4 de agosto de 2026

Cultura

Espetáculo protagonizado por Lincoln Oliveira apresenta Abdias do Nascimento a novas gerações: “Me apaixonei pela vida e pela obra dele”

Protagonista do espetáculo “Abdias do Nascimento”, ator destaca a importância de ampliar o acesso à obra do fundador do Teatro Experimental do Negro e levar seu legado para além da academia

Barbara Braga | 03/08/2026
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No Brasil, poucas figuras conseguiram unir arte, política e luta racial de forma tão profunda quanto Abdias do Nascimento. Fundador do Teatro Experimental do Negro (TEN), escritor, ativista, professor e parlamentar, ele ajudou a transformar a cultura em instrumento de enfrentamento ao racismo e de afirmação da identidade negra. Mais de uma década após sua morte, sua trajetória segue inspirando artistas, intelectuais e movimentos sociais. Agora, é a vez do ator Lincoln Oliveira levar esse legado aos palcos por meio do espetáculo “Abdias do Nascimento”.

A montagem, que integra a programação da 8ª edição do Melanina Acentuada Festival, em Salvador, e chega em seguida a São Paulo para uma curta temporada no Teatro J. Safra, propõe uma reflexão sobre memória, representatividade e resistência a partir da vida de um dos maiores intelectuais negros da história brasileira.

Para Lincoln, um dos maiores desafios é justamente aproximar essa história de pessoas que ainda não tiveram contato com a obra de Abdias. Embora amplamente estudado em universidades e centros de pesquisa, o intelectual ainda é desconhecido para grande parte da população brasileira. É essa lacuna que o ator acredita que o teatro pode ajudar a preencher.

Criado em 1944, o Teatro Experimental do Negro revolucionou a cena cultural brasileira ao abrir espaço para artistas negros em um período marcado pela exclusão e pela invisibilidade. Mais do que um projeto artístico, o TEN tornou-se um movimento político e cultural que ajudou a consolidar debates sobre representatividade, direitos civis e identidade negra.

Ao estudar a trajetória de Abdias, Lincoln afirma ter ficado impressionado com a atualidade de suas reflexões. Questões como o combate ao racismo estrutural, a crítica ao mito da democracia racial e a valorização da cultura afro-brasileira aparecem na obra do intelectual décadas antes de se tornarem temas centrais do debate público.

Arte como ferramenta de transformação

Para o ator, o teatro continua sendo uma das formas mais poderosas de provocar reflexão e despertar consciência social.

Após as apresentações, Lincoln costuma ouvir relatos de espectadores que descobriram aspectos da história brasileira que nunca haviam aprendido na escola. Essa reação reforça sua convicção de que contar histórias negras também é uma forma de educação.

Mais do que celebrar uma personalidade histórica, o espetáculo busca mostrar que Abdias do Nascimento foi um homem que construiu seu caminho enfrentando obstáculos e transformando conhecimento em instrumento de mudança. Uma trajetória capaz de inspirar jovens negros que ainda procuram referências para imaginar seus próprios futuros.

Depois de integrar a programação da oitava edição do Melanina Acentuada Festival, que neste ano homenageia os 80 anos do Teatro Experimental do Negro, o espetáculo segue para São Paulo, onde realiza apresentações entre os dias 7 e 9 de agosto no Teatro J. Safra. A montagem tem texto de Ivan Jaf e Diego Ferreira, direção de Johayne Hildefonso e Iléa Ferraz, e foi idealizada pelo próprio Lincoln Oliveira.

Em um momento em que a produção artística negra ocupa cada vez mais espaço nos palcos brasileiros, “Abdias do Nascimento” reforça a importância de preservar memórias que ajudaram a transformar o país. Ao revisitar a trajetória do intelectual, o espetáculo lembra que algumas lutas pertencem ao passado apenas no calendário. Na prática, continuam ecoando no presente e exigindo novas vozes para seguir adiante.

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Barbara Braga