19 de agosto de 2026

Festivais e Shows

Kaytranada transformou Rio e São Paulo em uma grande pista de dança em nova passagem pelo país

Produtor haitiano-canadense retorna ao país com a turnê “Ain’t No Damn Way!” e reúne diferentes gerações em noites marcadas pela música negra global

Barbara Braga | 18/08/2026
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- Crédito: @thephotoinn \ @kaytranada

Não importa se você chegou até ele pelo hip hop, pelo R&B, pela música eletrônica ou por algum remix que apareceu inesperadamente em uma playlist. Em algum momento, quem escuta Kaytranada acaba entendendo que sua música existe justamente entre os gêneros, transitando por territórios onde as fronteiras sonoras deixam de fazer sentido.

Foi exatamente essa sensação que tomou conta das apresentações do produtor haitiano-canadense em São Paulo e no Rio de Janeiro, durante a passagem da turnê “Ain’t No Damn Way!” pelo Brasil. Mais do que shows, as duas noites se transformaram em celebrações da música negra global, reunindo públicos de diferentes cenas em uma mesma pista.

Em São Paulo, a apresentação aconteceu no Komplexo Tempo. No dia seguinte, o encontro se repetiu no Armazém da Utopia, na região portuária do Rio. Em ambas as cidades, a programação atravessou a madrugada e contou também com nomes como Deekapz, VHOOR, Marta Supernova e Aisha B2B Yaminah, reforçando a proposta de conectar diferentes sonoridades da diáspora em um mesmo espaço.

Quando a pista vira ponto de encontro

Poucos artistas da música contemporânea conseguem circular com tanta naturalidade entre universos distintos.

Kaytranada construiu sua carreira justamente explorando esses cruzamentos. Sua música carrega influências da house music, do funk, do soul, do jazz, do hip hop e do R&B, criando uma identidade própria que escapa das classificações tradicionais.

Essa mistura faz com que seus shows atraiam públicos igualmente diversos. Nas apresentações brasileiras, era possível encontrar fãs de música eletrônica dividindo espaço com admiradores de rap, frequentadores de bailes, amantes de R&B e pessoas que simplesmente buscavam uma noite para dançar.

Em vez de segmentar, Kaytranada conecta. E talvez seja exatamente essa capacidade que o transformou em um dos artistas mais influentes de sua geração.

Do Haiti para o centro da música global

Nascido no Haiti e criado em Montreal, no Canadá, Louis Kevin Celestin começou sua trajetória produzindo músicas no quarto de casa. O reconhecimento internacional chegou em 2012, quando seu remix de “If”, de Janet Jackson, viralizou na internet e chamou atenção da indústria musical. A partir dali, o produtor passou a ocupar um espaço cada vez maior dentro da cena eletrônica internacional.

A consolidação veio com o álbum “99.9%”, lançado em 2016, mas foi com “BUBBA”, de 2019, que Kaytranada alcançou um novo patamar. O disco reuniu participações de artistas como Kali Uchis, Pharrell Williams e Tinashe, além de render ao produtor dois prêmios Grammy.

Mais recentemente, o artista lançou “Ain’t No Damn Way!”, trabalho que dá nome à atual turnê e marca um retorno às raízes da música de pista, com produções voltadas para a experiência coletiva da dança.

Uma relação construída com o público brasileiro

A conexão entre Kaytranada e o Brasil não nasceu agora. Nos últimos anos, o produtor construiu uma relação especial com o público brasileiro, especialmente com os fãs do Rio de Janeiro.

Um dos episódios mais lembrados aconteceu em 2023, quando uma forte chuva alterou a programação de um show ligado à turnê de The Weeknd. Em menos de 24 horas, uma apresentação alternativa foi organizada e os ingressos se esgotaram rapidamente, criando um dos momentos mais comentados da passagem do artista pelo país.

Desde então, cada retorno se tornou uma espécie de reencontro. Não por acaso, a nova turnê foi recebida com entusiasmo por fãs que acompanham sua trajetória há anos e também por uma geração mais jovem que passou a descobrir seu trabalho através das redes sociais e plataformas de streaming.

A música negra sem fronteiras

Embora seja frequentemente associado à música eletrônica, Kaytranada representa algo maior. Sua obra dialoga diretamente com a circulação global da cultura negra, aproximando referências que nasceram em diferentes lugares do mundo.

Há ecos do Caribe, dos Estados Unidos, da África e da Europa convivendo em uma mesma faixa. Há também uma compreensão de que a música de pista pode ser um espaço de memória, pertencimento e troca cultural.

Por isso, assistir a um show de Kaytranada dificilmente se resume a acompanhar um DJ tocando músicas.

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Barbara Braga