também foi marcado por participações especiais que ajudaram a ampliar essa narrativa.

MC Don Juan representou uma geração que ajudou a levar o funk paulista para novos espaços de visibilidade, incluindo a televisão e os grandes veículos de comunicação. Sua presença reforçou a expansão do gênero para além dos bailes e das plataformas digitais.

MC Menor da VG trouxe para o palco uma conexão direta com a caminhada de Hariel, lembrando os laços construídos dentro da própria cena e a importância das relações que sustentam a cultura periférica.

Um dos momentos mais emocionantes da noite aconteceu com a participação de Patrícia Hellen, irmã do saudoso MC Felipe Boladão. Bailarina clássica, ela protagonizou uma apresentação que conectou a música “Mina de Vermelho”, homenagem a MC Daleste, com trechos da “Bachiana nº 5”, de Heitor Villa-Lobos. O encontro entre duas referências aparentemente distantes sintetizou uma das principais mensagens do espetáculo: não existem fronteiras entre cultura popular e cultura erudita quando ambas nascem da criatividade humana.

Outro destaque foi a presença do Coletivo Submundo 808, responsável por levar ao palco a estética do mandelão e do funk de rua. O diálogo entre os graves característicos dos bailes e os instrumentos da orquestra mostrou que a potência do funk não precisa ser suavizada para ocupar novos espaços. Ela pode chegar exatamente como é.

A escolha de Hariel para protagonizar a estreia brasileira do Red Bull Symphonic não aconteceu por acaso. Nos últimos anos, o artista se consolidou como uma das principais vozes do funk nacional, construindo uma carreira marcada por letras que abordam desigualdade social, mobilidade, identidade e pertencimento.

Sua trajetória acompanha também um momento de expansão do próprio gênero. Dados recentes mostram que o funk brasileiro se tornou uma das linguagens musicais de maior crescimento global, ampliando sua presença em plataformas digitais, festivais internacionais e mercados antes dominados por outros estilos.

Por isso, o espetáculo realizado no Memorial da América Latina carrega um significado que vai além da música. Não foi o funk tentando se adaptar à lógica dos concertos. Foi a sala de concerto abrindo espaço para reconhecer uma cultura que há décadas movimenta territórios, gera renda, cria tendências e influencia a música brasileira contemporânea.

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Barbara Braga