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Haiti se prepara para votar pela primeira vez em 10 anos em meio à maior crise de sua história recente
Após uma década sem eleições nacionais, país tenta reconstruir suas instituições democráticas enquanto enfrenta violência armada, deslocamentos e instabilidade política
Pela primeira vez em uma década, o Haiti caminha para a realização de eleições nacionais. Em meio a uma das maiores crises políticas e humanitárias de sua história recente, o país iniciou etapas fundamentais do processo eleitoral, incluindo o registro de eleitores, com o objetivo de conduzir a população de volta às urnas após dez anos sem uma votação nacional.
O momento é histórico. As últimas eleições presidenciais e legislativas do Haiti aconteceram em 2015 e 2016. Desde então, sucessivos adiamentos, disputas políticas, o assassinato do presidente Jovenel Moïse em 2021 e o crescimento da violência armada impediram a realização de novos pleitos.
A expectativa é que as eleições presidenciais e legislativas aconteçam ainda em 2026, marcando o retorno de um processo democrático que permaneceu suspenso por anos.
A ausência de eleições teve consequências profundas para a estrutura institucional haitiana.
Desde 2023, o país vive uma situação inédita: não possui representantes eleitos em exercício nos principais órgãos nacionais. A crise política foi agravada pela fragilidade das instituições e pelo avanço de grupos armados que passaram a controlar áreas estratégicas da capital, Porto Príncipe, e de outras regiões do país.
Hoje, grande parte da população vive sob o impacto direto da insegurança. Estimativas apontam que grupos armados exercem influência sobre boa parte da capital haitiana, dificultando o funcionamento de serviços públicos, a circulação de pessoas e, agora, a própria organização das eleições.
Mesmo diante desse cenário, o governo de transição e o Conselho Eleitoral Provisório defendem que a realização do pleito é essencial para restaurar a legitimidade democrática do país.
O desafio de votar em meio à violência
A abertura dos centros de registro eleitoral representa um passo importante, mas também evidencia os desafios enfrentados pela população haitiana.
Em diversas regiões, moradores convivem diariamente com confrontos armados, deslocamentos forçados e dificuldades de acesso a serviços básicos. Especialistas alertam que garantir a participação popular será uma das tarefas mais complexas do processo eleitoral.
Além da segurança, o país também enfrenta obstáculos logísticos e financeiros para organizar uma eleição em escala nacional. Ainda assim, autoridades haitianas afirmam que o processo eleitoral é uma das principais ferramentas para iniciar a reconstrução institucional do país.
Les Haïtiens sont appelés à s'inscrire sur les listes électorales. Le premier tour des élections générales, les premières depuis 10 ans, est prévu doit se tenir le 13 décembre. Son organisation relève du défi : le pays est gangréné par la violence des gangs. pic.twitter.com/TtNYgMSsDL
— TV5MONDE Info (@TV5MONDEINFO) August 6, 2026
Para além da disputa política, as eleições carregam um peso simbólico para uma nação que ocupa um lugar singular na história do mundo negro.
O Haiti foi a primeira república negra independente do planeta e nasceu da única revolução de pessoas escravizadas que conseguiu derrubar um sistema colonial e fundar um Estado soberano. Essa trajetória transformou o país em símbolo global de resistência e autodeterminação negra.
Por isso, o retorno às urnas também representa uma tentativa de reafirmar a capacidade do povo haitiano de definir seus próprios caminhos diante de uma década marcada por instabilidade, intervenções internacionais e sucessivas crises.




