21 de agosto de 2026

Saúde

Manoel Soares transforma diagnóstico de autismo em luta pela paternidade atípica

Ao descobrir que também está no espectro durante a investigação dos filhos, comunicador passou a dedicar parte de sua atuação à neurodiversidade e criou iniciativas para aproximar pais do cotidiano de crianças atípicas

Barbara Braga | 21/08/2026
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- Crédito: @manoelsoares

A vida de Manoel Soares ganhou novas perguntas depois que ele deixou a televisão aberta. Longe dos estúdios que marcaram sua trajetória, o comunicador passou a olhar com ainda mais atenção para uma questão que já fazia parte de sua própria casa: o autismo.

Pai de seis filhos, Manoel acompanhou o processo de investigação dos dois filhos mais novos, Ezequiel e Izael, ambos autistas. Foi durante esse caminho que ele decidiu investigar também a própria condição. Em novembro de 2024, revelou ter recebido o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ele também contou posteriormente que foi diagnosticado com TDAH e superdotação.

O diagnóstico fez Manoel revisitar a própria história e a maneira como se relacionava com os filhos. E foi dessa experiência que nasceu uma atuação cada vez mais voltada para a paternidade atípica.

Quando compreender os filhos também significou compreender a si mesmo

Em um relato publicado no Diário Gaúcho, Manoel explicou que a investigação surgiu a partir da possibilidade de que características relacionadas ao autismo dos filhos também estivessem presentes nele. Depois de conversar com a esposa e com a neurologista das crianças, entendeu que investigar a própria condição poderia ajudar a compreender melhor a realidade dos filhos.

O processo, no entanto, não foi simples. Manoel contou que tinha medo de receber o diagnóstico e também receava que sua exposição pública fosse interpretada como uma tentativa de utilizar a experiência dos filhos para ganhar visibilidade. Ainda assim, decidiu seguir adiante.

A descoberta trouxe, segundo ele, uma nova compreensão sobre situações que antes pareciam difíceis de explicar. Em entrevista ao UOL, o comunicador relatou, por exemplo, que determinados estímulos sonoros podem provocar crises sensoriais e que compreender o próprio funcionamento fez com que se sentisse mais disponível para a família e para o trabalho.

A experiência também mudou a maneira como ele enxerga a paternidade.

“Meus filhos são meus maiores professores, eles me ensinam a ressignificar o tempo, o afeto e o verdadeiro sentido de estar junto”, afirmou Manoel em entrevista à CARAS Brasil.

A paternidade atípica como pauta coletiva

A partir da própria vivência, Manoel passou a falar sobre uma questão que vai além do diagnóstico: a participação dos pais no cuidado de filhos com deficiência e neurodivergência.

Em 2025, ele passou a liderar o Circuito Paternidade Atípica, realizado em parceria com a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo. A iniciativa promove encontros e atividades para aproximar pais e familiares da realidade das crianças atípicas.

O projeto parte de uma constatação importante: o cuidado ainda costuma ser concentrado sobre as mães. A Prefeitura de São Paulo destaca que a participação paterna na rotina de cuidados com filhos com deficiência ainda é limitada, cenário que pode aumentar a sobrecarga materna e aprofundar desigualdades dentro das famílias. Por isso, os encontros também discutem masculinidade, deficiência, vínculos familiares e corresponsabilidade.

E esse talvez seja um dos aspectos mais importantes da atuação de Manoel: ele não coloca a paternidade atípica como uma responsabilidade exclusivamente materna. A proposta é chamar os homens para dentro dessa conversa.

Falar de masculinidade negra nesse contexto significa olhar para as expectativas que historicamente acompanham os homens negros: força, resistência, capacidade de prover e pouca abertura para demonstrar vulnerabilidade.

Quando Manoel fala publicamente sobre diagnóstico, dúvidas, dificuldades e aprendizados dentro da própria família, ele também rompe com a ideia de que o pai precisa ter todas as respostas.

