Na trama, o monarca lidera o reino fictício de Batanga, um território marcado por heranças culturais da África Ocidental e por uma narrativa que conecta África e Brasil. Fora da ficção, Bungué também carrega uma história de travessias. Nascido na Guiné-Bissau, cresceu em Portugal e, desde 2012, mantém uma relação constante com o Brasil, onde já participou de produções exibidas em festivais internacionais.
Em entrevista para o Black Leaders, da Africanize, o ator reflete sobre os caminhos levados na carreira até a atuação na novela: “Nasci na Guiné-Bissau, cresci em Portugal e venho para o Brasil desde 2012. Já participei de pelo menos quatro ficções brasileiras que estiveram competitivas no Festival de Berlim e no Festival de Roterdã. Essa novela é uma oportunidade para que o grande público possa conhecer melhor o meu trabalho”, afirma.
Créditos: João Paulo
Para o ator, a presença em uma produção de alcance massivo representa um marco na carreira. Em uma indústria marcada por grandes talentos brasileiros, ele reconhece que sua trajetória carrega também uma singularidade.
“Naturalmente que eu tenho um diferencial por ter nascido no continente africano. E acho que a produção da novela foi sensível nesse aspecto. Isso valida bastante a trajetória que temos construído aqui no território do Brasil”, diz.
A dimensão simbólica do projeto também se manifesta na equipe envolvida. Além de Bungué, o elenco conta com consultoria histórica de profissionais africanos. Para ele, essa construção coletiva amplia a potência da narrativa.
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“Estamos a falar de cultura de massas, mas de uma cultura com um compromisso acrescido. Embora a herança africana seja transversal à história do Brasil, nem sempre tivemos a oportunidade de ver essa ficção contada de maneira potente.”
Na construção de Batanga, a produção buscou referências em diversas culturas africanas, o que também atravessa o figurino, a direção de arte e os símbolos presentes na narrativa.
“Há traços da etnia Edo na indumentária da família real. Os signos Adinkra estão bastante presentes. São símbolos que carregam filosofia, história e identidade.”
Para Bungué, interpretar Cayman II também é um exercício de afirmação de identidade. Ao longo de sua carreira, ele enfrentou um cenário em que artistas negros muitas vezes foram limitados a papéis estereotipados.
“Eu me entendo como um ator-artista. Não sou apenas um intérprete. Mesmo quando interpretei personagens mais comuns na ficção, como aconteceu muitas vezes em Portugal e no Brasil, quando muitos talentos negros eram vistos apenas em papéis de escravizados, eu tentei ser divergente e participar da concepção dos personagens.”
TV Globo/Estevam Avellar
Essa postura acompanha toda a sua trajetória. Em produções realizadas em países como Grécia, Bélgica, Índia, África do Sul e São Tomé e Príncipe, o ator consolidou um perfil artístico internacional, marcado pela capacidade de transitar entre diferentes contextos culturais.
“Eu tento diluir essa ideia de culturalismo nacionalista. Muitas vezes interpretei personagens que não tinham nada a ver com o meu background. Isso não é apenas um desafio profissional, é também uma possibilidade de crescimento humano.”
No caso de Nobreza do Amor, a construção do rei exigiu atenção a detalhes específicos da linguagem e da presença em cena.
“Curiosamente, eu não precisei interpretar uma espécie de rei, porque isso já está inerente à minha maneira de estar e de ser. O maior desafio foi trabalhar a prosódia para que o personagem não tivesse um sotaque muito português ou muito brasileiro.”
Ao falar sobre sua trajetória, Bungué evita romantizar. Para ele, a caminhada até aqui foi construída com persistência e resiliência. “Essa trajetória foi feita com sangue, suor e lágrimas. Se outros artistas puderem trilhar caminhos semelhantes sem precisar sair do seu país para conseguir oportunidades, eu preferiria.”
Com a estreia da novela se aproximando, ele acredita que o público brasileiro poderá acessar uma nova forma de olhar para as heranças africanas que também compõem a identidade do país.
“É um projeto que valoriza muito a herança africana neste país, mostrando-a sob uma lupa mais luminosa. Mais do que entretenimento, acredito que pode gerar um grande interesse cultural e investigativo sobre esses temas.”
Entre a ficção e a realidade, a figura do rei e a do artista se encontram em um ponto comum: a consciência de que a arte também é um instrumento de transformação.“O amor que coloco no meu trabalho reverbera naqueles que o consomem.”
Por fim, para o ator, o sucesso se trata também de abrir caminhos coletivos. “Essa trajetória foi feita com sangue, suor e lágrimas. Torço para que outros artistas possam trilhar caminhos semelhantes sem ter que sair do seu país para conseguir oportunidades.”