Esportes
Atletismo feminino muda regras de transmissão para combater a sexualização de atletas
Entidades esportivas europeias querem reduzir imagens que desviam a atenção da performance das competidoras
Por décadas, mulheres atletas precisaram disputar muito mais do que medalhas.
Enquanto treinavam para quebrar recordes, muitas também enfrentavam outro obstáculo: a forma como seus corpos eram retratados pelas transmissões esportivas. Câmeras posicionadas em ângulos específicos, closes prolongados e replays sem relevância técnica ajudaram a transformar performances históricas em conteúdos frequentemente marcados pela objetificação.
Agora, uma mudança importante busca alterar esse cenário.
A Federação Europeia de Atletismo (European Athletics) e a União Europeia de Radiodifusão (EBU) anunciaram novas diretrizes para transmissões esportivas com o objetivo de evitar a sexualização de atletas mulheres durante competições de atletismo. As recomendações passam a orientar a cobertura de eventos europeus a partir desta temporada.
Menos foco no corpo, mais foco na performance
As novas orientações sugerem que emissoras evitem imagens que historicamente foram alvo de críticas por parte de atletas e organizações esportivas.
Entre as recomendações estão:
- Evitar closes prolongados em partes específicas do corpo;
- Reduzir enquadramentos feitos de baixo para cima ou por trás das competidoras;
- Limitar o uso de câmeras lentas sem relevância esportiva;
- Priorizar imagens que ajudem o público a compreender aspectos técnicos das provas.
A proposta não busca diminuir a exposição das atletas, mas mudar a forma como elas são apresentadas ao público.
Segundo as entidades responsáveis pela iniciativa, a prioridade deve ser destacar habilidade, técnica, potência física e desempenho esportivo, e não atributos corporais desvinculados da competição.
As diretrizes foram desenvolvidas com participação direta de atletas que há anos denunciam esse tipo de abordagem.
Entre elas está a britânica Holly Bradshaw, medalhista olímpica do salto com vara, que relatou já ter enfrentado desconforto durante competições e repercussões negativas nas redes sociais após determinadas imagens serem amplamente compartilhadas.
A ex-campeã mundial de salto em distância Ivana Spanovic também colaborou na elaboração das recomendações e defendeu que o atletismo possui inúmeras possibilidades visuais capazes de valorizar a beleza técnica do esporte sem recorrer à objetificação das competidoras.
Uma discussão que vai além do atletismo
O debate não é novo. Nos últimos anos, atletas de modalidades como vôlei de praia, ginástica, tênis e atletismo passaram a questionar publicamente a maneira como as transmissões frequentemente enquadram mulheres de forma diferente dos homens.
A discussão ganhou força especialmente após os Jogos Olímpicos de Paris, quando organismos esportivos internacionais voltaram a debater práticas de cobertura consideradas sexistas.
O problema não está apenas na televisão. Com a velocidade das redes sociais, imagens retiradas de contexto podem circular amplamente, alimentar assédio digital e reforçar estereótipos sobre mulheres no esporte. As novas diretrizes também procuram reduzir esse tipo de exposição.
A decisão da European Athletics toca em uma questão maior: a forma como mulheres são lembradas dentro da história do esporte.
Quando uma transmissão escolhe destacar um corpo em vez de uma conquista, ela influencia a maneira como o público interpreta aquela atleta. E isso se torna ainda mais significativo quando falamos de mulheres negras, que historicamente tiveram seus corpos observados, julgados e explorados muito antes de terem seus talentos reconhecidos.
Ao propor uma cobertura centrada no desempenho, o atletismo europeu abre espaço para uma reflexão necessária: mulheres atletas não precisam ser protegidas da visibilidade. Elas precisam ser vistas pelo que realmente fazem.




