20 de outubro de 2026

Entretenimento

15 anos de Miles Morales: o legado cultural do Homem-Aranha negro e latino

Mais do que uma versão alternativa de Peter Parker, Miles Morales ampliou as possibilidades de identificação com um dos heróis mais populares da cultura pop. Em 2026, os 15 anos do personagem ganham um novo contexto com a presença de seu cocriador, Brian Michael Bendis, na CCXP26.

Barbara Braga | 20/10/2026
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- Crédito: Sony/Divulgação

Quando Miles Morales apareceu nos quadrinhos da Marvel, em 2011, a proposta parecia simples de resumir: apresentar um novo Homem-Aranha. Mas, ao colocar um adolescente negro e latino sob a máscara de um dos super-heróis mais conhecidos do mundo, a editora abriu espaço para uma discussão que ultrapassava as páginas das HQs. Quem pode ocupar o centro de uma história tão popular? E o que acontece quando um personagem criado para ampliar os horizontes de uma franquia passa a construir uma identidade própria?

Quinze anos depois, Miles já não cabe na definição de uma versão alternativa de Peter Parker. Sua trajetória nos quadrinhos, no cinema e nos videogames ajudou a transformar a maneira como diferentes públicos enxergam o Homem-Aranha, mostrando que um herói pode preservar sua essência e, ao mesmo tempo, incorporar novas experiências culturais.

O aniversário do personagem também oferece uma oportunidade para revisitar seu impacto no Brasil. A CCXP26, marcada para os dias 3 a 6 de dezembro, em São Paulo, receberá Brian Michael Bendis, roteirista e cocriador de Miles, em uma participação no Artists’ Valley, em parceria com o Baú das HQs. A presença do artista ajuda a contextualizar a criação de um personagem que se tornou parte de uma transformação cultural mais ampla. CCXP26.

Quando o Homem-Aranha deixou de ter um único rosto

Criado por Brian Michael Bendis e Sara Pichelli, Miles Morales estreou em Ultimate Fallout #4, publicado em 2011, no universo alternativo da Marvel conhecido como Ultimate. Após a morte de Peter Parker naquela realidade, o jovem assumiu o manto do herói.

A mudança não aconteceu em um vazio cultural. Durante décadas, Peter Parker foi a principal referência do Homem-Aranha para gerações de leitores e espectadores. Embora o universo dos super-heróis já reunisse personagens de diferentes origens, a chegada de um jovem negro e latino ao protagonismo de uma franquia tão consolidada carregava outro significado.

Miles não precisava apagar Peter para existir. Sua presença questionava a ideia de que um personagem tão popular deveria ter apenas uma identidade possível. O manto continuava o mesmo, mas a pessoa por trás dele trazia outras experiências, referências e maneiras de enxergar o mundo.

Essa mudança também repercutiu entre leitores que historicamente tiveram menos oportunidades de se reconhecer nos protagonistas dos quadrinhos. Uma análise publicada pela Oxford University Press sobre a série de Miles destaca como o personagem alcançou públicos que se sentiam sub-representados ou retratados de maneira limitada nas HQs tradicionais.

Isso não significa que todas as pessoas negras ou latinas compartilhem as mesmas vivências, nem que um único herói possa representar comunidades inteiras. O diferencial de Miles está em mostrar que essas experiências também podem ocupar o centro de histórias de aventura, responsabilidade e amadurecimento, sem que a identidade do protagonista seja reduzida a uma questão social.

Uma identidade que vai além da máscara

Miles é negro e tem ascendência porto-riquenha, uma identidade que permite explorar diferentes dimensões da experiência afro-latina. Sua origem aparece nas relações familiares, na linguagem, na música e na vida comunitária, integrando a narrativa em vez de funcionar apenas como uma informação biográfica.

No jogo Marvel’s Spider-Man: Miles Morales, lançado em 2020, essa construção aparece na representação do Harlem e na relação do protagonista com a comunidade. O bairro não funciona apenas como cenário para as aventuras: ele faz parte do universo afetivo do personagem e ajuda a explicar seus vínculos e suas motivações.

Essa abordagem se distancia de representações em que personagens negros aparecem presos a estereótipos ou ocupam posições secundárias. Miles pode protagonizar uma aventura de super-herói e, ao mesmo tempo, carregar referências culturais específicas, sem precisar abandoná-las para que sua história alcance um público amplo.

Isso não torna todas as suas representações automaticamente completas ou livres de problemas. Estudos acadêmicos sobre a identidade afro-latina do personagem também levantam questões sobre os limites das grandes produções ao abordar raça e pertencimento. A discussão, portanto, não termina na presença de um protagonista diverso: envolve a maneira como sua identidade é desenvolvida e quais experiências ganham espaço na narrativa.

