19 de setembro de 2026

África

A África é maior do que nos fizeram acreditar no novo mapa-múndi

Resolução liderada pelo Togo e pela União Africana foi aprovada pela ONU e incentiva o uso de projeções que representam com mais precisão o tamanho dos continentes

Barbara Braga | 18/09/2026
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- Crédito: Getty Images Signature | CBS

Se você aprendeu geografia usando o tradicional mapa-múndi de Mercator, provavelmente cresceu vendo a Groenlândia parecer quase do tamanho da África. Mas existe uma diferença enorme entre a representação no mapa e a realidade: a África é cerca de 14 vezes maior que a Groenlândia.

Essa distorção voltou ao centro do debate internacional depois que a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, em 4 de setembro, a resolução “Correct the Map”, que incentiva o uso de projeções cartográficas capazes de representar com mais precisão a proporção entre as áreas dos continentes.

A iniciativa foi liderada pelo Togo, em nome do grupo africano, com apoio da União Africana, e recebeu 164 votos favoráveis, um contrário e seis abstenções.

Por que a África parece menor no mapa?

A questão está na chamada projeção de Mercator, criada pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator em 1569.

A projeção foi desenvolvida para uma finalidade específica: facilitar a navegação marítima. Nela, linhas retas representam trajetórias de direção constante, o que ajudava navegadores a planejar suas rotas.

O problema é que essa representação distorce o tamanho das áreas. Quanto mais distante uma região está da linha do Equador, maior ela aparece no mapa.

Por isso, territórios próximos aos polos são visualmente ampliados, enquanto regiões próximas ao Equador parecem menores em comparação.

É o que acontece com a África.

Com cerca de 30 milhões de quilômetros quadrados, o continente é o segundo maior do planeta em extensão territorial, atrás apenas da Ásia. Ainda assim, em mapas baseados na projeção de Mercator, sua dimensão pode parecer muito menor quando comparada a regiões do norte do planeta.

A Groenlândia é o exemplo mais conhecido. No mapa tradicional, ela pode parecer próxima do tamanho da África. Na realidade, a África é aproximadamente 14 vezes maior.

O novo mapa não aumenta a África

É importante entender o que realmente está acontecendo. A nova representação não faz a África crescer e também não significa que o mapa de Mercator esteja simplesmente “errado”.

A resolução da ONU recomenda que, quando a comparação entre áreas for importante, sejam consideradas projeções de área equivalente, como a Equal Earth.

Desenvolvida em 2018, a Equal Earth foi criada para representar as áreas relativas dos continentes de maneira mais proporcional. Nesse tipo de projeção, a África aparece muito mais próxima de sua dimensão real em relação aos demais continentes.

E essa diferença pode ser percebida imediatamente quando os mapas são colocados lado a lado.

A África não ficou maior. O que muda é a forma como ela é representada.

Togo levou a discussão para a ONU

A campanha para “corrigir o mapa” foi conduzida pelo Togo com o apoio da União Africana.

Durante a sessão da Assembleia Geral, o ministro das Relações Exteriores do Togo, Robert Dussey, defendeu que a forma como os territórios são representados também influencia a maneira como as pessoas compreendem o mundo.

A resolução aprovada afirma que a representação cartográfica deve ser mais precisa e incentiva governos, escolas, organizações internacionais e empresas de tecnologia a considerar projeções de área equivalente quando a comparação do tamanho dos territórios for relevante.

O próprio texto adotado pela ONU deixa claro que a proposta não pretende estabelecer um único mapa obrigatório para o planeta.

A ONU proibiu o mapa de Mercator?

Não. A resolução não proíbe a projeção de Mercator e também não determina que todos os mapas do mundo passem a utilizar a Equal Earth.

O documento é não vinculante e reconhece que nenhuma projeção consegue representar perfeitamente em uma superfície plana tudo o que existe em uma esfera. Cada projeção cartográfica faz escolhas diferentes e pode preservar melhor determinadas características, como área, forma, distância ou direção.

Por isso, a Mercator continua sendo útil, especialmente em aplicações relacionadas à navegação. O objetivo da resolução é incentivar representações mais adequadas quando o tamanho relativo dos territórios for a informação mais importante.

Uma mudança que vai além do mapa

A discussão ganhou força justamente porque mapas não são apenas ferramentas técnicas.

Durante gerações, a projeção de Mercator esteve presente em salas de aula, livros, materiais institucionais, meios de comunicação e plataformas digitais. Ao mesmo tempo em que facilitava determinadas aplicações, ela fazia com que regiões próximas aos polos parecessem proporcionalmente maiores do que são.

A iniciativa liderada por países africanos coloca essa representação no centro de uma discussão internacional sobre como o mundo é apresentado e compreendido.

Na votação de setembro, a Assembleia Geral aprovou a resolução por ampla maioria: 164 países votaram a favor, um votou contra e seis se abstiveram. A decisão não muda o tamanho de nenhum continente. Mas pode mudar a imagem que milhões de pessoas têm deles.

E, quando o mapa muda, uma coisa fica evidente: a África nunca foi pequena. O que durante séculos mudou foi a forma como ela aparecia diante dos nossos olhos.

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Barbara Braga