11 de agosto de 2026

Afri News

Haiti se prepara para votar pela primeira vez em 10 anos em meio à maior crise de sua história recente

Após uma década sem eleições nacionais, país tenta reconstruir suas instituições democráticas enquanto enfrenta violência armada, deslocamentos e instabilidade política

Barbara Braga | 11/08/2026
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- Crédito: Reuters

Pela primeira vez em uma década, o Haiti caminha para a realização de eleições nacionais. Em meio a uma das maiores crises políticas e humanitárias de sua história recente, o país iniciou etapas fundamentais do processo eleitoral, incluindo o registro de eleitores, com o objetivo de conduzir a população de volta às urnas após dez anos sem uma votação nacional.

O momento é histórico. As últimas eleições presidenciais e legislativas do Haiti aconteceram em 2015 e 2016. Desde então, sucessivos adiamentos, disputas políticas, o assassinato do presidente Jovenel Moïse em 2021 e o crescimento da violência armada impediram a realização de novos pleitos.

A expectativa é que as eleições presidenciais e legislativas aconteçam ainda em 2026, marcando o retorno de um processo democrático que permaneceu suspenso por anos.

A ausência de eleições teve consequências profundas para a estrutura institucional haitiana.

Desde 2023, o país vive uma situação inédita: não possui representantes eleitos em exercício nos principais órgãos nacionais. A crise política foi agravada pela fragilidade das instituições e pelo avanço de grupos armados que passaram a controlar áreas estratégicas da capital, Porto Príncipe, e de outras regiões do país.

Hoje, grande parte da população vive sob o impacto direto da insegurança. Estimativas apontam que grupos armados exercem influência sobre boa parte da capital haitiana, dificultando o funcionamento de serviços públicos, a circulação de pessoas e, agora, a própria organização das eleições.

Mesmo diante desse cenário, o governo de transição e o Conselho Eleitoral Provisório defendem que a realização do pleito é essencial para restaurar a legitimidade democrática do país.

O desafio de votar em meio à violência

A abertura dos centros de registro eleitoral representa um passo importante, mas também evidencia os desafios enfrentados pela população haitiana.

Em diversas regiões, moradores convivem diariamente com confrontos armados, deslocamentos forçados e dificuldades de acesso a serviços básicos. Especialistas alertam que garantir a participação popular será uma das tarefas mais complexas do processo eleitoral.

Além da segurança, o país também enfrenta obstáculos logísticos e financeiros para organizar uma eleição em escala nacional. Ainda assim, autoridades haitianas afirmam que o processo eleitoral é uma das principais ferramentas para iniciar a reconstrução institucional do país.

Para além da disputa política, as eleições carregam um peso simbólico para uma nação que ocupa um lugar singular na história do mundo negro.

O Haiti foi a primeira república negra independente do planeta e nasceu da única revolução de pessoas escravizadas que conseguiu derrubar um sistema colonial e fundar um Estado soberano. Essa trajetória transformou o país em símbolo global de resistência e autodeterminação negra.

Por isso, o retorno às urnas também representa uma tentativa de reafirmar a capacidade do povo haitiano de definir seus próprios caminhos diante de uma década marcada por instabilidade, intervenções internacionais e sucessivas crises.

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Barbara Braga