De personagem dos quadrinhos a fenômeno cultural

A chegada de Miles às telas ampliou o alcance dessa discussão. Em 2018, Homem-Aranha no Aranhaverso apresentou o personagem a um público que ia muito além dos leitores de quadrinhos. A animação colocou sua trajetória no centro de uma narrativa sobre identidade, responsabilidade e a possibilidade de encontrar uma maneira própria de ser herói.

No filme, Miles não se torna o Homem-Aranha simplesmente porque ocupa o lugar deixado por outra pessoa. Ele precisa compreender o que significa carregar esse símbolo sem abandonar aquilo que o torna único. A mensagem ganha força justamente porque o personagem não precisa se transformar em Peter Parker para merecer o uniforme.

O reconhecimento da produção também marcou a história da franquia: Homem-Aranha no Aranhaverso venceu o Oscar de Melhor Animação em 2019, consolidando a força de uma abordagem visual e narrativa que rompeu com o formato tradicional das adaptações do herói.

A sequência, Homem-Aranha: Através do Aranhaverso, lançada em 2023, ampliou esse universo e aprofundou os conflitos de Miles com as expectativas impostas a ele. Ao apresentar diferentes versões do Homem-Aranha, a franquia coloca em discussão o que define um herói e quem tem o direito de escrever a própria história.

A existência de tantas versões não diminui a importância de Miles. Pelo contrário: seu protagonismo mostra que um personagem pode conduzir a narrativa, tomar decisões e transformar o universo ao seu redor sem deixar de fazer parte de uma tradição já estabelecida.

O que muda quando o público se reconhece no herói?

A identificação com um personagem não depende exclusivamente de compartilhar sua aparência ou origem. Pessoas de diferentes contextos podem se reconhecer em histórias de amadurecimento, responsabilidade, medo e descoberta. Mas encontrar um protagonista que compartilha referências culturais e experiências familiares também pode produzir uma conexão particular.

Para crianças e adolescentes negros e latinos, ver Miles no centro de uma história global significa acompanhar um herói cuja identidade não precisa ser escondida para que ele seja admirado. Ele não é apresentado como uma exceção por ser negro e latino, nem precisa deixar essas referências de lado para se tornar universal.

Por muito tempo, a ideia de um herói universal esteve associada a personagens brancos, enquanto protagonistas de outras origens eram frequentemente tratados como histórias de nicho. Miles ajuda a desafiar essa divisão: uma narrativa com referências negras e latinas também pode alcançar públicos amplos sem abrir mão de sua especificidade cultural.

Seu impacto, porém, não deve ser medido apenas pelo número de pessoas que se identificam com ele ou pelo sucesso comercial de suas produções. A dimensão cultural está também no debate que o personagem provoca sobre a indústria do entretenimento, seus protagonistas e os limites históricos de quem recebe a oportunidade de representar o heroísmo.

A existência de Miles não resolve, por si só, as desigualdades na indústria dos quadrinhos, do cinema ou dos games. Mas demonstra que ampliar o repertório de protagonistas pode gerar histórias capazes de conquistar reconhecimento sem depender de um modelo único de herói.

Por que Miles Morales é maior do que uma versão alternativa?

Chamar Miles apenas de uma versão alternativa de Peter Parker reconhece a origem editorial do personagem, mas não dá conta do que ele se tornou. Ao longo dos anos, Miles desenvolveu conflitos, relações e referências próprias, enquanto suas adaptações levaram a discussão sobre identidade afro-latina a diferentes públicos.

Seu legado está na mudança de perspectiva que propõe. O Homem-Aranha não precisa deixar de ser reconhecível para que outras pessoas assumam o papel. O símbolo pode continuar existindo enquanto sua história se transforma, incorporando experiências que antes não estavam no centro da franquia.

É essa possibilidade que torna os 15 anos do personagem um marco cultural. Miles não precisa substituir Peter Parker, nem ser apresentado como uma versão superior do herói. Sua importância está em mostrar que uma franquia pode preservar sua essência e, ao mesmo tempo, ampliar quem tem espaço para protagonizá-la.

A presença de Brian Michael Bendis na CCXP26 oferece uma oportunidade para retomar essa discussão no Brasil. Ao receber um dos criadores de Miles, o festival aproxima o público de um personagem cuja trajetória ajuda a entender como os quadrinhos participam das conversas sobre identidade, cultura e pertencimento.

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Barbara Braga