4 de setembro de 2026

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Estudante haitiano de 20 anos morre após perder status migratório e sofrer bullying nos EUA

Pierre Damas Bel havia acabado de começar a faculdade de Neurociência e, segundo a família, enfrentava sofrimento emocional após perder o status migratório e passar a ser monitorado pelo governo Norte Americano

Barbara Braga | 03/09/2026
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- Crédito: Instagram: De Pierre Damas Bel

A morte de Pierre Damas Bel, de 20 anos, provocou comoção na comunidade haitiana de Springfield, em Ohio, e reacendeu o debate sobre os impactos humanos das políticas migratórias dos Estados Unidos. O jovem, que havia acabado de iniciar a faculdade na Wright State University, morreu em 31 de agosto, em um episódio investigado pelas autoridades como aparente suicídio.

Segundo familiares e pessoas próximas, a saúde emocional do estudante havia se deteriorado nas semanas anteriores. Entre os fatores apontados estão a perda do Temporary Protected Status (TPS), a colocação de uma tornozeleira eletrônica pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) e episódios de bullying relacionados ao dispositivo.

A família afirma que Pierre se sentia humilhado e tratado como um criminoso, apesar de ter chegado aos Estados Unidos de forma legal e estar construindo sua vida acadêmica no país.

Pierre Damas Bel havia chegado aos Estados Unidos em 2024, vindo do Haiti para se reunir aos pais. Em maio deste ano, concluiu o ensino médio na Springfield High School com honras.

Na escola, participou do JROTC, programa de formação para jovens ligado às Forças Armadas americanas, e também jogava futebol. Em agosto, começou sua graduação em Neurociência na Wright State University, com planos de seguir carreira na área da saúde.

O estudante também havia recebido uma bolsa e era visto por familiares e integrantes da comunidade como um jovem dedicado aos estudos e com um futuro promissor.

Poucas semanas depois do início das aulas, porém, sua situação migratória se tornou uma fonte de angústia.

O fim do TPS para haitianos

Pierre estava entre os haitianos beneficiados pelo Temporary Protected Status, conhecido como TPS, uma proteção migratória concedida pelo governo norte-americano a cidadãos de determinados países considerados temporariamente inseguros para o retorno.

No caso do Haiti, a administração do presidente Donald Trump decidiu encerrar a proteção. Em junho de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos permitiu que o governo avançasse com o fim do TPS para haitianos, abrindo caminho para que milhares de pessoas perdessem a proteção contra deportação.

A medida atingiu uma comunidade que vive em um país de origem marcado por uma grave crise de segurança e humanitária. Organizações de defesa dos imigrantes alertaram para as consequências da decisão sobre centenas de milhares de haitianos que vivem nos Estados Unidos.

Foi nesse contexto que Pierre passou a enfrentar também um processo de monitoramento migratório.

A tornozeleira que passou a fazer parte da rotina

De acordo com o ICE, Pierre foi colocado em um programa de “Alternatives to Detention”, que permite o acompanhamento de imigrantes por meios eletrônicos enquanto seus processos migratórios continuam. A tornozeleira com GPS foi colocada em seu tornozelo em 29 de julho.

Para o jovem, porém, o dispositivo não era apenas uma ferramenta de monitoramento.

Em uma publicação nas redes sociais, Pierre escreveu sobre o desconforto provocado pela tornozeleira e afirmou que havia ido aos Estados Unidos para estudar, não para cometer crimes. Ele descreveu o sentimento de vergonha e humilhação causado pela necessidade de circular publicamente com o dispositivo.

Segundo seu pai, Pierre Ronal Bel, o filho chegou a procurar o ICE para pedir que a tornozeleira fosse retirada.

A situação também teria interferido diretamente em sua vida acadêmica e esportiva. Pierre havia sido recrutado pelo time de futebol da Wittenberg University, mas não conseguiu participar normalmente das atividades após receber o monitor.

“Não estou bem mentalmente por causa do bullying”

A família relata que o sofrimento aumentou quando Pierre passou a ser alvo de provocações de outros estudantes por causa da tornozeleira.

Segundo o pai, o jovem fez uma videochamada pouco antes de morrer e disse que não estava bem emocionalmente por causa do bullying. O pai pediu que ele voltasse para casa para que pudessem conversar.

Pouco depois, a família recebeu a notícia de sua morte. A comunidade haitiana de Springfield também relatou que Pierre estava profundamente afetado pelo estigma associado ao dispositivo.

Em uma vigília realizada em Columbus, capital de Ohio, amigos, familiares e representantes da comunidade prestaram homenagem ao estudante. O caso passou a ser também um símbolo das preocupações de imigrantes haitianos diante do endurecimento da política migratória no país.

Família relaciona morte ao contexto migratório

A família de Pierre e organizações que acompanham a comunidade haitiana afirmam que a perda do TPS, o monitoramento eletrônico e o bullying contribuíram para o agravamento de seu sofrimento emocional.

É importante, porém, diferenciar os relatos familiares das conclusões oficiais: as circunstâncias da morte ainda são investigadas pelas autoridades de Ohio. A relação entre as políticas migratórias e a decisão de Pierre de tirar a própria vida é apontada pela família e por integrantes da comunidade, mas não deve ser apresentada como uma causa médica oficialmente estabelecida.

O caso provocou manifestações de solidariedade e críticas às políticas de imigração do governo Trump. O governador de Ohio, Mike DeWine, classificou a morte como uma tragédia e também manifestou preocupação com os efeitos das políticas direcionadas à comunidade haitiana.

Uma comunidade que já vivia sob pressão

A morte de Pierre acontece em um momento particularmente delicado para a população haitiana de Springfield. A cidade passou a receber milhares de haitianos nos últimos anos, muitos deles atraídos por oportunidades de trabalho. A comunidade, entretanto, também se tornou alvo de discursos xenofóbicos e ataques políticos.

Em 2024, Springfield ganhou projeção nacional depois que Donald Trump e aliados espalharam alegações falsas sobre haitianos da cidade, incluindo a afirmação de que imigrantes estariam comendo animais de estimação. As declarações contribuíram para um ambiente de tensão e medo entre moradores haitianos.

Agora, com o encerramento do TPS, muitos desses imigrantes passaram a enfrentar incerteza sobre o próprio futuro, incluindo a possibilidade de deportação e novas medidas de controle migratório.

Para organizações que defendem os direitos dos haitianos, o caso de Pierre representa o impacto que decisões tomadas em nível federal podem ter sobre a vida cotidiana de pessoas que construíram suas famílias, estudos e carreiras nos Estados Unidos. A Haitian Bridge Alliance, por exemplo, destacou que a morte do jovem evidencia o custo humano do fim do TPS e do aumento da fiscalização migratória.

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Barbara Braga