14 de maio de 2026

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Caixa Econômica encontra cadernetas de poupança abertas por pessoas escravizadas no século XIX

Documentos históricos revelam estratégias financeiras construídas pela população negra dentro da estrutura escravista brasileira

Barbara Braga | 13/05/2026
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- Crédito: @s3ufuturoex

A descoberta de pelo menos 158 cadernetas de poupança abertas por pessoas escravizadas no Brasil do século XIX voltou a escancarar uma discussão histórica que o país frequentemente tenta simplificar:
a população negra escravizada nunca esteve ausente da construção econômica brasileira.

Os registros foram encontrados pela Caixa Econômica Federal durante um trabalho de organização de arquivos históricos da instituição e mostram movimentações financeiras realizadas ainda antes da abolição da escravidão, em 1888.

Os arquivos ajudam a desmontar uma narrativa construída durante décadas sobre a vida das pessoas escravizadas no Brasil.

A escravidão também era atravessada por dinheiro, estratégia e sobrevivência

Durante muito tempo, a história oficial apresentou pessoas escravizadas apenas como corpos submetidos ao trabalho forçado, sem autonomia ou capacidade de circulação econômica.

Mas os documentos encontrados mostram uma realidade muito mais complexa. Mesmo dentro de um sistema violento e desumanizante, muitas pessoas negras escravizadas criavam formas de:

  • acumular dinheiro
  • comprar alforria
  • proteger familiares
  • realizar pequenos comércios
  • e construir estratégias mínimas de sobrevivência financeira

As cadernetas revelam que homens e mulheres escravizados que conseguiam guardar dinheiro formalmente em uma instituição bancária.

O apagamento histórico da relação da população negra com patrimônio e economia

A descoberta também ajuda a confrontar um apagamento histórico profundo, a ideia de que pessoas negras nunca participaram da formação financeira e econômica do país. Na prática, o Brasil escravista sempre movimentou grandes quantidades de dinheiro sustentadas justamente pelo trabalho negro.

E, paralelamente, pessoas escravizadas criavam redes próprias de circulação econômica dentro das possibilidades extremamente limitadas impostas pela escravidão.

Em muitos casos, essas economias eram utilizadas para tentar comprar liberdade própria ou de familiares. Por isso, os documentos encontrados possuem um peso simbólico enorme.

Eles mostram que a população negra não estava desconectada das estruturas econômicas do país. Ela foi violentamente impedida de acessar direitos, patrimônio e continuidade histórica.

Outro ponto importante da descoberta envolve memória. Grande parte dos arquivos ligados à população negra brasileira foi perdida, destruída ou negligenciada ao longo dos séculos.

Por isso, encontrar documentos como esses significa recuperar fragmentos de histórias que o país tentou apagar. Essas cadernetas guardam nomes, trajetórias, tentativas de autonomia e projetos de futuro construídos dentro de um sistema criado para negar humanidade à população negra.

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Barbara Braga