19 de agosto de 2026

Música

Líder de gangue planejou assassinato de Tupac Shakur, afirma promotoria em julgamento

Quase 30 anos após a morte do rapper, promotores afirmam que Duane “Keffe D” Davis articulou ataque em retaliação a uma briga ocorrida horas antes em Las Vegas

Michael Fonseca | 18/08/2026
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- Crédito: Reuters

Quase 30 anos após a morte de Tupac Shakur, um dos crimes mais emblemáticos da história do hip-hop finalmente chegou a julgamento. O processo contra Duane “Keffe D” Davis, de 63 anos, começou em Las Vegas, nos Estados Unidos, na última segunda-feira (17). A promotoria afirma que o ex-líder de uma gangue de Los Angeles organizou o ataque que matou o rapper em setembro de 1996. Davis se declarou inocente e nega participação no assassinato. 

A acusação afirma que o crime teria sido motivado por vingança. Horas antes dos disparos, Tupac e integrantes de sua comitiva se envolveram em uma briga no hotel MGM Grand, após uma luta de Mike Tyson. Imagens de segurança registraram o rapper e outras pessoas agredindo Orlando “Baby Lane” Anderson, sobrinho de Davis e integrante dos South Side Compton Crips

Segundo os promotores, Davis ficou com raiva após saber da agressão e decidiu revidar. A acusação sustenta que ele conseguiu uma arma e participou da organização de um grupo que saiu à procura de Tupac pelas ruas de Las Vegas. Mais tarde naquela noite, quatro homens em um Cadillac branco teriam localizado o BMW no qual estavam Tupac e Marion “Suge” Knight, chefe da Death Row Records

Por volta das 23h15 de 7 de setembro de 1996, o veículo se aproximou do carro de Knight em um semáforo e vários disparos foram efetuados. Tupac foi atingido quatro vezes e levado ao hospital em estado grave. O rapper morreu seis dias depois, no dia 13 de setembro, aos 25 anos. Knight também foi atingido, mas sofreu ferimentos leves.

Davis não é acusado de ter efetuado os disparos, mas para a promotoria isso não impede que ele seja responsabilizado pelo homicídio. A tese é que o ex-líder dos Crips atuou como organizador do ataque, forneceu a arma e estava dentro do Cadillac quando o crime aconteceu. Sob a legislação de Nevada, uma pessoa pode ser condenada por assassinato mesmo sem ter sido a autora material dos tiros caso seja considerada participante da execução do crime.

Declarações do próprio Keffe D estão no centro do julgamento

Um dos principais desafios da acusação é que, três décadas depois, não há uma grande quantidade de provas físicas disponíveis. Por isso, parte importante do processo está baseada nas próprias declarações feitas por Davis ao longo dos anos.

O réu falou repetidamente sobre a noite do assassinato em entrevistas, documentários e em uma autobiografia, “Compton Street Legend”, publicadas em 2019. Nesses relatos, admitiu estar no Cadillac de onde partiram os tiros e descreveu detalhes sobre os acontecimentos que antecederam o crime. As declarações públicas ajudaram a reacender uma investigação que permaneceu sem solução por décadas.

A defesa tenta justamente transformar essas declarações em uma fragilidade da acusação. O advogado Carl Arnold sustenta que Davis exagerou ou inventou histórias sobre sua participação para ganhar notoriedade e dinheiro. A estratégia é apresentá-lo como um narrador pouco confiável, cujas histórias não seriam suficientes para comprovar um homicídio ocorrido há quase três décadas.

O próprio Davis passou a rejeitar suas antigas declarações. Antes do julgamento, afirmou que não escreveu efetivamente o livro publicado em seu nome e que teria aceitado participar do projeto pelo retorno financeiro. Ele também recusou um acordo judicial e continua sustentando que não participou do assassinato.

Quem atirou em Tupac?

Embora o julgamento possa estabelecer judicialmente a responsabilidade de Davis, uma das questões que cercam o caso há décadas permanece relevante: quem puxou o gatilho?

Orlando Anderson, sobrinho de Davis, foi apontado durante anos como suspeito de ter efetuado os disparos, mas sempre negou envolvimento e nunca foi acusado formalmente pelo assassinato. Ele morreu em 1998, aos 23 anos, em um tiroteio não relacionado ao caso. Os outros homens apontados pela acusação como ocupantes do Cadillac também já morreram, deixando Davis como o único integrante do grupo ainda vivo.

Entre as pessoas que podem desempenhar um papel importante no julgamento está Suge Knight, que estava ao lado de Tupac no momento dos disparos e atualmente cumpre pena por um crime não relacionado. Ele já declarou que não vai ajudar no julgamento.

Os primeiros dias do julgamento já começaram a reconstruir a noite do crime diante do júri. Foram apresentados vídeos da briga no MGM Grand e depoimentos de policiais e testemunhas. Nesta terça-feira (18), uma médica legista também detalhou os ferimentos provocados pelos tiros e as complicações que levaram à morte do rapper após seis dias internado.

Davis foi preso e formalmente acusado em 2023, tornando-se a primeira pessoa levada à Justiça pelo assassinato quase 30 anos depois. O julgamento deve durar cerca de seis semanas. Caso seja considerado culpado, Davis pode ser condenado à prisão perpétua.

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Michael Fonseca