Música
“Bem Black 2”, a nova fase de Thiaguinho ao mergulhar na ancestralidade da black music e entregar um dos projetos mais simbólicos da carreira
Disco une pagode, soul, R&B e resgata a força cultural dos bailes black
Não é só mais um lançamento. Ao chegar ao seu 25º álbum de carreira,Thiaguinho escolhe olhar para trás para poder avançar e transforma “Bem Black 2” em um ponto de virada.
O projeto nasce como música, mas se estabelece como movimento. Um gesto consciente de reconexão com a história da música preta brasileira, especialmente com a atmosfera dos bailes black das décadas de 1970 e 1980, que ajudaram a moldar estética, comportamento e identidade nas periferias urbanas do país.
Gravado no Club Homs, em São Paulo, espaço simbólico para essa cultura, o álbum carrega mais do que referências: carrega presença. Segundo o artista, a energia da gravação atravessou o tempo.
“No dia da gravação, a sensação era de que tinha mais gente do que os presentes. A energia foi surreal. Cada detalhe foi fundamental para a construção do álbum.”
Essa reconstrução passa por escolhas estéticas cuidadosas: figurinos, direção de cena, reforço da banda com metais e uma linguagem visual que não replica o passado, mas o traduz. Existe, ali, uma sofisticação silenciosa, herdada dos bailes, que se manifesta no corpo, no gesto e na forma de ocupar o espaço.
“Nos bailes existia uma sofisticação silenciosa, no gesto, na postura, no olhar, que falava diretamente sobre autoestima. Com ‘Bem Black’, não se trata de reproduzir uma estética, mas de reinterpretar um comportamento.”
Se a estética aponta para o passado, o som projeta o futuro. Em “Bem Black”, o pagode deixa de ser tratado como gênero isolado e passa a ocupar seu lugar dentro de uma conversa maior da música preta global.
Ao dialogar com o R&B, o soul e o afropop, Thiaguinho reposiciona o pagode como uma tecnologia cultural viva, moderna, expansiva e conectada com outras diásporas.
“O pagode sempre teve ritmo, identidade e expressão. Muitas vezes colocam em uma caixinha regional, mas ele é universal. No álbum, é o tantan e o cavaco conversando com novas texturas e harmonias. É a black music com o swing do meu som.”
Esse movimento não é apenas musical, é também político e simbólico. Ao ampliar o alcance do pagode, o artista também amplia o entendimento sobre o que é música preta brasileira hoje.
Memória, referência e continuidade
“Bem Black” se preocupa em contextualizar referências em um cenário onde muitas dessas influências chegam às novas gerações fragmentadas via trends, samples ou estética, o álbum propõe uma reconexão com origem e significado.
A presença de nomes como Sandra Sá, além das homenagens a Tim Maia e Cassiano, não são apenas participações: são afirmações de continuidade.
“Referência sem contexto vira só estética. O meu propósito é trazer a história para o foco. O que a gente consome hoje é continuidade, e é importante que os jovens se enxerguem como parte disso.”
Aqui, o álbum cumpre um papel importante: o de ponte. Entre gerações, entre linguagens, entre passado e futuro.
Essa construção ganha corpo também fora do streaming. Com estreia ao vivo marcada, “Bem Black” foi pensado como experiência, uma imersão estética e sensorial que começa antes mesmo do palco.
A proposta não é apenas assistir, mas viver.
“Pertencimento. Essa é a palavra. O ‘Bem Black’ foi pensado como um ambiente de afirmação. Cada detalhe foi construído para despertar orgulho. Não é só assistir a um show, é se ver representado.”
Nesse sentido, o projeto amplia sua dimensão: deixa de ser apenas um álbum comemorativo dentro de uma carreira consolidada e se transforma em território simbólico. Um espaço onde memória, música, identidade e futuro coexistem.
E onde o público não é espectador, é parte da história.




