4 de setembro de 2026

Música

Cassandra Wilson, uma das grandes vozes do jazz, morre aos 70 anos

Duas vezes vencedora do Grammy, cantora do Mississippi rompeu fronteiras entre jazz, blues, folk, R&B e outros gêneros e deixou uma marca definitiva na música contemporânea

Barbara Braga | 03/09/2026
Thumbnail
- Crédito: @reallycassandra | @nytimes

O jazz perdeu uma de suas vozes mais singulares. Cassandra Wilson, cantora, compositora e produtora norte-americana vencedora de dois Grammy Awards, morreu aos 70 anos, em sua cidade natal, Jackson, no Mississippi. Segundo comunicado de seu empresário, a artista morreu em casa, cercada por familiares, amigos próximos e sua equipe. A causa da morte não foi divulgada.

Mais do que uma intérprete de jazz, Wilson construiu uma carreira marcada pela capacidade de desafiar as fronteiras do gênero. Sua voz grave e expressiva, classificada como contralto, transitava com naturalidade pelo blues, folk, R&B, country, pop e rock, criando uma sonoridade que carregava tanto a tradição do Sul dos Estados Unidos quanto a experimentação.

Nascida em 4 de dezembro de 1955, Cassandra Fowlkes cresceu em Jackson, em uma família ligada à música. Começou a estudar piano ainda criança e, posteriormente, ampliou sua formação musical. A experiência de crescer no Mississippi, território profundamente marcado pelas tradições do blues e da música afro-americana, se tornaria parte fundamental de sua identidade artística.

Nos anos 1980, Wilson se mudou para Nova York, onde entrou em contato com uma cena musical que buscava novas possibilidades para o jazz. Foi nesse período que se aproximou do saxofonista Steve Coleman e passou a integrar o M-Base Collective, grupo de músicos interessado em experimentar novas estruturas rítmicas, improvisação e composição.

A experiência ajudou a formar a artista que, nos anos seguintes, encontraria uma maneira própria de dialogar com diferentes tradições musicais.

Cassandra Wilson não queria caber em uma única definição

Seu primeiro álbum como líder, Point of View, chegou em 1986. Mas foi a partir dos anos 1990, especialmente depois de assinar com a Blue Note Records, que sua carreira ganhou uma dimensão internacional ainda maior. Em 1993, Wilson lançou Blue Light ’Til Dawn, trabalho que se tornou um dos grandes marcos de sua trajetória. O álbum apresentou uma cantora disposta a olhar para o jazz sem tratá-lo como uma fronteira rígida.

Em suas interpretações, músicas associadas ao blues, folk, rock e pop podiam ganhar novas formas. A artista gravou obras de nomes como Joni Mitchell, Neil Young, Bob Dylan, U2 e Cyndi Lauper, sempre colocando sua própria identidade no centro das interpretações.

Essa liberdade também estava presente em suas composições. Cassandra não apenas cantava diferentes gêneros: ela fazia com que eles conversassem entre si.

Os dois Grammys e o reconhecimento internacional

A ousadia artística encontrou reconhecimento também nas principais premiações da indústria musical.

Cassandra Wilson recebeu quatro indicações ao Grammy e venceu duas vezes. A primeira vitória veio com New Moon Daughter, na categoria de melhor álbum vocal de jazz. O segundo prêmio chegou com Loverly.

Em 2001, a revista Time a descreveu como a “melhor cantora dos Estados Unidos”, reconhecimento que ajudou a dimensionar a influência que Wilson já exercia sobre o jazz contemporâneo.

Mas sua importância ultrapassava os troféus. Ao longo de décadas, a cantora colaborou com artistas de diferentes gerações e linguagens, entre eles Wynton Marsalis, The Roots, Elvis Costello e Angélique Kidjo. Sua participação em projetos que cruzavam jazz, música popular e tradições da diáspora reforçava uma característica que acompanhou toda a sua carreira: a recusa em escolher apenas um caminho.

TAGS:
AUTOR:
Barbara Braga