A discussão proposta pelo Circuito Paternidade Atípica inclui justamente a desconstrução de estereótipos relacionados à masculinidade, paternidade e deficiência. Os encontros promovidos pela Prefeitura são pensados como espaços de conversa, escuta e troca de experiências entre pais, familiares, cuidadores e profissionais.

Não se trata apenas de ensinar homens a “ajudar” as mães. A palavra mais importante aqui é corresponsabilidade. Cuidar também é função do pai. Participar de consultas, compreender terapias, conhecer as necessidades da criança, acompanhar a escola, aprender sobre comunicação e estar presente nas pequenas conquistas também fazem parte da paternidade.

Da experiência pessoal para uma rede de apoio

A atuação de Manoel ganhou dimensão nacional justamente porque ele decidiu compartilhar aquilo que, inicialmente, pertencia ao espaço privado.

Em 2025, o comunicador afirmou ao UOL que as iniciativas já haviam alcançado mais de 700 mil homens, presencial e virtualmente, levando informações sobre a realidade do autismo e incentivando uma participação paterna mais ativa.

Em entrevista à CARAS Brasil, ele também explicou que a intenção é transformar uma experiência individual em uma causa coletiva, criando espaços de conhecimento e acolhimento para famílias atípicas.

O projeto Encontro de Pais Atípicos também passou a fazer parte dessa trajetória. A iniciativa promove espaços específicos de conversa entre homens que vivenciam a realidade de criar filhos neurodivergentes.

Para Manoel, falar sobre isso também significa mostrar aos pais que eles não precisam atravessar esse processo sozinhos.

“Meu objetivo não é ser exemplo, mas ser companhia, mostrar que estamos juntos nesse caminho”, afirmou o comunicador.

A saída da Globo, em 2023, marcou o fim de um capítulo importante da carreira de Manoel Soares. Depois de passagens por programas como Profissão Repórter, É de Casa e Encontro, ele deixou a televisão aberta e passou a concentrar sua atuação em projetos próprios, comunicação digital e pautas sociais.

Mas o período que poderia ser entendido apenas como um afastamento da televisão acabou abrindo espaço para outra forma de comunicação. Hoje, Manoel usa a própria experiência para conversar sobre autismo, inclusão, paternidade e família. Em vez de esconder as dúvidas que surgiram com o diagnóstico, ele decidiu colocá-las no centro da conversa.

E existe uma dimensão especialmente importante nisso quando falamos de representatividade negra.

Durante muito tempo, histórias sobre autismo e neurodivergência foram apresentadas principalmente a partir de determinadas perspectivas familiares. A presença de um homem negro, pai e autista, falando publicamente sobre suas descobertas e dificuldades, amplia as possibilidades de identificação para outras famílias que nem sempre se veem representadas nesse debate.

O diagnóstico não encerra a história

A trajetória de Manoel não precisa ser contada como uma história de “superação” do autismo. O diagnóstico não é um obstáculo que ele venceu. É uma informação que passou a ajudá-lo a compreender quem é, como funciona e como se relaciona com os filhos. E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais potente dessa história.

Ao falar sobre sua experiência, Manoel abre espaço para que outros pais também façam perguntas. Ao colocar a paternidade atípica no centro, questiona por que o cuidado ainda é tantas vezes colocado quase exclusivamente sobre as mulheres. E ao falar sobre sua própria neurodivergência, mostra que homens negros também precisam ocupar espaços de vulnerabilidade, cuidado e autoconhecimento.

Em agosto de 2026, Manoel participou novamente do circuito promovido pela Prefeitura de São Paulo. Os encontros realizados nos CEUs Sapopemba e Aricanduva discutiram justamente os desafios emocionais e sociais das famílias de pessoas com deficiência, além da relação entre masculinidade, paternidade e deficiência.

A televisão pode ter deixado de ser, por enquanto, o principal palco de Manoel Soares. Mas a comunicação continua sendo uma ferramenta central em sua trajetória.

Só que agora a conversa acontece em outro lugar: dentro das famílias, nas rodas de conversa, nos projetos sociais e na construção de uma paternidade que entende que estar presente também é uma forma de transformar vidas.

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Barbara Braga